Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Projecto pioneiro de colaboração com a Biblioteca Municipal de Cascais, destinado a contar a História da Ibéria a crianças. Os contos são apresentados sob a forma de narrativas originais ou adaptadas do nosso património histórico-cultural.

LISTAGEM COMPLETA DOS VOCÁBULOS:
|
Algoz |
= |
Carrasco |
|
Himeneu |
= |
Casamento |
|
Solilóquio |
= |
De si para si |
|
Cafua |
= |
Esconderijo |
|
Pendão |
= |
Bandeira |
|
Toledana |
= |
Espada |
|
Cuvilheira |
= |
Camareira |
|
Mortório |
= |
Funeral |
|
Catre |
= |
Leito de Morte |
|
Mata-cavalos |
= |
Rapidamente |
|
Latrocínio |
= |
Roubo |
|
Emires |
= |
Governadores |
|
Hájibe |
= |
Primeiro-Ministro |
|
Sicário |
= |
Assassino |
| Sólio | = | Trono |
| Missivas | = | Cartas |
CLASSIFICAÇÃO FINAL
|
|
Nome |
|
Pontos |
|
1º |
Carla Cardoso |
|
180 |
|
2º |
João Machado |
|
176 |
|
3º |
Lorena Valente |
|
151 |


Estabelecidas as classificações finais, foram galardoados com diplomas todas as crianças que compareceram ao mínimo de quatro sessões.


Foi possível usar de alguma "generosidade" na atribuição dos prémios, pois conseguimos ir para além do inicialmente previsto, com a oferta de idêntico livro de aventuras aos três primeiros classificados, sendo que ao primeiro deles acresceu uma obra sobre os cavaleiros templários.

Os vencedores foram, pela respectiva ordem, a Carla Cardoso, o João Machado e a Ana Lorena. Tudo está bem quando acaba bem, é ditado que aqui se aplica, pois foram, de longe, as crianças mais presentes e mais atentas ao longo das seis sessões.

A Carla Cardoso atingiu a pontuação máxima por cinco vezes; o João Machado, por quatro; a Ana Lorena, por três.

Esclareça-se que os dois últimos atrás mencionados têm oito anos e, querendo connosco continuar, muitos prémios vencerão, certamente.

A Carla Cardoso, 12 anos, está prestes a mudar o escalão etário, o que a fará partir para níveis de exigência que este projecto não contempla. Saudades deixará. Felicidades, campeã!

Por acordo entre a Biblioteca de Cascais e o autor, também os pais da vencedora foram alvos da oferta do romance histórico "Terra Queimada".

Parabéns aos melhores; parabéns a todos os que participaram.
Na vida, o processo de tomada de decisão nem sempre é fácil, e nas mais das vezes provoca-nos enorme angústia, sobretudo pela noção do caminho que vamos deixar de percorrer. Há que ser ponderado no primeiro momento, mas também forte para não mais olhar para trás. Chorar sobre o leite derramado só nos conduz à insegurança e ao medo.

São Pedro decidiu ensombrar um dia que de norma é soalheiro, o que abrilhantou com um número inesperado (para a altura do ano) de crianças a última sessão de contos da primeira série.

Uma história parcialmente contada na primeira pessoa, que “fechou” a presença muçulmana no Al-Andaluz. A par dos relatos dos momentos mais importantes da Guerra de Granada, pudemos, no final, discutir em grupo o papel de Boabdil, o último soberano nazari: herói ou cobarde?

Em 1232 o árabe Muhammad ibn Yusuf ibn Nasr, apelidado entre os muçulmanos por al-Galib bi-llah, o vitorioso de Deus, alcançou o poder em Arjona, em luta contra Ibn Hud, governador de Múrcia ao serviço dos almóadas, beneficiando da notória desagregação da dinastia que desde havia cerca de um século liderava os muçulmanos do Al-Andaluz. Os cristãos, a quem aqui e ali se aliara, para logo a seguir combater, conheciam-no pelo vermelho, por causa da cor da barba. Era originário da tribo dos Banu Nars. Rapidamente anexou ao seu território as cidades de Baza, Giuadix, Jaén, Almería e Málaga, Reorganizou a taifa granadina, estabelecendo ali a dinastia nazari.
Em 1246, cercado em Jaén pelas tropas castelhanas, estabeleceu um acordo de vassalagem tributária e protecção militar com Fernando III, o Santo. À falta de melhores dados, sabe-se que nas negociações havidas em 1430 o valor da párias era de 20 000 dobras de ouro anuais, uma fortuna. Ainda assim, foi com Muhammad I que se iniciou a construção do sumptuoso Alhambra, o mais espectacular conjunto de palácios legados ao futuro pelos sarracenos peninsulares.
Fernando e Isabel, os mais tarde considerados Reis Católicos, casaram em 1469, originando posteriormente a união das coroas de Castela e Aragão (Navarra juntar-se-lhes-ia em 1512) na filha de ambos, Joana, a Louca. Posto serem primos direitos, não lhes era possível efectuar o casamento, situação que foi ultrapassada com a falsificação da bula papal onde se inscrevia a respectiva dispensa. Fundamentalista em termos de religiosidade, Isabel aspirava à unidade confessional peninsular, o que de imediato tinha por consequência a luta contra judeus e muçulmanos. Os primeiros rapidamente se veriam ante o anti-semitismo e a Inquisição, braços espirituais do movimento, Torquemada e Cisneros à cabeça; os segundos, detentores do território de Granada, forçados a defenderem-se de uma investida militar de carácter religioso.
A chamada Guerra de Granada teve múltiplas personagens. Do lado cristão, os reis e a nobreza, sobretudo andaluza, sem esquecer os mercenários suíços, franceses e ingleses em busca de fortuna e glória, graças a Alexandre VI e à conveniente bula a todos os que na campanha combatessem, posto tê-la considerado como cruzada contra os infiéis. Do lado muçulmano, as figuras dos reis Muhammad XI, XII e XIII, bem como a nobreza representada pelos abencerragens e os zegries, e o paradoxal contributo de Aixa, esposa do primeiro dos sultões mencionados.
Afirmam os historiadores espanhóis que o pretexto da guerra foi dado pelo ataque de Muley Hacén (Muhammad XI) a Zahara de la Sierra, corria o ano de 1481, o que levou à bizarra retaliação cristã em Alhama, bem no interior do território granadino, no ano seguinte. Talvez sim, talvez não. A ser assim , como se deveriam entender a conquista da cruz contra o crescente representado pelos merinidas africanos no Salado, levada a cabo por Afonso XI, em 1340, destinada a controlar o estreito de Gibraltar? Ou a conquista de Antequera, em 1410, sem esquecer Baeza, Martos, Andújar, Córdova, Sevilha, Jerez, Arcos, Medina-Sidónia e Cadiz, todas ainda em pleno século XIII?
Porventura a sagacidade de Fernando tenha sido a chave do sucesso cristão; quiçá os nobres castelhanos e aragoneses tenham esquecido, momentaneamente, divisões seculares; porém, será nas permanentes guerras civis entre mouros que se deve procurar o declínio de um reino que, até ao século XIII, fora o maior expoente da civilização peninsular.
Os acontecimentos que se observaram na corte nazari durante a década de 1482 a 1492 – assassinatos e usurpações do poder que a seu tempo relataremos – não continham nada de novo. A tradição conspiradora estava-lhes no sangue. O sultão Saad recorrera ao fraticídioo para se alçar com o poder; Muley Hacén destronou o próprio pai; El Zagal, irmão daquele, matara os sobrinhos e liderara uma revolta abencerragem. Dir-se-á que acontecimentos daquele tipo também sucediam nos reinos muçulmanos da Berbéria, nos cristãos ocidentais, ou mesmo no Vaticano entre papas como Inocêncio VIII ou Alexandre VI. O problema reside nas consequências que tantas divisões promoveram naquele momento.
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

Abu Abd Allah Muhammad ibn Ali, al-Hasan az-Zughbî, Boabdil o desventurado, El Chico para os castelhanos, foi filho do sultão Muley Hacén e de sua esposa Aixa, tendo nascido por volta de 1460, em Granada. Liderou o reino por duas vezes, a primeira entre 1482 e 1483; a segunda, em versão reduzida, pois nunca controlou toda aquela área, sucedendo ao tio, El Zagal, a partir de 1489, apoiado claramente nos mais tarde denominados Reis Católicos, Fernando e Isabel. Muhammad XII seria o título com o qual Boabdil ficaria para a história como o último rei nazari de Granada.
Em Fez, na actual Marrocos, onde desempenhava o cargo de conselheiro do sultão Muley El Idrisi, Boabdil não se livrara de escutar alguns comentários jocosos:
– Olha o chefe dos cristãos de Castela.
Estava-se em 1494 e assim eram tratados entre os muçulmanos africanos aqueles que com o antigo rei de Granada ali haviam arribado, no que ficava claro, chiste à parte, que um homem pertence onde nasce e a mais nenhum outro lugar.
Boabdil viera até aos arrabaldes da cidade, como tinha por hábito fazer, desde que ali chegara no ano anterior. Gostava de meditar no que fora e deixara de ser, no que o destino lhe traçara. Por aquele tempo perdera filho e esposa, que haviam entretanto morrido e deixados na terra que os vira nascer, enterrados na La Rauda, o ex-Cemitério Real do Alhambra, que ele próprio ordenara que se trasladasse com os túmulos dos restos mortais dos ilustres lideres nazaris para Mondújar.
Ultimamente tornara-se algo questionador, faceta bem oposta à submissão de que tantos em Granada o haviam acusado.
– Como é possível ter perdido o reino que os meus antepassados conquistaram, no qual reinámos para cima de 250 anos? – perguntava-se em solilóquio, certo de ninguém o escutar.
Pela mente passou-lhe a imagem de Muhammad I com a sua barba avermelhada, iniciador da dinastia nazari, pequeno rei de taifa que tivera a ousadia de propor a Fernando III de Castela, em Jaén, corria o ano de 1246, um pacto de tal forma astuto que por tanto tempo permitira a sobrevivência do último reduto muçulmano do Al-Andaluz.
– Fomos os construtores do Alhambra, palácios, jardins, fontes. Que têm os infiéis que se lhe iguale em beleza? A sua capacidade construtiva não passa de mosteiros frios e desconfortáveis. – E a Peste Negra, a qual rapidamente percebemos como combater, enquanto os cristãos morriam aos milhares contaminando-se uns aos outros enfiados dentro das igrejas?
E continuava:
– É certo que também nos cabem culpas, sobretudo as decorrentes das nossas divisões internas… só no castelo de Salobreña estiveram presos cinco sultões... mas o pior foi o estado quase permanente de guerra civil entre os nobres abencerragens e zegries; a perda do controlo do estreito de Gibraltar, na batalha do Salado, que nos isolou do norte de África; a derrota em Antequera, em 1410; aquela espécie de monarquia dual em 1445. Na verdade, só em 1464, com a chegada do meu pai ao trono, foi possível controlar as revoltas dos abencerragens.
Boabdil estendia a mão para o horizonte, como se quisesse apagar o passado.
– Até à entronização de Fernando e Isabel, pensávamos que, enquanto reino tributário, encaixássemos na harmonia dos reinos cristãos peninsulares. Nem sempre pagámos as párias acordadas, mas as armas castelhanas aí estavam para nos lembrarem que estávamos em falta. Claro que ripostámos sempre que nos sentimos fortes, sobretudo em momentos em que os infiéis lutavam entre si. O novo modo de entender a questão do reino partilhada pelos monarcas e pela nobreza indiciava que a atitude dos cristãos ia mudar. A investida militar era, sobretudo, de carácter religioso. Os reis católicos introduziram a Inquisição e apoiaram o anti-semitismo enquanto braços espirituais do movimento tendente à unidade confessional do território.
Por muito que o balanço fosse do tipo generalista, Boabdil não escapava à própria consciência que o forçava a também analisar a sua contribuição no descalabro nazari:
– Sicário ao serviço dos cristãos me chamaram. Terei mesmo sido? E colaborador das vinganças de minha mãe? Tenho de admitir que também serviram os meus propósitos. Seguro é que fui vilipendiado pelos meus súbditos e apoiado pelos inimigos, o que me aproxima do estatuto de marioneta e traidor. Contudo, pergunto: quem, sendo feito prisioneiro, não cede a tudo para recuperar a liberdade?
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.