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Projecto pioneiro de colaboração com a Biblioteca Municipal de Cascais, destinado a contar a História da Ibéria a crianças. Os contos são apresentados sob a forma de narrativas originais ou adaptadas do nosso património histórico-cultural.
O conto retrata mais do que uma lenda; uma tradição oral das gentes da região de Lamego, uma estória que continua a ser contada novecentos anos após o suposto acontecimento ter-se dado. É importante para a História de Portugal? Talvez sim, talvez não. Sim para o apuramento da verdade, que hoje, devido aos sofisticados meios tecnológicos, facilmente seria detectável. Contudo, é no campo do reconhecimento onde a nossa opinião deve ser inabalável. Lidamos todos os dias com refugiados; ouvimos falar de pais adoptivos e pais biológico, conhecidos não são amigos; friends e likes são efémeros. Importante é quem nos ama, nos apoia, está presente quando estamos carenciados. Esses serão sempre os únicos... Tal como aquele Afonso Henriques que admiramos... quem quer que ele tenha sido.


A aposta do conto terceiro foi feita em torno de Afonso Henriques. Investigar a história do nosso primeiro rei em conjunto com crianças sem bases analíticas, cuja mensagem nas escolas tem sido a do monarca enquanto guerreiro intrépido, pode ameaçar sensibilidades. Procurei centrar a equação da vida de Afonso no amor que é devido a quem por um ideal tudo faz. Os meninos compreenderam o objectivo, e, estou seguro, se dúvidas se levantaram nas suas mentes, são-no do tipo crítico-positivo: open mind, dir-se-ia.

A sessão ficou marcada por um “invasor” choramingão, querendo acompanhar os irmãos mais velhos. À pergunta sobre a idade que possuía, levantou a mão, fechou o pólex, espetou o fura-bolos, o pai-de-todos, o anelar e o mendinho: quatro... Qual a dúvida? Portou-se de forma impecável, abriu a boca de espanto pelo que certamente não entendia na sua plenitude. Bem-vindo.

O concurso “Descobre o Vocábulo” começou a reflectir o espírito com que as crianças, antes isoladas, ameaçam fazer um grupo ora homogéneo. Estão de tal forma atentas, que raros são os que erram as “deixas”. Há que “complicar” no imediato o que, a priori, me parecia impossível de suceder antes da segunda sessão de (seis) contos.

Posta a importância que concedo à aprendizagem do léxico que enriqueça os conhecimentos pessoais das crianças sobre a língua portuguesa, irei revalorizar a ponderação pontual referente aos vocábulos apresentados em sessões anteriores. Aqui deixo a listagem daqueles ( três por conto apresentado).
| Algoz .......................................... | Carrasco |
| Himeneu...................................... | Casamento |
| Solilóquio..................................... | De si para si |
| Cafua........................................... | Esconderijo |
| Pendão ....................................... | Bandeira |
| Toledana...................................... | Espada |
| Cuvilheira .................................... | Camareira |
| Mortório....................................... | Funeral |
| Catre .......................................... | Leito de Morte |

CONCURSO DESCOBRE O VOCÁBULO
CLASSIFICAÇÃO APÓS O TERCEIRO CONTO
| Nome | Pontos | ||
| 1º | Carla Cardoso | 75 | |
| 2º | João Machado | 66 | |
| 3º | Lorena Valente | 66 | |
| 4º | Carolina Silva | 63 | |
| 5º | Ana Sofia Carvalho | 57 |

CONTO III
A LUTA PELA INDEPENDÊNCIA DO CONDADO PORTUCALENSE
FACTOLOGIA
AS VICISSITUDES POLÍTICAS
Entre 1071 e 1073, Afonso VI retomou a unidade territorial que o pai, Fernando I, o Magno, auferira em vida, isto é, Castela, Leão e Galiza, sendo que a última abrangia todo o ocidente peninsular até às margens do Mondego. Em 1085 o leonês tomou Toledo aos muçulmanos, movendo para o Tejo a fronteira do centro peninsular.
Em 1087 ou talvez um pouco antes, Raimundo, senhor de Amous, filho de Guilherme I, conde de Borgonha, chegou a Leão. Trazia por missão a defesa da Cristandade e da terra que em parte continuava nas mãos dos muçulmanos. Notabilizou-se ao serviço de Afonso VI, e, fosse por isso ou pela linhagem, pronto o rei lhe concedeu a magistratura territorial da Galiza, bem como a mão de Urraca, sua filha legítima. Mais tarde chegou Henrique, também ele borgonhês, familiar dos respectivos duques. Na distribuição das filhas do monarca leonês, coube-lhe a mão de Teresa.
Em 1093 Afonso VI mandou atacar Lisboa, Sintra e Santarém, ou antes, recebeu-as de mão beijada, conforme acordo com o até aí seu proprietário, o emir de Badajoz. Os almorávidas deveriam pagar a factura apresentada por Al Mutawakkil. A nova linha de fronteira, isto é, a Reconquista chegava-se a sul, acompanhando o grande rio ibérico.
As terras então conquistadas passaram a condado, cujo governo foi confiado a Soeiro Mendes da Maia, sob a autoridade de Raimundo. Este ficou com a superintendência geral sobre a Hispânia ocidental, desde a moderna Galiza até ao extremo das conquistas, agraciado ainda com o título de Totus Galeciae Princeps, tendo por subalternos governadores de circunscrições menores. O cargo significava o sucesso de Cluny na política de colocação dos seus protegidos. Assegurar a continuidade das contribuições em metais preciosos oferecidas por Afonso VI, justificava a preocupação pela manutenção da influência que os monges negros haviam alcançado na corte leonesa. Raimundo herdava poder e dores de cabeça, que nem sempre encontraram consolação no apoio que lhe davam os portucalenses senhores da Maia e Ribadouro.
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

Afonso Henriques terá nascido entre 1109 e finais de Julho de 1111; Lourenço Viegas, uns meses antes, não muitos; Afonso Viegas, outros tantos após, nada por aí além; Mem Viegas, para cima de ano e meio mais tarde O primeiro era filho de Teresa de Leão, herdeira do condado portucalense por ser filha de Afonso VI, e do conde D. Henrique, desde 1096 governante do território em nome da mulher, sujeito a vassalagem ao sogro. Os restantes três meninos representavam a prole de Dórdia Pais de Azevedo e Egas Moniz, um rico e poderoso nobre, descendente dos “Gascos”, senhor das terras de Ribadouro, na região de Entre Douro e Minho, o qual, pela sua importância, rapidamente seria elevado ao cargo de aio, educador do herdeiro do condado.
O grandioso baptizado de Afonso Henriques ocorreu na igreja de S. Miguel, contígua ao castelo e paço de Guimarães; os dos irmãos Viegas, porventura menos exuberantes, no mosteiro do Salvador de Paço de Sousa, local que, ao tempo, servia de panteão à família dos Ribadouro.
Henrique faleceu em 1112, em Astorga, deixando a Teresa a governação da terra e os cuidados com os filhos. Grandiosa era a tarefa da infanta e mãe que, apesar dos apoios que tão importante dama desfrutava, dilacerava-se com a enfermidade do pequeno Afonso. É que o menino nascera “tolheito” das pernas, doença que só foi entendida na sua plenitude aos três anos de idade, quando já todo o séquito real desesperava por o aleijado, perdão, o herdeiro, não começar a andar como qualquer outra criança.
Por volta dos cinco anos, já só parecia possível esperar um qualquer milagre. O menino não tinha forças nas pernas para se manter de pé e, por tal, amparava-se em duas muletas.
– Que progressos opera meu filho? – questionava Teresa o aio, aparentando de há muito haver-se conformado com as deficiências do pequenote.
– Poucas, senhora, poucas, não obstante todo o esforço de cinco anos gastos a tentar exercitar físico e espírito tão débeis – lamentava-se Egas Moniz.
– Queres dizer que devo perder toda a esperança?
O nobre evitou responder directamente à questão posta pela infanta:
– Senhora, sabei que haverá em terras de Resende, ali bem junto a Lamego, na margem sul do Douro, local onde possuo um couto, quem garanta que a Virgem opera milagres aos que nela confiam.
– E que dúvidas se podem ter da minha devoção? – replicou Teresa.
– De vosso credo, nenhuma, porém, sabemos todos como o povo é com esta coisa da cura das maleitas, invocando santos e santas por dá aquela palha.
– Mas Egas, se não acreditais na veracidade dos relatos que supostamente ouvistes, porque vindes dilacerar o coração de uma mãe a quem Deus deixou as filhas e levou os filhos, legando-me não mais que um aleijado. Como poderá o Afonso defender as terras que meu pai me entregou, protegê-las da gula de cristãos e mouros?
– É que... é que...
– É que o quê? Falai, Egas, que me estais a enervar.
– É que... é que foi um sonho que me anda a perseguir há sete noites consecutivas.
– Queres dizer que a origem desta conversa não são tagarelices duns quaisquer camponeses, antes supostas premonições saídas de vossa tarimba?
– Assim o podeis dizer, senhora, mas escutai-me: sabeis quanto quero a nosso menino, quais os sonhos que acalentamos, eu e os restantes nobres, de vermos esta terra independente. Foi isso o que Santa Maria me disse: que não precisaríamos de esperar muito mais, que nascido era já aquele que terá trono nas terras de oeste onde até hoje só condes governaram.
(Continua)
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