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Dentro do espírito de percorrer a cronologia histórica, avançámos hoje com um exemplo da reconquista do além Tejo, o que nos levou à descoberta de Giraldo, o Sem Pavor, de quem seguimos a vida de salteador a partir da conquista de Évora, até à morte por decapitação em África.

A habitual reflexão sobre os meandros do conto, levou-nos a analisar a figura do caudilho: herói ou bandoleiro? E que pensar do papel da História que tanto o mitifica, para o hostilizar a partir da sua conversão ao Islão?

O próximo conto trará ao palco os célebres cavaleiros templários, e a forma como D. Dinis com eles lidou no conflito que os opôs a Clemente V e Filipe, o Belo.

 

Concurso "Descobre o Vocábulo"

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A anunciada ausência da Maria Lorena, levou-a a ser ultrapassada pelo João Machado. Nada de mais, dada a vantagem que até aqui detinha, porém, a concorrência é, agora, de peso, e a diferença pontual mínima.

Os mais bem classificados são, pela respectiva ordem:

João Machado

110

Pontos

Maria Lorena

100

"

Lourenço Pinto

85

"

 

Nota: Face à fraca pontuação do escalão 11/12 anos, e em linha com as regras estipuladas, deixarei de o mencionar em separado, permanecendo atento a qualquer alteração substancial que possa ocorrer até Junho.

 

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Passemos agora aos vocábulos promovidos nesta série de contos:

 

Ardil

=

Artimanha

Parlenga

=

Discussão

Açodar

=

Apressar

Burleta

=

Farsa

Valhacoito

=

Abrigo

Cogitar 

=

Pensar

Desarrazoados

=

Despropositados

Deambular 

=

Passear

Vitualhas

=

Alimentos

Alazão

=

Cavalo

Pacto

=

Acordo

 

Nota: Relembro que quatro dos oito termos acima serão alvo do questionário "Memória dos Contos Anteriores" na próxima sessão.

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publicado às 00:02

Conto X: "Noites de Lua-Nova" - Factologia

por Eduardo Gomes, em 14.01.18

Évora simbólica.jpg

 

TEMÁTICA: A RECONQUISTA NO ALÉM TEJO


Em 1156 Afonso Henriques operou uma incursão no interior do Alentejo, conquistando as cidades de Beja e Évora, após mais de quatro séculos daquelas em posse dos árabes. Supõe-se que rapidamente haja a primeira sido abandonada, e a segunda retomada pelos muçulmanos em 1161, quando forças almóadas acorreram do interior do Al-Andaluz e desbaratam as tropas portuguesas. Ainda assim, logo no ano seguinte – segundo relato de Abd al-Malik ben Sahib Asala, cronista árabe, provavelmente nascido em Beja –, na noite de sábado, 1 de dezembro de 1162, um grupo de cavaleiros-vilões ao serviço do rei de Portugal, assaltou repentinamente a antiga Pax Julia romana, sob o comando de Fernando Gonçalves, filho do alcaide de Coimbra, podendo parte dos atacantes serem naturais de Santarém. Sol de pouca dura seria, pois, quatro meses e oito dias mais tarde foi a cidade abandonada pelos cristãos, desmanteladas as suas fortificações e despovoada.

O passo seguinte da Reconquista ocorreu em 1165, com a tomada de Yeborath, a Évora dos nossos dias. O nome de Giraldo Geraldes aparece ligado ao feito, posto ser obra sua o plano e o assalto à cidade que a traria definitivamente para mãos cristãs. É crível que Giraldo se encontrasse já antes entre os assaltantes de Beja, não sendo de descurar também a possibilidade de haver nascido moçárabe no seio da sociedade islâmica. O espaço territorial onde se moveu, leva-nos a supor que conhecia profundamente os costumes e língua árabe.

A criação e elaboração da versão mítica em volta do “herói nacional”, propõe que Giraldo pudesse ter sido um nobre português caído em desgraça junto de Afonso Henriques, e por ele exilado, algo bem mais honroso do que o classificar como foragido à justiça real. Em linha com aquela visão vai a teoria de que terá vivido no Vale do rio Bestança, na localidade de Vila Chã, e por tal, aproveitado para se refugiar da perseguição de Afonso Henriques nas fragas da Penavilheira. É difícil destrinçar a dupla faceta duma personagem que protagonizou um feito extraordinário, e, em consequência do mesmo, foi revestido da condição heróica face a uma realidade que lançava as maiores dúvidas sobre o carácter da pessoa em causa. Capacidade de liderança natural teria para que, em terras fronteiriças, dele se dissesse: “a ele se juntavam todos os proscritos e malfeitores que passavam a integrar a sua mesnada, e como mantinha tréguas com os muçulmanos dedicavam-se a razias em território cristão, sendo por isso apodados de ladrões.”

 

Terá Giraldo assumido que a deslocação da fronteira do reino para sul, isto é, para perto da sua área de actuação, promovida por Afonso I com as conquistas de Lisboa, Palmela e Alcácer, lhe aumentaria a possibilidade de alcançar o perdão real, se compensada com a luta pelo lado cristão? Terá a conquista de Évora correspondido a uma actuação do bandoleiro ao serviço do rei ou por conta própria? E, neste último caso, a entrega das chaves da cidade a Afonso serviu de moeda de troca ou pagamento no âmbito de um qualquer tipo de acordo ou vassalagem? A actuação de Giraldo nos anos posteriores à conquista de Évora revela-nos um “senhor de fronteira” em busca de “território próprio” ou um simples mercenário a soldo de quem melhor lhe pagasse? Dúvidas por esclarecer.

Faça-se um parêntesis para esclarecer a visão de Afonso relativa à reconquista territorial.

Évora foi subtraída definitivamente ao poder muçulmano em 1165. Contudo, a urbe manteve ainda, durante quase um século, o seu estatuto de cidade de fronteira, inserida numa área de primordial importância militar, palco de constantes conflitos entre as forças muçulmanas e cristãs, ainda que beneficiada pelo seu papel de grande entreposto comercial. A necessidade sentida pelo primeiro monarca de assegurar a defesa do território conquistado a sul do Mondego, e, sobretudo em todo o vasto além Tejo, e prosseguir e consolidar os avanços cristãos sobre o Islão, levá-lo-á a incentivar a implantação nesta região de diversas ordens religiosas militares. Ao apoio facultado por estas milícias, a realeza responderá com importantes concessões patrimoniais e diversificados benefícios senhoriais. O caso de Évora é paradigmático: apesar de as tentativas de Afonso Henriques em associar a Ordem do Templo à defesa da urbe alentejana, doando-lhe diversas casas no interior da cidade, o monarca acabaria por confiar tal encargo a uma nova milícia por ele criada (em 1175 ou 1176), dita dos freires de Évora, cuja essência poderá ter assentado numa anterior confraria de cavaleiros aí existente. A importância estratégica da cidade levaria Afonso Henriques a entregar o comando desta milícia ao governador militar de Lisboa e da Estremadura, Gonçalo Viegas de Lanhoso, a quem, de igual modo, confiaria, logo a seguir, em 1176, a defesa de Coruche.

 

(Continua)

 

Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

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publicado às 00:01

Conto X: "Noites de Lua-Nova"

por Eduardo Gomes, em 14.01.18

lua-nova.jpg 

Chegara de mansinho o outono daquele ano de 1165. Yeborath fervilhava de actividade: cristãos moçárabes, não muitos ainda assim, procuravam comprador para a sua veniaga, alheios a credos que para ali não eram chamados. Bem mais seriam os maometanos, tantos de que se lhes perdia o conto, uns negociando aqui; outros comerciando mais além, aravia que aos ouvidos de um estrangeiro soaria a altercação. Conclusão errada, pois aquele era o modo porque as trocas se acordavam, e escarnecido pelos demais seria o que se recusasse a participar do ritual de oferecer e recusar, pegar e largar.

No terreiro exterior uma estranha figura se encapuzara, procurando passar despercebida, tiorba de trovador amparada pelo largo ombro, caminhando lentamente em direcção à torre de atalaia, como quem houvera cumprido o que à cidade o levara e dela se despedia com um até breve.

– Conhece aquele homem, meu pai? – perguntava Iasmin, a bela moura, que se chegara à guarita do torreão, quando, ao longe, do interior da cidade, a partir do altaneiro minarete que coroava os coruchéus da mesquita sagrada, emanava a voz do almocadém a chamar os fiéis à oração de fim de tarde.

– Mercador não será, e se de menestrel faz vida, nunca lhe ouvi acorde ou timbre da voz.

Iasmin e o pai zelavam pela guarda da atalaia construída sem portas para o exterior, fortaleza arredondada com uma única abertura a servir de vigia lá bem no alto, situada a noroeste da cidade. Ali viveriam até que o al-qadi os mandasse substituir, recebendo as vitualhas que consumiam através duma cesta que faziam descer e subir a partir da referida abertura. Como os demais mouros em qualquer lugar onde estivessem, também filha e pai se ajoelharam humildemente virados a leste, para Meca. Quando à janela voltou, Iasmin não viu nem sinais do homem que antes por ali passara.

– Já diante daí esteve por diversas vezes nos últimos dias – relembrou o pai da jovem, retomando a conversa antes interrompida.

– Mete-me medo, meu pai. Forasteiros assim nunca se sabe ao que vêm.

– É por isso mesmo que o governador aqui nos pôs; para que vigiemos o que se passa em redor, contudo, pareces-me algo nervosa. Troquemos os turnos: esta noite fico eu a guardar a chave da cidade. Vai tu dormir, minha filha.

 

A súbita mudança de rotina foi detectada a distância, na pequena elevação coroada de oliveiras que não longe dali se observava, local donde o suposto trovador vigiava o movimento da população da romana Liberitas Julia. Assim, pôde aquele observar o recolher nocturno dos habitantes, a forma manual com se fecharam as portas mais pequenas da fortaleza, aquelas cuja largura mal deixava passar três homens lado a lado ou um só por vez se a cavalo fosse. A grande, a mais imponente delas, só se abria em ocasiões festivas ou quando o governador ou mesmo o califa pernoitavam em Yeborath. A chave era então recolhida a partir da base da torre exterior por uma brigada de cavaleiros que ali se deslocava, procedendo de igual forma para a respectiva devolução, tudo feito com a maior das precauções e garantia prévia de que nenhuma emboscada lhes havia sido preparada. A segurança do sistema obedecia ao princípio muito antigo de impedir a traição perpetrada pelos habitantes a partir do interior das muralhas. A escolha de Iasmin e do pai fora feita em função da fidelidade que ambos dedicavam ao al-qadi, e, mais genericamente, a Alá.

 

– Quem vem lá? – perguntava a sentinela, à entrada da rude fortaleza recolhida entre arvoredo e rochas, que em tempos antigos fora um castro, local situado num dos contrafortes da Serra de Monfurado, a mais de 300 metros de altura. Dali se tinha ampla visão sobre Yeborath, ainda que ao longe, como convinha a quem não queria ser detectado e na serra se escondia. A razão da ansiedade do vigia ao sentir o som dos passos daquele que se aproximava tinha razão de ser: é que por ali não circulava só aquele bando de malfeitores foragidos à justiça de Afonso Henriques. Também pela serra se escondiam outros grupos de assassinos ou simplesmente ladrões, cristãos ou muçulmanos, homens que, em muitos casos, se haviam cansado da vida de lavradores, da devassa que fossados e razias dos contendores peninsulares lhes provocavam nas colheitas.

– Quem julgas tu que a meu castelo se atreveria a subir? – respondeu aquele que estava a chegar, o chefe do bando, Giraldo Geraldes, conhecido por “O Sem Pavor”, nome que só por si fazia tremer os sarracenos de além do Tejo.

Giraldo rapidamente fez reunir os cerca de trezentos homens que liderava:

– Quando entra a lua-nova? – perguntou a Fernão Anes, um dos seus mais fiéis cavaleiros e arqueiro de se lhe tirar o chapéu.

– Dentro de dois dias aí a teremos, e, pelo tamanho do minguante, nem a boca do Feioso conseguiremos ver à nossa frente – disse, apontando para o atingido, expressão que logo fez rir os companheiros e amuar o pobre que tinha nascido com a boca torta, inclinada à direita e alinhada com o nariz pencudo.

– Deixa-te de graças que isto é coisa séria – corrigiu Giraldo. – E cordas, temo-las suficientes?

– Dá para fazer meia dúzia de escadas fortes, capazes de suportarem três a quatro homens– respondeu Fernão.

– Não chegam, vamos necessitar do dobro. A cidade é grande, precisaremos de escalar as muralhas em vários locais de maneira a impedir a mourama de se organizar. Atacaremos daqui por três dias – sentenciou Giraldo.

Fernão e os demais ficaram surpreendidos: se o ponto máximo da escuridão se dava dali a 48 horas, porque o chefe anunciava o assalto somente para o terceiro dia?

– O velho mouro anda desconfiado, trocou o turno com a filha. Para termos a certeza de que é ela quem estará de vigia, melhor será corrigirmos a data do ataque. Velhos dormem mal; já em contrapartida os jovens quando pegam no sono não há quem os faça acordar.

 

(Continua)

 

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