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Projecto pioneiro de colaboração com a Biblioteca Municipal de Cascais, destinado a contar a História da Ibéria a crianças. Os contos são apresentados sob a forma de narrativas originais ou adaptadas do nosso património histórico-cultural.
Se a união faz a força, divididos perdemos sempre, ainda que aqui e ali possamos experimentar pequenos sucessos. A exclusão, própria ou forçada, não é alternativa. O império visigodo caiu quando os costumes se degradaram; quando a sede de poder individual se sobrepôs ao colectivo; quando a obsessão pela riqueza se tornou prioritária; quando a cegueira dos poderosos os impediu de ver o que estava verdadeiramente em causa.
A História mostra-nos continuamente a importância dos povos se unirem em defesa de um ideal; os impérios – políticos ou económicos – continuam a tombar pelas razões de sempre.

Face ao conhecimento mais aprofundado do grupo, decidi introduzir uma nova dinâmica que projectasse sobremaneira os aspectos colectivos. Iniciámos a sessão por elogiar os primeiros classificados do desafio "Descobre o vocábulo", sem deixar de alertar que todos estão a tempo de ganhar, e que a aprendizagem é trabalhosa, porém frutígera.
Os aplausos – circunstanciais – foram para o João Machado, a Carla Cardoso e a Carolina Silva, isto é, os mais pontuados da primeira sessão.
Posteriormente foi explicado às crianças o novo sistema de fichas, cujo objectivo é a maior facilidade no seu preenchimento, bem como a menor perda do foco no conto.

Passou-se então à reconstituição do primeiro conto, o qual teve dois efeitos: explicar o sucedido a quem não esteve presente; relembrar o escutado há um mês aos outros.
O segundo conto foi seguido com muito interesse e invulgar atenção, o que se deverá ao facto de haver introduzido um conjunto de imagens baseadas em slides, cuja sinergia com a história verbalizada muito prendeu a atenção dos participantes.
No final, como vem sendo hábito, houve lugar a uma conversa aberta, tendo sido analisados os seguinte temas:
– O mistério sobre a morte de Rodrigo;
– A mensagem: os papéis do conde Julião e do bispo Opas;
– A desmontagem do conto: a diferenciação entre a lenda e a realidade;
– O anúncio da próxima história: o segredo escondido de Afonso Henriques.
A última referência vai para a participação dos meninos: gratificante para o apresentador!

DESAFIO "DESCOBRE O VOCÁBULO"
A nova fórmula do concurso permitiu focar o tento no preenchimento das fichas sem perder a atenção ao conto. Por tal, os participantes atingiram todos um nível elevado de respostas correctas, não fora nenhum se haver lembrado dos vocábulos em jogo referentes ao conto I. A repetição faz parte do processo de memorização, e, por tal, continuarei a relembrar o património de palavras que vamos acrescentando ao léxico de cada um. Ei-las:
Conto I
Algoz – subs. masc.
Significado – Executor da pena de morte; carrasco; verdugo.
Sentido Figurado – Pessoa cruel.
Himeneu – subs. masc.
Significado – Casamento; festa de núpcias; bodas.
Solilóquio – subs. masc.
Significado – Fala que alguém dirige a si próprio; monólogo.
Conto II
Cafua - Subs. fem.
Significado - Esconderijo; habitação miserável.
Pendão - Subs. masc.
Significado - Bandeira; estandarte.
Toledana - Subs. fem.
Significado - Espada fabricada em Toledo.
| CONTO I | CONTO II | TOTAL | |||
| 1º | João Machado | 25 | 25 | 50 | |
| 2º | Carla Cardoso | 25 | 25 | 50 | |
| 3º | Lorena Valente | 16 | 25 | 41 | |
| 4º | Carolina Silva | 18 | 20 | 38 | |
| 5º | Matilde Gomes | 15 | 20 | 35 | |
| 6º | João Carvalho | 14 | 20 | 34 |

TEXTO ACERCA DOS CONTOS I/II
A HISTÓRIA DO IMPÉRIO VISIGÓTICO
A FACTOLOGIA
BREVE INTERPRETAÇÃO DA ESTRUTURA RELIGIOSA, ECONÓMICA E SOCIAL
Os godos ou germanos orientais eram originários da região entre o Báltico e o Mar Negro. Dividiram-se em vários povos, entre eles os visigodos, guerreiros seminómadas, que no final do século II se estabeleceram junto à foz do Danúbio, paredes-meias com a fronteira norte do Império Romano, tal como o fizeram muitas outras tribos godas. Duas centúrias mais tarde, a invasão huna obrigou um milhão de pessoas, sob o comando de Fridigerno, a atravessarem o rio e a sediarem-se na Trácia, obtida a devida autorização do imperador, sob a condição de combaterem os inimigos de Roma.
A onda humana engrossada por todos os que queriam fugir, esfomeada e revoltada contra as exacções dos governantes locais, levantou-se contra o anfitrião em Agosto de 378, derrotando as legiões romanas e apoderando-se duma vasta região de Perinto a Bizâncio; do Mar Negro aos Alpes Julianos. O novo imperador romano, Teodósio, conseguiu restabelecer a paz, pagando aos godos soldos em troca do serviço militar, cedendo-lhes ainda um território onde pudessem viver: a Panónia.
Em 395, sob a liderança de Alarico I, os visigodos voltaram ao seu projecto nómada e expansionista, avançando pela Trácia, a Tessália, a Arcádia e as cidades gregas. À porta de Constantinopla, ante a ameaça de guerra, foi estabelecido um pacto entre os impérios do oriente e do ocidente na pessoa do vândalo germano Estilicão, primeiro-ministro em nome de Honório. Impotente perante a ameaça, Alarico viu-se forçado a abandonar o Peloponeso. Sucederam-se os tratados de paz ao ritmo das batalhas travadas entre os contendores. Os romanos concediam títulos a Alarico na esperança de o moldarem aos seus interesses; os visigodos buscavam um lar, que podia ter sido Itália – Roma foi saqueada em 410, e Honório destronado em favor de Atalo – ou mesmo a Nórica, onde se tentaram estabelecer.
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

Em Toledo Rodrigo dava-se conta do perigo que representava para o seu reino a eventual retaliação do conde Julião, posto havê-lo nomeado guarda da porta do seu território em África.
Para se distrair, o rei anunciou que iria à caça. No dia aprazado a comitiva real partiu: a nata da aristocracia visigótica com seus cavalos, cães, cornos, trombetas, luzidias armas, todos em busca das presas que se faziam esquivas em se denunciarem.
De repente, um grupo de seis veados pareceu querer fazer-lhes negaças, deixando-se ver aqui, para logo desaparecer mais além. Vamos!, vamos!, gritava-se. Também Rodrigo foi em perseguição dum cervo, o qual parecia saber o caminho para casa, pois não hesitou em meter-se num cerrado matagal, correndo a esconder-se numa gruta. Temeroso do local, até o seu par de Saluki, variedade persa de cães de caça grossa, se deteve à entrada do rochedo, onde, dentro, imperava a escuridão. Posta a espessura e altura de tão enredados arbustos, o rei desmontou algumas centenas de metros atrás, tendo abandonado o cavalo e decidido trepar a pé pelo monte. Ali chegado, Rodrigo constatou que se tratava das ruínas de um antigo templo pagão. A gruta, que se estendia bem profunda, servira de apoio à antiga construção.
O lugar metia medo ao mais ousado, porém, rei que se preza nada receia: “Com a minha lança e os meus podengos, que me pode acontecer?”, interrogava-se para se auto-convencer a continuar a busca pelo veado que na gruta se abrigara. Mas nem os animais pareciam convencidos a seguir em frente. Pelo meio de tanta hesitação, eis que uma figura se chega à luz do dia, assustando o rei. Um velho de carnes ressequidas e longas barbas parecia querer impedir o visitante de dar mais um passo que fosse em direção à gruta. Rodrigo emudeceu perante o que inicialmente lhe parecera um fantasma. O ancião, voz segura, tom severo, disse:
– Mortal, que procuras? Que pretendes, assim, lança empunhada? Acaso és aquele que perseguia o meu cervo, a única companhia que possuo, enquanto me atarefo em evitar a destruição com que o destino ameaça a monarquia visigoda?
– Sim, sou eu quem perseguia o animal, mas tu, quem és? Tu que te atreves a predizer o fim do reino visigodo – respondeu o rei, ante o silêncio do velho que o mirou com desdém até se lhe voltar a dirigir:
– Chamo-me Adenulfo, e que aqui vivo vai para dois séculos. Velo pelo segredo que o meu antecessor aqui deixou.
– De que falas, ancião?
– Da arca que ao fundo da gruta guardo, a qual, aberta, arrastará a destruição, a morte e o fim da monarquia.
(Continua)
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