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Projecto pioneiro de colaboração com a Biblioteca Municipal de Cascais, destinado a contar a História da Ibéria a crianças. Os contos são apresentados sob a forma de narrativas originais ou adaptadas do nosso património histórico-cultural.
Tal como na Igreja Católica, também entre os muçulmanos se tem lutado através dos tempos pela pureza das origens contra o aburguesamento dos costumes, filosofia normalmente camuflada de extremismos e radicalismos religiosos, cuja distância à realidade social do mundo contemporâneo é assinalável.
Os credos esqueceram as pessoas, o seu sentir, a sua capacidade de acreditar, para tentar impor fórmulas mais ou menos agressivas de estar em sociedade; princípios falhos da tolerância que deve orientar todos os seres humanos a praticarem o bem, a serem compreensivos com o seu semelhante, a buscarem o diálogo e não o conflito.

O conto V centrou-se em volta da figura de Al-Mansur, embora a factologia absorva cerca de seis séculos, tentativa de explanar a realidade muçulmana na Hispânia. Pela exposição passou também a vida de Abd-al-Rahman, o primeiro emir independente da Península. O conto buscou explicar às crianças a heterogeneidade agarena, composta por diferentes dinastias e conflituosos califados.

CONCURSO DESCOBRE O VOCÁBULO
O bom tempo ameaça complicar as últimas sessões da primeira série de contos. Ainda assim, assinale-se que os melhores classificados marcaram presença, alargando o diferencial pontual para os ausentes.
Na próxima sessão, a realizar a 8 de Julho, faremos a entrega dos prémios e iremos de férias até Outubro para dar início a um novo ciclo.
Assinale-se a preparação que os mais interessados têm demonstrado para enfrentar o desafio: bravo!
LISTAGEM DOS VOCÁBULOS:
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Algoz |
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Carrasco |
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Himeneu |
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Casamento |
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Solilóquio |
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De si para si |
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Cafua |
= |
Esconderijo |
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Pendão |
= |
Bandeira |
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Toledana |
= |
Espada |
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Cuvilheira |
= |
Camareira |
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Mortório |
= |
Funeral |
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Catre |
= |
Leito de Morte |
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Mata-cavalos |
= |
Rapidamente |
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Latrocínio |
= |
Roubo |
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Emires |
= |
Governadores |
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Hájibe |
= |
Primeiro-Ministro |
CLASSIFICAÇÃO APÓS O QUINTO CONTO
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Nome |
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Pontos |
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1º |
João Machado |
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141 |
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2º |
Carla Cardoso |
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135 |
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3º |
Lorena Valente |
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121 |

Maomé, o grande pregador e profeta árabe, nasceu em 570. Viveu parte da meninice no deserto, donde lhe veio a sensibilidade para os grandes espectáculos da Natureza. Conheceu a orfandade, algo que o marcou ao ponto de serem várias as referências sobre o tema no Alcorão. Por volta dos seis anos foi viver com o tio, em Meca, exercendo o cargo de pastor. Ali pôde observar a importância religiosa de um antigo edifício sem janelas, a Ka'aba, no qual só existiam uma porta e uma câmara. À volta do local coabitavam cerca de 360 ídolos, os quais atraíam peregrinos das diversas tribos árabes, constituindo os seus donativos a maior fonte de rendimento local.
Mais tarde Maomé acompanharia as actividades comerciais do tio, que o aconselhou a que se incorporasse nas caravanas que seguiam para Bassorá e Damasco. O profeta acabaria casado com Khadija, a proprietária, mulher de cerca de 40 anos, rica e duplamente viúva. Da prole de ambos, só uma filha, Fátima, lhe sobreviveria.
Quiçá a estabilidade económica lhe tenha permitido dedicar-se a escutar as revelações de que afirmava ser alvo. Diz-se que foi numa das colinas que cercam Meca que o arcanjo Gabriel lhe ditou algumas das suras que se encontram no capítulo 96 do Alcorão. Na cidade ninguém se espantou com as profecias: afinal de contas, Maomé era mais um suposto mensageiro de Deus, tal como muitos outros, alvo fácil de blasfémia se necessário fosse para o fazer calar. E nem a citação de Alá incomodava, pois era o nome maior dentre os múltiplos deuses que os árabes evocavam. Contudo, em oposição às outras duas principais religiões monoteístas, os povos árabes não possuíam o livro da revelação, como judeus e cristãos, por exemplo. Maomé anunciou que Deus havia feito descerem dos céus 104 livros, nos quais incluíu o Alcorão, que assim se veio juntar aos únicos três ainda hoje existentes: a Lei, os Salmos e o Evangelho. O profeta acusou judeus e cristãos de haverem deturpado as escrituras antigas e daí as suas desavenças com as premissas do Alcorão. Dentre aquelas salienta-se a referência corânica à impossibilidade de Deus ter um filho: “Não há mais Deus que Alá”.
A questão dos ídolos -- politeísmo inaceitável ao profeta -- isolou Maomé e os seus prosélitos – cerca de uma centena de fiéis –, que, ante a oposição dos habitantes de Meca, se viram obrigados a fugir para Medina, a 20 de Junho de 622, data que passaria a considerar-se da Hégira, ano primeiro para os muçulmanos. Bem recebido na cidade que até ali se denominava de Yathrib, conseguiu, ao fim de nove anos, reunir um exército de dez mil crentes que converteriam nos anos e califados vindouros quase toda a Arábia, da Mesopotâmia à Síria; da Pérsia ao Egipto, incluindo a conquista de Meca, a cidade que o escorraçara anteriormente.
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

O VITORIOSO PELA GRAÇA DE DEUS
Abd Al-Rahman era um príncipe, neto do deposto califa Marwan I. Escapou com vida do atentado ocorrido na Síria, o qual vitimou toda a sua família, fugindo para a Península Ibérica, onde chegou em 756. Príncipe de sangue, logo se intitulou emir. Ali, uniu árabes, berberes, escravos e libertos, mais os antigos habitantes, os ibero-romanos, os judeus e germano-visigóticos, debaixo de um novo estado, cuja capital situou em Córdova. Estava criado o Emirado Independente no território do Al-Andaluz, tendo cortado, naturalmente, os laços que o espaço tivera com o califado de Damasco.
De muitas revoltas contra o poder central se fez o futuro peninsular, perpetradas por árabes, mas também pela aristocracia com poder regional. As diferentes facções muçulmanas que haviam conquistado a Hispânia estavam agrupadas por etnias e detinham poder significativo nos territórios que lhes haviam sido confiados.
Século e meio mais tarde, em 912, Abd Al-Rahman III subiu ao poder e teve de enfrentar forte oposição interna por parte de algumas tribos e também controlar a pressão da Reconquista cristã no norte da península. Vencedor em muitas daquelas ocasiões, achou-se com força para se intitular califa em 929. Desarticulava-se o mundo muçulmano; começavam a proliferar os califas.
No ano de 938, nasceu em Torrox, na região de Málaga, um dos mais fortes líderes militares omíada, Abu Amir Muhammad, mais conhecido por Al-Mansur Billah, o vitorioso pela graça de Deus. Estabeleceu-se ainda novo em Córdova como estudante de direito e literatura. Em 976 morreu o califa Al-Hakam, e sucedeu-lhe o filho, Hixam II, uma criança de apenas onze anos. Por desejo da mãe, Al-Mansur foi nomeado tutor do jovem. Dois anos mais tarde assumiu as funções de hájibe, isto é, primeiro-ministro. No ano seguinte, aproveitando uma conspiração contra o califa, obteve uma delegação de poderes absolutos por parte de Hixam II, que o nomeou defensor do califado.
A tirania governamental de Al-Mansur apoiou-se no afastamento e assassínio dos seus opositores. Diz-se que levou a cabo 57 campanhas militares contra os reinos cristãos do Norte, durante as quais nunca conheceu a derrota, fixando a fronteira ao longo do vale do Douro.
Para garantir os fundos que sustentassem a guerra, Al-Mansur procurou uma fonte de receitas e um apoio de retaguarda. Socorreu-se de algumas tribos africanas que lhe eram leais, atacou Marrocos e apoderou-se das rotas do comércio do ouro e dos escravos.
Em 981 o rei Ramiro III de Leão quis intervir nas lutas internas do califado, tomando o partido dos opositores de Al-Mansur, descontentes com a ditadura que impedia o comércio, esperando dali tirar dividendos territoriais. Vencedor, Al-Mansur invadiu o reino de Leão, conquistando Zamora e Rueda.
A derrota do monarca leonês foi mal recebida pelos nobres galegos e portucalenses que, logo no ano seguinte, decidiram coroar o opositor Bermudo II, filho de Ordonho, como rei da Galiza. Porém, em 984, aquele teve de pedir auxílio a Al-Mansur:
– Ramiro tem com ele muitos dos nobres leoneses que se revoltaram contra mim. Não o consigo combater com as forças de que disponho. Preciso da tua ajuda.
Respondeu Al-Mansur:
– Podes contar comigo sob uma condição: permitir que deixe um exército muçulmano em território cristão.
E assim foi. Claro que a nova situação era inaceitável e, no ano seguinte, morto Ramiro III, Bermudo, já rei de Leão, expulsou o exército mouro que nas suas terras acampara. Em Córdova Almançor sorriu: era o pretexto que procurava para atacar onde ninguém imaginava possível.
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(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

Conforme anunciado a apresentação oficial da obra "Terra Queimada" teve lugar no passado dia 22 de Maio.

A sala apresentou-se bem composta de amigos e interessados, tendo o editor, Luís Corte-Real, explicado o processo que levou à adopção do orignal, e incluí-lo na colecção História de Portugal em Romances.

O discurso do convidado, Francisco Louçã era aguardado com grande expectativa, e aqui deixo uma súmula do mesmo:
Trata-se de um romance bem escrito, muito bem investigado, com a preocupação em perseguir os aspectos práticos da forma de vida das pessoas, da organização dos poderes, da comunicação num período extraordinário da vida de Portugal.
O livro começa em 1801 e usa como epicentro a vila de Almeida, cidade fortificada que ficava na rota das invasões. O romance traz-nos o contexto, explica-nos a história, recorre a personagens fortes: é isso o que se pretende dum romance. Quer-se que seja verdadeiro para as personagens: é essa a grande característica que apreciamos, a daqueles homens e mulheres cuja história é contada, que são mais do que o autor diz deles; que têm vida própria, criam acontecimentos, ultrapassam a circunstância de um enredo ficcional, que é aquilo de que partem. Este romance possui figuras fortes e histórias importantes.
(...) o final, é uma arrumação da história da qual o autor é o supremo arquitecto.
No livro percorrem-se a diplomacia e a política, as três invasões francesas, o Junot que chega a Lisboa com as caravelas inglesas, a corte em tropel a sair pela baía fora.
A inteligenzia portugesa era francófona contra o regime que era anglófilo. Os ventos da liberdade sopravam da Revolução Francesa. O exército francês era constituído por maltrapilhos, tropa de rebotalho que ocupou algumas praças. Napoleão transformou-se na desilusão da intelectualidade portuguesa.
Um livro sobre guerra tem de ser sempre um drama, uma tragédia. Não há forma de contar uma guerra se não através de um livro trágico. Este livro contém uma tragédia, com os seus momentos encantadores: as personagens amam-se, discutem, conspiram, viajam.
Ficamos perplexos ao verificar que o dobrar do tempo faz com que algumas personalidade de polos opostos tenham de se encontrar, de convergir. Partes importantes do clero têm de se aproximar dos livre-pensadores. O dobrar do tempo em que estas personalidades se encontram é a prova da tragédia.
O livro trata de um período interessantíssimo, trata-o com informação; trata-o com uma escrita cuidada, e isso é o melhor que podemos pedir à honestidade de um autor que nos ajuda a perceber as dimensões da tragédia: o rei tinha fugido, deixara ordem à regência de tudo facilitar aos franceses. Há milícias muito corajosas que chegam a combater o Maneta, porém, não havia cabeça, a elite portuguesa fugira, algo que dá para perceber porque tão cedo as ideias liberais, e mais tarde as republicanas, puderam ganhar corpo em Portugal.

Coube ao autor finalizar a sessão, período aproveitado para explicar a abordagem que fez à obra, donde partiu, como chegou.
Espero que o livro venha a ter o sucesso que, suponho se justifique face à qualidade que exibe... até porque é necessário abrir caminho para novas obras que aguardam vez de aparecerem à luz do dia.
Notas:
-- No facebook do autor (https://www.facebook.com/profile.php?id=100016914339238) encontram-se discriminadas as acções levadas a cabo para a promoção do livro.
-- Gostaria de salientar a presença dos "meus meninos" João e Ana Sofia Carvalho, membros do grupo "As Voltas da História", a quem daqui mando um enorme beijinho.
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