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Sessão de 09 de Novembro de 2019 - Conto XX

por Eduardo Gomes, em 13.11.19

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DIA DE MOUROS

Hoje foi dia de entendermos a aventura africana de Portugal no território actual de Marrocos. Mais de três séculos de história que acabaram no cerco de Mazagão, corria 1769.

Posto que no conto anterior observáramos a conquista de Ceuta, trouxemos desta feita a derrota de Tânger. Prenúncio das futuras perdas? Parêntesis que moldou novas vitórias? Veja cada qual conforme lhe aprouver.

Tal como Afonso V abandonou África para vir atrás do sonho da união ibérica, também nós lhe seguiremos os passos, para, no próximo conto, analisarmos o que se passou com Joana, a Beltraneja, versão bolorenta da nossa Beatriz de Portugal, ocorrida cerca de oitenta anos antes. É que, face ao desejo de poder dos homens, a história (mesmo a trágica) repete-se. E, tal como no futebol, os contendores até mudam de campo ao intervalo, que é como quem diz, mudam de princípios. Ópera grega.

 

ELES

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DESAFIO VOCABULAR

Eis as propostas de enriquecimento vocabular apresentadas:

(Carácter) tíbio....................... frouxo;

Ergástulo............................... prisão;

Virar a agulha......................... mudar de ideias.

 

ELAS

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Face às pontuações obtidas, os mais bem classificados são:

Maria Lorena............................160 Pontos

Lourenço Pinto..........................145

João Machado...........................145

João Fernandes.........................140

 

Pela fotogenia e tez, o Manuel foi eleito Al-Mansur Billah, isto é,

O VITORIOSO PELA GRAÇA DE DEUS 

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Notas:

A Maria Lorena, excepcionalmente, perdeu 10 pontos;

A partir do próximo mês, regressaremos ao figurino relacionado com a aprendizagem por repetição e estudo das expressões e vocábulos a concurso no bimestre Outubro/Novembro.  Durante a semana do conto de Dezembro, relembrarei todas as expressões a concurso.

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publicado às 17:46

Conto XX - "Al-Magrib"

por Eduardo Gomes, em 07.11.19

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A epopeia de Portugal no Norte de África começou em 1415 com a conquista de Ceuta. De legitimidade serviu a João, o da Boa Memória, cujos destemperos de consciência justificam que equacionemos o porquê de tal cognome. Muçulmanos e genoveses, gente habituada a mercadejar na cidade, preste desandaram. Qual rota do ouro e das especiarias: nada. O futuro revelava-se: uma cidade fantasma, sem muçulmanos, sem comércio e sem gente para trabalhar, a requerer permanente apoio do reino.

Contudo, já anteriormente por lá haviam bordoado ou espadeirado povos estabelecidos na Península, tais como os Lusitanos ou os Visigodos, e, diz a lenda, morrido o primeiro comandante da armada portuguesa, Fuas Roupinho, sem esquecer Giraldo, o Sem Pavor, que, por artes do diabo, tentou seduzir Afonso Henriques a atravessar o Estreito. Para trás deixámos propositadamente fenícios, gregos, cartagineses e romanos, posto jamais haverem sido inteiramente “nossos”, antes, e com mais propriedade, “viajantes do mundo”.

A Tânger fomos, as duas primeiras vezes sem proveito, algo que se assemelhou ao proverbial “ir por lã e volver tosquiado”. À terceira, a confirmar que “é de vez”, o fruto caiu-nos nas mãos de maduro. Sem engenho, diga-se. Oferecê-lo-íamos mais tarde, a título de dote ou prémio pela infidelidade e maus-tratos de Carlos II sobre a Catarina. Essa mesmo, a do “chá das cinco.”

O cavalheiresco, arcaico e idealista rei Africano afadigou-se em superar os seus émulos logo que Calisto III anunciou, corria 1455, a cruzada contra o Turco. Porém, os tempos haviam mudado, outros valores mais altos se levantavam entre os reinos cristãos. Para não deitar menino e água do banho fora, Afonso pegou nos preparos e bulas e virou a agulha da expedição para Alcácer-Ceguer. De lado, sorriu o tio, o impenetrável infante D. Henrique. É que se ia concretizando o sonho de montar em terra, a ocidente, um conjunto de apoios nevrálgicos para a aventura atlântica: o célebre plano das Índias, com ou sem o Preste e o seu mítico reino cristão situado algures no interior de África.

Chegara entretanto a vez de Anafé, a actual Casablanca. Se posteriormente arrasada ou simplesmente abandonada, é mistério que está por resolver. Porquê? Porque ficava muito a sul, tal como Arguim e o golfo da Guiné. Mas não era das regiões subsarianas que vinha o ouro? Era, mas Afonso V, qual Santiago, sentia-se mais vocacionado para “mata-mouros.”

Desaparecido o marinheiro de água doce, isto é, o mito a que chamamos o Navegador, epíteto sem sentido, fomos por Arzila. Canto de sereia do monarca que por ali se ficaria à mercê do apelo europeu nos braços infantis de Joana, a Beltraneja. D. João II seguiu o concelho de Pedro, o tio avô morto em Alfarrobeira pelos exércitos do pai, e sonhou mais alto. Da Mina, terra que não vem aqui ao caso, viria a vertigem da riqueza fácil. Outras histórias.

Do rei Venturoso se dirá que nasceu com “o dito cujo virado para a Lua”. Com ele se construiu a fortaleza Santa Cruz do Cabo de Guer, a actual Agadir, e se conquistou Safim, enquanto em Arzila soavam as trombetas a anunciar o cerco da mourama. Em 1506 edificámos o Castelo Real de Mogador, depois Essaouira, para, seis anos mais tarde, o abandonarmos. No biénio seguinte converteríamos Azamor e Mazagão em terras cristãs. Fachada para “Papa ver”, entenda-se.

Deixemos Manuel, o Felicíssimo, e passemos ao Piedoso D. João III. Débil de intelecto, teve o condão de dizer “basta! ” ao “sorvedouro do reino” em que Marrocos se transformara. Demos, pelo canto do olho, uma piscadela a al-Madi que, ao reverter a posse de Santa Cruz do Cabo Guer, nos obrigou a constatar uma realidade: os reinos de Fez, Marraquexe e Mequinhês unidos eram de mais para Nação tão pequena enfrentar por si só. Era chegado o tempo de reforçar as praças de Mazagão – hoje El Jadida – Tânger e Ceuta. Quanto às restantes possessões, tudo o vento do deserto levaria. Conquistas que nada acrescentaram ao reino, para além do garbo militar, da extorsão e da prossecução de interesses privados.

O louco Sebastião empurrou Portugal para o abismo de tanta ambição quixotesca. Nos campos de Alcácer-Quibir ficaram os corpos dos muitos mortos e 16 000 prisioneiros. Renegados se fizeram... está bem, está bem, elches, se assim o desejam. Sorte grande para quem arriscou na apostasia e na roda da fortuna, que, por aquele tempo, arredados andavam os agarenos do fanatismo religioso.

Moribunda ia já a Idade Moderna, quando a Lisboa chegaram novas de Mazagão. Os seguidores de Mafoma resolviam pôr ponto final num sonho que se transformara em pesadelo. Constou que recorriam a trincheiras com aproches e novas técnicas de minagem das fundações das fortalezas: – “Tudo para casa – ordenou o Marquês. – Acabou-se a África minha.” Passou a ser “deles”, dos muçulmanos... ou talvez não, pois Espanha tem dois pesos e duas medidas, consoante se discute Ceuta, Gibraltar ou mesmo Olivença.

TÂNGER: PARÊNTESIS OU PRENÚNCIO?

Em Ceuta, apoiado nas ameias da fortaleza, D. Pedro de Meneses olhava a noroeste, como se esperasse a chegada de alguém ou o vazio o incomodasse. Era, em 1436, um homem rico, nobilitado por D. João I e aclamado em Lisboa como herói, mais pela governação que pelos feitos de armas no território africano. Conseguira o grande objectivo a que dedicara a vida: fazer renascer o poder e influência dos Meneses, os quais haviam sido completamente derrotados em Aljubarrota.

Ultimamente, o capitão vinha dando sinais de cansaço, nada de mais para um ancião com sessenta e três anos. Duarte de Meneses, o único filho varão, ainda que de barregã, andava preocupado com tamanha abulia. Aproximou-se de mansinho:

– Que se passa, meu pai, que vos vejo assim tão angustiado?

– Do reino chegaram-me novas de que se prepara farta armada para vir por Tânger.

Consciente da situação local, Duarte não se conteve:

– Mas é praça forte, protegida pelas montanhas e, como se não chegasse, capitaneada por Zalá Benzalá, que desde há 22 anos anda a jurar vingança pela perda de Ceuta. É verdade que a cidade tem um bom porto de mar ...

– Faca de dois gumes: o que serve para atacar, também serve para defender. Não entendo como o rei se deixou envolver em tal aventura. No tempo do pai não se faziam assim as coisas

– Quiçá andará mal aconselhado – insinuou o jovem.

A retoma da ideia da expedição a Marrocos não era nova. Já em 1432, ainda em tempo do pai, Henrique propusera tal aventura. Todavia, o primogénito real, de há muito responsável pela Fazenda, opôs-se por razões ligadas ao estado do Erário Régio. Adiado ficaria o projecto. Três anos mais tarde, Fernando, o mais novo dos filhos de D. João e Filipa de Lencastre, dirigiu forte lamento junto do já então monarca, o irmão Duarte:

– Majestade, custa-me viver à custa de vossa Fazenda. Eu sou mancebo que nada fez na vida digno dos pais e irmãos que tenho. Peço-vos que me concedeis bênção e licença para me ir fora destes reinos.

– Que dizes, Fernando? E para onde irias?

– Onde Deus e a minha ventura me guiarem. Acaso os estados papais; quiçá França; porventura as terras do imperador da Alemanha, regiões com grande largueza de terras

El-rei não podia aceitar tamanho pedido. Logo volveu:

– Ambição exagerada tens. É preferível o pouco dentro do reino, do que o muito fora dele. Ademais és mestre de Avis, donde te vem riqueza que te dignifica. Repara em teu irmão João, a quem ofereci o mestrado de Santiago, bem menos valioso do que o teu, e com ele se contenta.

 

(Continua)

 

Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

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publicado às 23:08

Sessão de 12 de Outubro de 2019 - Conto XIX

por Eduardo Gomes, em 07.11.19

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Voltámos com o Outono. Assim estava previsto.

Dedicámos este primeiro conto do ano IV à conquista de Ceuta. Todavia, não nos limitámos à epopeia que caracteriza tal vitória. Fomos mais longe, abordámos o "dia seguinte" para entendermos que a um objectivo deve corresponder um fim. Algo que os políticos de hoje -- seis séculos depois --  ainda não entenderam. E, pese a manutenção da praça em mãos cristãs em pleno século XXI, a cidade revelou-se, no dizer do infante Pedro, "um sorvedouro do reino". Do plano tão profundamente elaborado, pouco mais restou para além do garbo militar, da prática do saque, da extorsão e da prossecução de interesses privados. A começar pelo designado (que remédio, não é, João I?) capitão, Pedro de Meneses.

Perderíamos a cidade, em 1640, quando o governador, D. Francisco de Almeida, se meteu em "democracias anacrónicas". Ingenuidade ou fatalismo? Maktub!

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DESAFIO VOCABULAR

Ausente o João Fernandes, um dos líderes ao fecharmos Junho, as propostas de enriquecimento vocabular foram:

Pobreza franciscana, expressão cujo significado é mediocridade;

Angras, que se trocam por enseadas;

Escudela, versão para uma tijela de tamanho reduzido. 

 

Face às pontuações obtidas, os mais bem classificados são:

Maria Lorena............................130 Pontos

Lourenço Pinto..........................120

João Machado...........................105

João Fernandes.........................100

Hugo Âmbar...............................70

 

Em linha com a filosofia seguida no conto anterior, focaremos de novo a concentração em sala. A partir do próximo mês, regressaremos ao figurino relacionado com a aprendizagem por repetição e estudo das expressões e vocábulos a concurso no bimestre Outubro/Novembro.      

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publicado às 23:07

Conto XIX - "Sonho e Pesadelo"

por Eduardo Gomes, em 10.10.19

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SONHO E PESADELO

Corria o ano de 1411, quando o vedor da Fazenda Real, João Afonso de Alenquer, se cruzou propositadamente com suas altas majestades os três infantes filhos mais velhos de D. João I. Tomando o herdeiro gentilmente pelo braço, assim lhe falou:

– Que saudades tenho doutros tempos... Ontem mesmo não passáveis de crianças...hoje sois homens feitos. Nas veias corre-vos sangue Avis e Lencastre, exemplo para todos os vossos súbditos.

Duarte suspeitou do elogio despropositado e logo replicou:

– Deixa-te de volteios, que é coisa é mais própria para os salões dançantes. Que nos queres dizer, João Afonso?

Contudo o vedor não parecia disposto a abrir o jogo. Ademais sabia bem ao que ia:

– Nada tenho em mente, Senhor, que não o bem da nossa terra e da real família...

– Desembucha, homem, que já me estás a pôr nervoso.

– É que chegou-me aos ouvidos a intenção de vosso pai em vos armar cavaleiros...

João Afonso acabava de tocar na ferida que sabia dolorosa para os infantes.

– Sim, é verdade, já no-lo prometeu.

De lado, Henrique não se conteve:

– Quer promover uma festa cavaleiresca para tal ocasião

Malicioso, o vedor logo aproveitou a deixa:

– Não me recordo de ver tal desprestígio nestes reinos. A nobreza de serdes armados cavaleiros obtém-se em combate com a mourama, não nos salões reais.

Até Pedro, o mais comedido dos infantes, achou por bem intervir na conversa, fazendo-o com a inteligência que já na ocasião demonstrava:

– Que propões que façamos, João? Pergunto-to, porque é óbvio que trazes pensamento feito.

– Unam-se e intercedam junto do rei vosso pai. Pedi-lhe que vos confie a direcção do projecto de conquista do litoral marroquino.

E, passada a surpresa inicial:

– Imaginai: Tânger... Arzila e, porventura mais tarde, Salé, Alcácer, Anafé, Azamor, Santa Cruz do Cabo de Goé...

A Henrique, sempre impetuoso e impulsivo, parecia-lhe escutar música celestial. Porém, mais comedido se mostrou Duarte:

– Conseguíssemos de nosso pai permissão para nos irmos primeiro a Ceuta, que mais à mão nos fica... Quanto ao resto, logo se veria.

O caminho estava trilhado. Por já o haver discutido com o rei, bem sabia João Afonso da oposição daquele a tal projecto, ou assim o cria. O caso era que desde Aljubarrota, vinte e cinco anos atrás, estavam as armas portuguesas a enferrujar. A guerra era o meio fácil para a nobreza fazer fortuna, fosse pelo saque ou pela mercê real. O descontentamento atingia particularmente os filhos segundos daqueles, gente afastada legalmente da herança paternal. Muitos haviam mesmo partido, sobretudo para Inglaterra, para se juntarem aos exércitos do aliado que combatiam os franceses.

– Importante é desviá-los das acções depredadoras sobre as terras fronteiriças de Castela. Ainda há bem pouco alcançámos uma paz sustentável, e não quero, nem por sombras, envolver-me noutra guerra com tal vizinho – assim explicara o monarca ao vedor o pensamento que alinhavara.

– Mas Alteza, a expansão para África é também uma forma de guerra. Eu que o diga, que bem o sei pelos custos que enfrentamos com a reconstrução do reino, e pelos quais tanto temos desvalorizado a moeda e tornado a vida cruel ao povo. Imaginai, por um minuto, que os infantes dão em cismar em tal aventura?

– Cá estarei para os contrariar.

– É mesmo vossa opinião que seria descabido tal plano?

– Não é assunto em que não tenha já pensado.

Na verdade, D. João não estava assim tão seguro de que, ponderados prós e contras, continuaria tão irredutível. A questão era que, naquele momento, convinha-lhe que o vedor fosse tão assertivo quanto possível na estratégia de manipulação da opinião dos infantes.

Bem preste os filhos se dirigiram ao pai, Henrique à cabeça, excitado com a ideia da aventura africana. D. João não os quis desencorajar, fazia mesmo parte do plano animar os infantes a continuarem no seu propósito. E, por tal, colocou-lhes uma dúvida acima de tudo o mais:

– Necessito saber se a aventura africana é serviço de Deus, pois sobre tal premissa devemos fazer nosso alicerce.

Rapidamente os jovens buscaram o apoio dos mais importantes clérigos do reino, todos unânimes em considerarem a importância da expansão da Fé... e, se possível, a corrida às bulas e aos rendimentos eclesiásticos, objectivos a tresandarem a poder temporal.

Da busca por tão transcendentes testemunhos, viu-se o rei compelido à sua aceitação:

– Concordo que isto seja inteiramente serviço de Deus.

Porém novas questões se colocavam:

– Agora, é de ver se sou poderoso para o fazer Achei muitas e grandes dúvidas, das quais principalmente direi cinco:

– primeiramente, considero que para semelhante feito se requerem mui grandes despesas, dinheiro que eu não tenho;

– secundariamente, é necessário uma mui grande frota de navios;

– a terceira cousa é a abastança da gente que não tenho, e eu não tenho a de fora nem a esperança como a haja, principalmente pelo falecimento do dinheiro;

– a quarta dúvida que tenho é considerar que o filhamento desta cidade me pode fazer maior dano do que proveito;

– a quinta cousa me parece que é, sendo assim que cobremos esta cidade a nosso poder, que nome ou honra nos vem se ao adiante não pudermos manter ou defender?

Por aquela não esperavam os infantes. Henrique logo se incumbiu de ir analisar e ponderar nas soluções a tantas dúvidas.

 

(Continua)

 

Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

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publicado às 18:23

Sessão de 22 de Junho de 2019 - Conto XVIII

por Eduardo Gomes, em 24.06.19

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Um dia especial marcado pela homenagem que, por esta ocasião, fazemos aos pais que, nove meses por ano, trazem até nós crianças interessadas em conhecer a História do território onde nascemos ou adoptámos para viver.

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A sessão de hoje, aberta a todos -- até a estranhos --, porque levada a cabo no pátio exterior da Biblioteca, iniciou-se com um conto a recordar-nos o lado místico da Humanidade: a atribulada existência de Virgílio que recupera o trono de Ludhiana com a ajuda dos deuses do Olimpo.

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Vitualhas gentilmente trazidas pelos participantes, fizeram as delícias de todos, que a hora ia adiantada e um "ratito" já ameaçava estômagos vazios.

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Por último a esperada pantomina com que o autor do projecto -- sem esquecer a valiosa colaboração da Heratânia --  inunda de sorrisos e boa-disposição a audiência.

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Voltaremos para o ciclo Outubro/2019 - Junho/2020. Iniciaremos com um conto sobre os primórdios da expansão africana e planeamos atingir no final daquele a trágica perda da indepência de Portugal. Contos originais com uma visão muito própria baseada na criatividade, no rigor e na capacidade de comunicação: um desafio para fazer de uma boa história a base para nos apaixonarmos pela História.

Aqui deixo o calendário do próximo conjunto de sessões:

12 de Outubro de 2019; 09 de Novembro de 2019; 14 de Dezembro de 2019; 11 de Janeiro de 2020; 8 de Fevereiro de 2020; 14 de Março de 2020; 18 de Abril de 2020; 09 de Maio de 2020; 20 de Junho de 2020.

 

Nota: Devido aos múltiplos afazeres, não foi possível transcrevermos o relato da sessão realizada a 11 de Maio. Refira-se que 4 das crianças presentes atingiram a pontuação máxima do concurso "Descobre o Vocábulo". Assim, ao final do terceiro conto, os mais bem classificados são:

Maria Lorena, João Fernandes: 100 Pontos

Lourenço Pinto: 90

João Machado:  75

Hugo Âmbar:     70

Recordo que a pontuação até agora alcançada acumulará com a das sessões do próximo ciclo 2019/2020.

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Aqui deixo uma parte do conto apresentado. O texto completo será enviado a todas as crianças cujos pais o solicitem.

 

CONTO XVIII

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O GILA NO OLIMPO

Ludhiana não era reino de facínoras. Ali, poucos crimes se cometiam, os conflitos não passavam das vulgares quezílias entre grupos sociais com interesses distintos. Nada de mais. Contudo, o rei Leovigildo há muito decidira ser tempo de acabar com os privilégios que os seus antecessores haviam concedido aos mais poderosos: a nobreza de armas e o clero de orações não menos mortíferas. Tantos foram os vexames e impostos sobre estes que o fim se adivinhava a qualquer momento. A borrasca rebentou quando Eurico entendeu liderar um golpe de Estado contra o irmão mais velho. Falar-se do sangue que correu é pouco. Em poucas horas tudo mudou. Quem se sentira anteriormente achincalhado, rejubilou; quem vira fugaz luz no horizonte da justiça, recolheu-se de novo à mais profunda servidão.

Virgílio, o herdeiro real, fora encerrado na torre de menagem do castelo. Ia para três anos que o infante dali não saía. O interior do edifício era quadrado, teria de lado cerca de dez dos seus pequenos passos. O local possuía uma janela situada a bons cinco metros de altura. Era por aquela que entrava o Sol e, no Inverno, também o frio, ainda que mantas e peles curtidas não faltassem ali.

Todas as manhãs lá se deslocava o Arménio. O petiz, nove anos incompletos, conhecia-o dos tempos em que tanto fizera rir a corte. O antigo truão era um velho corcunda, todavia rijo de ossos e ágil como cabrito montês. Chegava-se à fresta pelo exterior e deitava uma escada de corda pela qual rapidamente descia. A tiracolo, levava uma cesta com comida que deixava pousada pelo chão. Logo após fazia o percurso inverso para só voltar no dia seguinte. O menino surpreendera-se ao princípio com a mudez do ancião. Tentara, inclusive, chegar-lhe à fala, repetira mesmo algumas das graças que lhe ouvira. Mas qual o quê?, nada, nem a razão para tão bizarro comportamento. A intervalos de tempo regulares, isto é, coisa que o menino estimava semana sim, semana não, habituara-se a que o Arménio – que outrem poderia ser? – ali fosse deixar palha seca que arrumava a um dos cantos. Fazia-o de noite, ocasião em que a criança dormia o sono dos justos.

Como procedia o bobo para que nunca o houvesse detetado em tal tarefa? Certamente não atiraria a palha pela janela, que o vento a espalharia por todo o lado. Como tempo era o que ali não parecia faltar-lhe, o rapazinho decidiu virar a divisão do avesso em busca duma porta de acesso ao exterior. Quiçá a encontrasse; porventura estivesse ali a oportunidade de fugir. Começou a tarefa bem cedo, logo que terminada a visita diária do corcunda. Primeiro usou as mãos na tentativa de encontrar vestígios de algum alçapão. Depois buscou com que raspar as paredes uma por uma. Noite fechada, cansado, deu a tarefa por impossível e chorou copiosamente, tanto que acabou por adormecer. Subitamente, nem ele saberia precisar quando, ouviu uma voz:

– Porque choras, Virgílio? Um homem não chora.

O petiz acordou atemorizado. Ouvira aquela frase da boca do tio fratricida três anos atrás. Fora mesmo a coragem de não chorar que o salvara da morte, ou pelo menos assim lho dissera aquele. Com a vista afirmada e o coração a parecer querer saltar-lhe do peito, perguntou:

– Quem és tu, que não te enxergo nem sinto teu respirar? Acaso terá meu tio morrido e sejas a alma de tamanho velhaco?

(Continua)

 

Boas férias a todos!

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publicado às 20:45

Conto XVII - "A tarde de todas as decisões"

por Eduardo Gomes, em 10.05.19

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Liberta de castelhanos em Outubro de 84, Lisboa sarou as feridas e preparou-se para o que de lá viria. Nuno Álvares Pereira constituíra uma força especial de cavalaria com cerca de 300 homens escolhidos entre os mais leais ao partido português. Entre estes estava Ramiro Fróis Coutinho, segundogénito de afamado e poderoso clã das Beiras. O pai, o velho Leopoldo, ficou estupefacto perante a decisão do filho em se aliar às forças do mestre de Avis:

– Pequice a tua. A nossa família sempre pugnou pela lealdade ao rei. Queres desgraçar o nome dos teus antepassados?

– O pai fala de lealdade, mas a verdade é que não o vejo comprometer-se com lado algum, antes o sinto na expectativa, como que a ver para que lado sopra o vento.

– Estás a confundir cobardia com bom-senso.

– Onde o pai vê bom-senso, vejo eu, perdoe-me que lho diga, manha de burro velho.

Para o progenitor, a ter de envolver a linhagem na luta, melhor faria em apoiar o monarca castelhano, acreditando que, em caso de vitória, veria honra e acrescentamento, e, mesmo em contrário, Juan seria magnânimo ao ponto de compensar – em Castela – os Coutinho pelas perdas e exílio forçado. Foi naquele preciso momento, ainda a tempo de escutar tais palavras, que entrou no solarengo salão o irmão mais velho, Sesnando Fróis Coutinho. Logo entendeu intervir no diálogo:

– Se discordo por inteiro de meu irmão, também não posso concordar com o pai. O herdeiro de direito é o infante João, ora preso em Toledo. Apoiar Juan é fazer o jogo dos Castro, dos Tello e dos Meneses: é ainda ficarmos submetidos à poderosa nobreza castelhana. Estou farto das migalhas reais, de ver o quão ostracizada tem sido a nobreza de sangue lusitano.

Porém o pai não estava pelos ajustes:

– Acaso o infante não é também um Castro?

O primogénito, tal como o pai, tinha o lado prático bem apurado.

– Será, mas também é português. Do mal, o menos. Saberá premiar quem o apoie e não a família que pouco ou nada o ajudou quando ele matou a Maria Teles e se refugiou em Castela.

– – Imagina que apostamos no lado errado, que Beatriz recupera o trono. Que aconteceria aos nossos bens? – insistia o ancião.

– Muito provavelmente seriam confiscados por desserviço a Juan.

– E sem terras, que faríamos?

A discussão prometia não ter fim. Contudo, também Ramiro tinha visão pessoal interessada:

– A mim pouco me interessam propriedades e riqueza que nunca serão meus, pois, pelo direito divino e canónico, a ti – apontava para Sesnando –, por seres o mais velho, cabe a herança de nosso pai. Que me espera? Viver às tuas custas? Integrar uma Ordem Militar? Ganhe o Mestre esta guerra, e comigo se inaugurará um novo ramo da família.

– À nossa custa, imagino, minha e de teu irmão – retorquiu ofendido D. Leopoldo, sentimento que não passou desapercebido a Ramiro.

– O pai estará provavelmente velho de mais para entender que não nos podemos esconder debaixo do manto da neutralidade.

– Sempre o fiz e não me dei mal.

– Outros tempos, outros conflitos. Nesta guerra pelo trono de Portugal só haverá lugar para um. O povo que dá o sangue pelo Mestre não admitirá o perdão daqueles que se colocarem ao lado de Castela.

– Achas-me um traidor, desnaturado filho? – gritava o patriarca, aparentando começar a perder a lucidez. Todavia, Ramiro esforçava-se por manter a calma:

– Traidores e patriotas são duas faces da mesma moeda. Ainda há bem pouco era a nobre família Coutinho exemplo de fidelidade a D. Fernando.

Sesnando sentiu-se tão injuriado que declarou sentença sem apelo:

– Pois se pretendes ir para o Mestre, vai, que esta não é mais a tua casa. A partir de hoje deixo de te reconhecer como irmão. Se acaso nos encontrarmos no campo de batalha, que a morte se amerceie de ti.

Ramiro sentiu a ira do irmão. Ainda assim, lançou intrigante premonição:

– Aqui voltarei um dia. E, nessa altura, ninguém me expulsará.

 

O ano de 1385 começou com um bizarro acontecimento: uma tentativa de assassinato de João de Avis. Os conselheiros do Regedor e Defensor do Reino tudo fizeram para abafar um caso que, a tornar-se público, demonstraria a fragilidade dos laços que uniam a hoste revolucionária. Por portas travessas, soube-se que haviam sido quatro os conjurados, e que um deles acabou mesmo enforcado.

Em Março o Mestre anunciou que se iriam fazer cortes:

– É preciso aprovar um plano dos meios necessários para fazer face aos custos com a guerra – disse, deixando no ar a suspeita de que tal não passasse de pretexto, cujo fim era, só os mais próximos pareciam conhecer.

Em Coimbra se faria a reunião. Por essa ocasião já Ramiro fazia parte da força de cavalaria de Nuno Álvares Pereira. Assim se dirigiu o fronteiro às três centenas de homens que comandava logo que à cidade universitária chegaram:

– Daqui, ou o Mestre sai rei, ou passamos os opositores todos à espada.

Só naquela altura o mais novo dos Coutinho percebeu que dera um passo que não admitia volta atrás: matar ou morrer. Aquele Nuno que, tal como ele, teria pouco mais de vinte anos, levava muito a sério a revolta. Nada semelhante ao que, em tempos, Ramiro vira na casa paterna, pelejas com outras famílias nobres que acabavam em acordos de casamento. A ingenuidade do jovem beirão ficou evidente na questão com que interpelou o comandante:

– Vamos mesmo ter de matar próceres do reino por causa de uma discussão sobre fundos?

Riram-se os demais. Nuno Álvares Pereira manteve o ar sério e contestou:

– Sabes quem é aquele? Provavelmente não. É João das Regras, eminente doutor de leis. Que achas que veio cá fazer?

Ramiro ficou encabulado. Conhecia lá semelhante peça. Acabou de chegar de Bolonha? Ah! Onde fica tal lugar? Tão longe? O jovem vivera nas Beiras, desconhecia as figuras públicas, o mundo da política, as intrigas cortesãs.

 

(Continua)

 

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publicado às 17:42

Sessão Realizada a 13 de Abril - Conto XVI

por Eduardo Gomes, em 14.04.19

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O conto de hoje serviu-nos para entendermos o trágico reinado de D. Fernando. Das guerras insanas em que se meteu, até à visceral falta de cumprimento dos tratados que firmava, passando pela estulta leitura da situação política. Deixemos o Inconstante repousar em paz, pois, por aquele tempo, a insensatez foi tal que até a Igreja Católica chegou a possuir três Papas em simultâneo.

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Chegámos a Outubro de 1384 e, com ele, a debandada castelhana causada por uma estranha peste que se restringiu (???) ao exterior das novas muralhas alfacinhas. Contudo, na ambição de Juan I não cabia o verbo "desistir". O ano seguinte -- 1385 -- corresponderia ao tudo ou nada por um trono. O tira-teimas aconteceria a 14 de Agosto: João ou Beatriz?

Lá iremos na sessão a realizar a 11 de Abril.

 

Aos poucos, vamos criando um manual de termos, Assim voltou a suceder. Aprendemos que...

1 - O pomo da discórdia...

2 - O calcanhar de Aquiles...

3 - Entre Cila e Caribde...

Significam, respectivamente...

1.A - O motivo da desavença...

2.A - O ponto vulnerável...

3.A - Qual das ameaças a mais perigosa.

 

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O desafio vocabular ficou marcado pelo regresso do João Machado, vencedor da temporada pretérita. Em sentido contrário, fomos surpreendidos com a ausência da Clara.

Isentos os mais jovens da participação num jogo que teriam dificuldade de entender e muito mais em competir, observámos que a Maria Lorena, o João Fernandes e o João Machado concluíram com 100% de êxito as questões colocadas.

 

No final do segundo conto os mais bem classificados são:

Maria Lorena

65 Pontos

João Fernandes

65

Lorenço Pinto

55

Hugo Âmbar

45

João Machado

40

Clara Sol

25

 

Nota: As crianças foram informadas de que, face ao exíguo número de contos a apresentar até Junho, iremos acumular as pontuações até lá alcançadas com as que obterão no período Outubro 2019/Junho 2020.

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publicado às 19:50

Conto XVI: " A Tragédia Fernandina"

por Eduardo Gomes, em 12.04.19

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Estávamos no ano de 1369, mais concretamente a 23 de Março. Na Taverna La Mollera, em Montiel, vivia-se um ambiente bizarro, que o dono, Don Pepe, tentava gerir ao seu jeito.

– Sai daí, bebedolas, que não te quero perto da fidalguia – dizia para os frequentadores usuais, gente que desconfiava da razão pela qual um infante e respectivos sequazes ali estavam.

– Isto não é antro de facínoras, é casa de gente honesta e trabalhadora – insistia Don Pepe, alto e bom som.

Porém, Dueña Carmen, a esposa, não parecia estar convencida do êxito da estratégia. Chamou o marido à parte e comentou:

– Olha lá, Pepe, que faz ao certo o Henrique de Trastâmara na nossa casa?

O conde era – tal como outros nove, entre vivos e mortos – filho ilegítimo de Afonso XI e da amante deste, Leonor de Gusmão. Henrique guerreava o meio-irmão, Pedro, filho da Fremosíssima Maria, desde que este ascendera ao trono, em 1350. Fazia-o por medo, mas também por ambição. Vira a mãe, dois dos irmãos e mais umas largas dezenas de fidalgos serem assinados por mesquinha crueldade do monarca. A guerra civil entrara, em 1366, numa fase de tudo ou nada, com os dois lados a alternarem vitórias e derrotas. Na busca de apoios que ambos os contendores encetaram, serviram e serviram-se do antagonismo entre França e Inglaterra, naquela que mais tarde se chamaria, erroneamente, Guerra dos Cem Anos. Henrique apoiou-se em Carlos V, suportado pelas Companhias Brancas comandadas por Beltrán Du Gueslin. A moeda de troca consistiu na fantástica frota naval de Castela, a qual, colocada ao serviço dos gauleses, proporcionar-lhes-ia o domínio dos mares do Norte. Pedro, por seu turno, buscou apoio em Eduardo de Inglaterra, o Príncipe Negro. Para os ilhéus, era condição máxima neutralizar o poder marítimo de Castela. Entre 1366 e 1369, Henrique e Pedro alternaram vitórias com derrotas. Ao primeiro daquele mês de Março, Henrique cercara o rei e as suas tropas na fortaleza de Montiel.

Pepe entendeu responder assim à esposa:

– Não faço ideia, mas passa-se algo de estranho lá em cima, no castelo da Estrela. Já faz para lá de uma semana que o Mem Rodriguez de Sanabria e o Du Gueslin estão em conversações. Parece que o Pedro quer negociar um acordo, cujo seja, é a dúvida que me atormenta.

– Escuta-me, homem: será bom que os fidalgos se vão. Dá-lhes de comer, dá-lhes de beber e livra-te deles.

– Dar, dou, mas palpita-me que não estão aí por coisa boa. Está-se a preparar borrasca da grossa. Pelo sim e pelo não, vou mandar embora os nossos clientes habituais.

– Credo, valha-nos a Virgem Maria! Logo tinha de acontecer em nossa casa – concluiu Carmen, apertando o peito com ambas as mãos.

No exército sitiador começou a correr o boato de que existiria um túnel subterrâneo que ia dar ao cerro de San Polo, pequena elevação fortificada a cerca de um quilómetro de distância do castelo. Du Gueslin pensou num ardil para evitar que o rei fugisse. Assim se explicou:

– Majestade, vosso irmão pretende fazer pazes convosco. Pensai que vos propõe o fim da maldita guerra civil. Pede que venhais comigo, posto aguardar-nos na vila.

Entre Cila e Caríbde, Pedro viu na proposta a oportunidade de se livrar do cerco, e logo explicou a decisão ao escudeiro Mem Rodriguez:

– Assim que estejamos a salvo, mando reunir todo o exército de Castela e mato o Henrique e o francês.

Pedro e Du Gueslin abandonaram o castelo e dirigiram-se à taberna de D. Pepe. Ao sentirem barulho no exterior, os acompanhantes de Henrique saltaram de um único pulo das mesas onde se encontravam e, em guardado silêncio, cobriram portas e janelas da taberna, espadas em riste, como se de atalaia prestes a ser atacada se tratasse. Ouviu-se então um palavreado esquisito, mistura de espanhol e francês de raia, que logo todos atribuíram ao francês:

– Trago-vos a esta humilde tasca, Alteza, pois vosso meio-irmão assim mo pediu. Por mim só, não possuo meios para estabelecer acordo proveitoso para ambas as partes. Garanto-vos que Henrique saberá respeitar Vossa Majestade.

Mal Pedro surgiu no interior do estabelecimento, Henrique correu para ele, adaga na mão. Contudo, o rei era valente e decidido a salvar a vida. Vendo que o espaço em que combatiam não permitia um duelo à espada, puxou também de um punhal e derrubou o conde. Henrique debatia-se, mas Pedro ganhara supremacia no combate, aprestando-se para rapidamente dar o golpe de misericórdia no pretendente ao trono. Foi então que Du Gueslin decidiu intervir na refrega. Agarrou no rei pelas costas e atirou-o ao chão, o que permitiu a Henrique lançar-se sobre aquele e apunhalá-lo repetidas vezes. Os espectadores ficaram surpresos perante o sucedido. Olharam o francês com ares de réu: Ni quito ni pongo rey, pero ayudo a mi señor, contestou.

No dia seguinte Montiel assistiu a um espectáculo macabro.

– Olha para aquilo, Pepe. O conde pendurou o corpo degolado do Pedro nas ameias do castelo para que todos o vejamos – afirmou Dueña Carmen.

– E não só. Espetou a cabeça numa lança para forçar as praças legitimistas que ainda dão voz pelo defunto a renderem-se.

Ainda Março não terminara e já Henrique partia. Assim se despediu do estalajadeiro:

– Obrigado por tudo, Pepe. Aqui cheguei infante; daqui saio rei.

– Aqui tem e terá um servo à vossa disposição, Alteza. Contudo, parece-me ter de ser eu a falar-lhe das coisas que que ninguém ousa.

– A que te referes, homem?

– De legitimidade. Se pensais que se acabaram os vossos problemas, lamento anunciar-vos que eles ainda mal começaram.

Quando o novo rei partiu, o povo decidiu fazer uma homenagem a Pedro: ali construiu um monólito com a coroa real no topo.

A Península Ibérica tremeu quando nos demais reinos se soube da funesta conduta: de Portugal a Aragão, passando por Navarra e até a Granada muçulmana se sentiu incomodada. De lembrança dos homens que fosse, não havia memória de fratricídio igual. E nem as respectivas classes nobres descansaram. É que a virtude da família tradicional assentava nos princípios do direito civil e canónico. A transmissão hereditária fazia-se com base no inviolável sacramento do casamento, não no concubinato.

Se Henrique se sentou no trono, não o fez sem oposição: concreta em alguns casos; velada noutros. Trata-se de um bastardo, diziam estes. Baterem-se de armas ou de razões, era o ponto. Na Galiza, um grupo de “patriotas” encabeçado por Fernán Ruíz de Castro, irmão de Joana de Castro, uma das esposas do defunto Pedro; Álvaro Pires de Castro, que seria mais tarde Condestável de Portugal; e Inês de Castro, sobejamente conhecida pelos amores com o pai do rei Fernando I, decidiu-se pelo combate. Havia, porém, que encontrar candidato de sangue real e suficientemente poderoso para que a luta fizesse sentido em todos os cantos de Leão e Castela.

Pedro de Castela tivera vida amorosa agitada, casara, descasara, forçara a aceitação de um casamento dúbio: uma trapalhada. Se alguma linha sucessória poderia reclamar a real herança, era opinião comum que ela deveria recair nas duas filhas que o rei tivera de Maria Padilla: Constança e Isabel. Todavia, a mulher era estigmatizada pelo direito divino e natural. Fêmeas não servem – explicou Fernán Castro. – Necessitamos encontrar um varão. Estudemos a árvore genealógica. Saltemos as gerações que forem precisas. Há-de haver um parente da família real castelhana.

– Eu?! – surpreendeu-se Fernando.

– Quem mais do que vós tem tal direito? Sois bisneto do rei Sancho IV pelo lado de mãe.

 

(Continua)

 

Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

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publicado às 17:53

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Dia agendado para o regresso d' As Voltas da História após largos meses de ausência.

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A equipa do ano transacto regista duas baixas: a Matilde e a Carolina, ambas abrangidas pelo limite da idade, ainda que, como sempre fizemos extensivo a todos os anteriormente envolvidos, possam vir assistir aos contos se o pretenderem. A barreira etária máxima existe porque a abordagem à História deve ser adequada à diferenciação de desenvolvimento intelectual registado em crianças com 8 ou 13 anos. Tão-só.

Outros houve que incluiram entretanto novas actividades nas suas rotinas de fim-de-semana ou estavam simplesmente de férias á data de reabertura da Biblioteca da Casa da Horta. Aguardaremos por todos a 13 de Abril.

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É, porém, tempo de abrirmos os braços a novos participantes: à Clara, ao Manuel, à Maité. Que gostem de estar connosco; que voltem; que outros se nos juntem.

 

O conto XV levou-nos à compreensão da organização politica e militar que permitiu aos portugueses de meados do século XIII chegarem ao Algarve.

"Já demos esta matéria na escola!", disseram-nos ao princípio.

"Muito mais completo e giro!", afirmaram no final da apresentação.

Ainda bem. Ficam todos mais ricos de conhecimentos.

O já conhecido concurso de incremento vocabular registou a inclusão de provérbios e expressões figurativas que se propõem junto aos habituais vocábulos soltos com que desafiámos as crianças nos pretéritos dois anos.

Ficámos a saber que:

1 -- Para uns é mel, o que para outros é fel...

2 -- A ave de rapina não canta...

3 -- Esforço titânico...

significam:

1 -- O bem de uns, corresponde, muitas vezes, ao mal de outros.

2 -- Quem caçar pretende, não se denuncia.

3 -- Para além das possibilidades humanas.

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A Clara Sol, o João Fernandes, o Hugo Sousa, o Lourenço Pinto e a Maria Lorena cumpriram integralmente a pontuação: 25 pontos.

Não se esqueçam que em Abril, para além do teste em sala, terão de relembrar as expressões acima.

 

O próximo conto leva-nos a abordar o reinado de D. Fernando. Partiremos de uma taberna, algures em Montiel, Castela, onde se prepara o assassinato do rei...

... O resto fica para Abril.

 

Nota: A partir do presente conto abandono a habitual estrutura do trabalho. Tendo iniciado por construir três versões -- literária, factológica e a específica e imagética para apresentação em sala -- de cada unidade, concluí que a factologia política, cujo objectivo era o de proporcionar a visão rigorosa e científica (ainda que, aqui e ali, polémica, como é apanágio da História) dos temas abordados para posterior enriquecimento próprio ou utilização escolar, não tem conseguido alcançar tal desiderato. Dêmos então um passo em frente.

 

Um abraço a todos.

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publicado às 22:52

Conto XV: "O Gharb Al-Andaluz"

por Eduardo Gomes, em 08.03.19

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Introdução.

 

Aljustrel foi conquistada aos mouros, no ano de 1234, pelo braço lusitano da Ordem Militar de Santiago. O castelo situava-se a sudeste de Alcácer do Sal, sede dos monges-cavaleiros desde 1217, e correspondia ao primeiro passo para que, em progressão na diagonal, os espatários se aproximassem de Sevilha, capital do califado almóada, objectivo geral da Cristandade hispânica face ao, já então evidente, desmembramento deste.

Rapidamente o rei Sancho II doou ao comendador-mor a vila com os territórios circunvizinhos. A concessão tinha por contrapartida a defesa do Baixo Alentejo ocidental, posto que, a oriente, Moura e Serpa haviam sido entretanto tomadas, por volta de 1232, pelos hospitalários, conquistas em que se distinguira um jovem e simples fidalgo, cavaleiro de uma lança e um escudo, Afonso Peres Farinha, que mais tarde ascenderia ao posto de Prior da Ordem. Apesar de, na prática, se estar em área fronteiriça, por nenhum outro território mais a sul possuírem os lusos, a verdade é que não havia perigo vizinho, posto haverem os mouros fugido bem para lá dos cerros que no horizonte se divisavam, deixando meras atalaias que, por si só, não ofereciam perigo de contra-ataque à Reconquista.

 

Vamos ao conto.

 

Paio Peres Correia fora, no início de 34, nomeado comendador da Ordem em Portugal. Servira os reis de Leão e Castela – enquanto freire-cavaleiro – em várias batalhas durante os anos precedentes. Dirigiu pessoalmente o ataque a Aljustrel, e logo ali lhe veio à mente uma ideia:

– E se fôssemos atacar o Gharb?

– Mas daqui para sul tudo são andurrais. Acaso pensaste na graveza da passagem da serra? – contestaram os monges. – E ainda que cruzássemos as montanhas, o Gharb é terra povoada de muita gente.

Explique-se que o ocidente, isto é, o Gharb do al-Andaluz – a província árabe de Chenchir – possuía imensos castelos, sendo que, sobretudo Silves (Xelb, Xilb ou al-Shilb), a capital, mas também Santa Maria de Faro (Santa Maria de Ibn Harun) e Tavira (Tabira) eram grandes cidades e muito bem protegidas de muralhas. E, mais a norte, Mértola era mesmo considerada inexpugnável. O território era controlado pelo auto-intitulado “emir do ocidente”, Mohammed Ibn Mahfot, antigo váli de Niebla, guerreiro esforçado, que não só havia derrotado os rivais muçulmanos na cobiça pelo domínio do “emirado”, como também se tinha mantido praticamente incólume perante a ameaça cristã.

Para os portugueses chegarem a tão meridionais lugares, havia duas alternativas: a primeira, por mar, navegando pela costa atlântica até dobrarem o cabo dos Árabes ou de S. Vicente; a segunda, por terra, forçava caminho por Mértola, cruzava o Guadiana em direcção a Alfajar de Pena, e rumava logo após a sul, em direcção a Aiamonte. Ali entroncava com a estrada que de Sevilha passava a Niebla, capital do reino muçulmano do “ocidente”, e, de novo na margem direita do Anas, prosseguia para o ocaso, cobrindo o espaço que hoje é a província do Algarve. Todas as opções que cruzassem as serras de Monchique ou Caldeirão eram...andurrais.

O comendador não encontrou forma de convencer os companheiros e, contrariado, viu-se forçado a retomar o objectivo primordial da Ordem, que era o de atacar Sevilha. Paio esquecera momentaneamente que a razão pela qual havia sido deslocado para Portugal se ligava ao desejo do Mestre de Santiago pretender apoiar com forças pelo sul da serra de Tentudia os esforços dos companheiros leoneses e castelhanos que, entretanto, haviam bloqueado a norte daquela, face ao controlo ali exercido pelos muçulmanos de Zafra, Jerez de los Caballeros e Montemolín

Quatro anos mais tarde, em 1238, Paio Peres Correia e os seus cavaleiros lograram tomar Mértola. O feito ficou a dever-se à surpresa do ataque consumado em direcção à Torre de Oeiras, sobranceira à ribeira do mesmo nome. Com esta conquista a Ordem não só alargava as suas possessões na orla austral transtagana, como também ia cumprindo o plano de se aproximar da capital almóada.

Paio era homem de acção, e, conquistada a cidade alentejana, logo falou aos companheiros:

– Precisamos de construir muralhas em volta do arrabalde e uma torre de menagem que nos habilite a ter melhor visão do espaço em redor.

Os confrades olhavam a planície a partir do cume do monte em que se implantava o castelo e comentaram:

– Estamos tão alto que os muçulmanos nunca lhe sentiram necessidade.

Contudo o comendador logo ordenou aos companheiros:

– Faça-se a obra, que um dia nos poderá fazer falta.

Os freires deixaram na cidade defesa que bastasse, cruzaram o Guadiana, e rapidamente se posicionaram defronte de Alfajar da Pena, em cujo pequeno castelo roqueiro, todavia bem situado, se refugiara a parca população do lugar, que, em pânico, logo se rendeu. A partir dali, os espatários possuíam uma base para assediarem os alfozes das povoações de Saltes, Huelva e Gibraleón, localidades que protegiam o caminho para Niebla. Para a História ficava um marco territorial jamais repetido: os domínios portugueses – termos de Aiamonte – chegavam às margens do Odiel.

Contudo, Paio estava ansioso por saber o que, emmentes, sucedera noutro lugar:

– Temos notícias da frota real?

– Chegaram mensageiros a informar que Sancho tomou Aiamonte.

Boa notícia!

A operação fora coordenada para atacar os muçulmanos ao mesmo tempo em dois pontos diversos. Apesar de os ventos da fortuna acompanharem os exércitos cristãos, certo é que o frenesim militar de um e outro lados da fronteira ia-se extinguido. Se os de lá se atolaram e não atalhavam caminho, os da banda de cá digladiavam-se em quezílias cujo resultado seria a perda do trono de quem o possuía por direito.

De volta a Alcácer do Sal, Paio Peres Correia tudo pretendia controlar:

– Sabemos o que se passa com os nossos companheiros de Castela e de Leão? E com Fernando e Sancho? Se não nos mexermos, nunca tomaremos Sevilha aos muçulmanos.

Martim fez o ponto da situação:

– Santiago e Alcântara continuam a planear o ataque a Zafra, sem o que não lhes será possível avançarem para lá da Sierra.

De volta a Alcácer do Sal, o comendador-mor andava inquieto. Rui Peres e Martim do Vale, cavaleiros lealíssimos, decidiram saber o que intrigava o chefe:

– Temos reparado que passas muito tempo a olhar as serras que se estendem para o meridião.

– Monchique e Caldeirão...

Os monges não desistiam de melhor entender o que ia na mente do líder:

– Vais voltar com a peregrina ideia de ir por aí abaixo conquistar o Gharb?

Porém, desta feita, o comandante estava decidido. Em bom rigor, Paio estava entregue a si próprio, nenhum outro objectivo lhe era permitido até que leoneses e castelhanos desbravassem o caminho para Sevilha.

– Mandai dizer ao Garcia Rodrigues que vá ter connosco a Aljustrel. E o mesmo façam saber aos almogávares.

Garcia era um mercador traquejado no comércio com a mourama, cujos conhecimentos geográficos da região o haviam levado ao importante posto de adaíl, ou seja, guia dos exércitos. O cargo requeria uma pessoa de indubitável lealdade, pois uma traição sua levaria a que toda a hoste pudesse ser dizimada. E ainda que dele não se duvidasse, havia que ter a certeza que conhecia bem os caminhos, para que não se perdessem os homens ou atrasasse a expedição. Já os almogávares eram cavaleiros-vilãos, oriundos dos senhorios da Ordem, que, pelo respectivo foral, eram obrigados a cumprir trabalho de controlo da área fronteiriça. Executavam muitas vezes o papel de batedores na vanguarda dos exércitos.

No dia aprazado Paio Peres Correia reuniu-se com os vilões e o adaíl.

– Sem o empenho e coordenação régia, não me atrevo a ir contra Sevilha. Mudei de ideias, decidi avançar para sul. O alvo é a conquista do Gharb, beneficiando da nossa posição em Aiamonte, que em muito dificulta o apoio que de Niebla poderiam receber os chefes das cidades ocidentais. E, para tal, tenho de tomar aos mouros algum castelo em lugar estratégico, todavia defensável. Transfiro para lá os meus cavaleiros, e, a partir daí, ataco as cidades muçulmanas.

Martim e Rui acharam a ideia um pouco louca:

– Queres posicionar-nos numa fortaleza, no coração do Gharb, rodeada de mouros por todos os lados?

Todavia Paio não parecia prestar-lhes atenção. Virou-se para o adaíl e inquiriu:

– Que achas, Garcia? Consegues guiar-nos pelas serras até ao Gharb sem que os vigias desconfiem?

– Os caminhos são péssimos, é impossível levar máquinas de cerco. Propunha que mandasses à frente uma força de cavalaria. Chegados à primeira linha de defesa mourisca, atacariam e surpreenderiam a fortaleza escolhida para nela se abrigarem e defenderem até que tu e o grosso do exército ali chegassem.

Os monges estavam estupefactos, não queriam acreditar no que ouviam:

– Estais-vos a esquecer do que aconteceu em Silves, em tempos de Sancho I, fará agora uns cinquenta anos? Mal os cristãos tomaram a cidade, logo o califa Almançor enviou para lá duas expedições a reconquistá-la.

Paio Peres Correia parecia ter estudado bem o assunto, e logo respondeu:

– Outros tempos. O poder almóada era então muito forte. E se provas precisássemos da valia da mourama nessa altura, bastaria recordar-nos da enorme derrota que nos impuseram em Alarcos, logo a seguir à perda de Silves, corria 1195.

Martim ia interromper para alegar algo, mas logo o comendador atalhou:

– Deixa-me continuar, pois, mais tarde, em 1212, vencemo-los em Navas de Tolosa. Fragilizados aqui e atacados em África, rapidamente os almóadas se viram alvo de sublevações várias entre os do seu credo, perdendo territórios: Múrcia e Granada, Fez e Tunes, todos em duas décadas. E com a perda do controlo das rotas auríferas subsarianas, começou a faltar o suporte económico ao califado. Nos anos 20 chegaram a fome, as exacções exorbitantes e o óbvio fim dos “unitários.”

Martim insistia em ripostar:

– Certo é, mas os muçulmanos andaluzes não se renderam. Tal como no passado, reorganizaram-se em reinos de taifas. Chefes que conhecem a forma como combatemos e estão tão bem armados quanto nós.

De facto, assim era. Vários foram os reinos independentes que se formaram no território do Andaluz: Arjona, Baeza, Lorca, Menorca, Múrcia, Valência, Córdova, Sevilha, Jerez, Niebla, Granada. A maioria não passaram de breve luzeiro, rapidamente submetidos ao poder de Castela. Somente o último dos referidos se manteria na Península por largo tempo, dois séculos e meio, até 1492.

– Pois se da História tanto pareces saber, recorda-me o que aconteceu das duas outras vezes em que os mouros constituíram esses reinos independentes – inquiriu Paio.

– Que me lembre, acabaram subjugados por novas dinastias berberes que entretanto se haviam formado no Norte de África, e que atravessaram o Estreito para unificar a comunidade dos fiéis.

– Ora aí tens a resposta às tuas dúvidas. Se queremos acabar com os sarracenos a sul, devemos aproveitar a ocasião em que estão divididos. Se nada fizermos, mais tarde ou mais cedo virá por aí nova dinastia de berberes completamente fanatizados.

Garcia Rodrigues achou que podia meter a colherada:

– E depois é o cabo dos trabalhos para os expulsarmos de novo. A partir de Fez, o bando dos merínidas bate-se com o que resta dos almóadas. Será uma questão de tempo até que o desígnio de invadir a Península se manifeste.

Paio estava decidido:

– Acabou a conversa. É tempo de planearmos o assalto ao Gharb.

Tudo o comendador pensou. Do adaíl recolheu informações sobre a organização política e social do inimigo, das fraquezas do sistema defensivo, dos caminhos que atravessavam a serra. Da discussão entre os principais cavaleiros surgiram soluções para problemas como a mobilidade das forças e a necessidade evitar as atalaias serranas, o castelo de Ourique, a insuficiência de tropas, a forma de acometer as cidades, o lucro da operação:

– Esse depende da conquista de Silves – admitiu o chefe.

– Melhor será que tiremos da cabeça a ideia de afrontarmos directamente Silves. Morremos lá todos – convieram os monges.

Contudo, Paio não hesitava:

– Para já, avança a força ligeira de cavalaria, almogávares conduzidos pelo adaíl.

Como a ave de rapina não canta, os cavaleiros partiram pela calada da noite (descansavam durante o dia), procedimento que repetiriam ao longo da viagem, para que os mouros não os sentissem. Passaram ao largo de Garvão e contornaram Ourique e Marrachique, atalaias fortificadas que, em caso de sobressalto, alertariam de imediato as cidades do litoral sul.

O prémio aguardava pelos cavaleiros-batedores em Estômbar, albacar onde os mouros ficaram de tal forma surpresos pela aparição dos cristãos, que não tiveram tempo de esboçar reacção que se visse. Ultrapassada a primeira dificuldade, novo problema se colocava: fazer acorrer ali rapidamente o comendador e os seus monges. E tal aconteceu bem preste, ao arrepio de vigias e riscos, que bem maior era o que corriam os valorosos que haviam ousado aventura tão louca. Cavaleiros entrincheirados, agulha santiaguista em palheiro.

Da base espatária pronto saíram “correrias” ás redondezas. O propósito era o de fustigar o território e saquear rebanhos, hortas e pomares, posto que a distância e as atalaias serranas impediam o abastecimento através de Aljustrel. As cavalgadas de rapina acabaram na conquista da torre de Alvor:

– O plano corre às mil maravilhas – constatou o comendador.

Corria, certamente, de tal forma que os mouros vieram a bem pedir tréguas aos cristãos. Assim se explicaram:

– És forte, Maestro Pelayo, mas nós somos muitos, tantos que te desbaratemos logo que te atrevas a sair em campo aberto.

– Chalaceais, mas decerto não foi para isso que aqui viestes.

– Trazemos-te uma proposta: a permuta de Estômbar e Alvor por Cacela (Hisn-Kastala) que é poderosa praça, um hisn (castelo), não mero albacar ou torre como por aqui tens.

 

(Continua)

 

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