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Projecto pioneiro de colaboração com a Biblioteca Municipal de Cascais, destinado a contar a História da Ibéria a crianças. Os contos são apresentados sob a forma de narrativas originais ou adaptadas do nosso património histórico-cultural.

No último post deixei antever a possibilidade de efectuarmos um conto no exterior. Das duas alternativas iniciais, tivemos de protelar a ida a Aljubarrota por razões de impossibilidade logística em obter apoio camarário. Porém, a alma do Homem é grande. Reservaremos aquela para o próximo ciclo (a menos que, entre os interessados, encontremos uma solução...) e vamos avançar para Lisboa... ou não, pois a última palavra depende dos pais.
A proposta passa por nos aventurarmos manhã cedo, de Cascais até ao Cais do Sodré, Cata-que-farás, assim se chamava o local no medievo. Mas, como isso são contas doutro rosário, fixemo-nos no que ali nos levará: entender a extraordinária conquista de 1147, tendo por base as evidências da cerca moura de antanho. Aquela mesma que delimitava al-Usbuna. Passaremos pelas várias portas; entenderemos o que significavam; projectaremos um Tejo bem diferente do actual; visitaremos a alcáçova para concluirmos da impossibilidade de Martim Moniz se atravessar na famosa porta; daremos largas à nossa imaginação para entender os artefactos de cerco que fracassaram sucessivamente até atingirem o objectivo; e, do silêncio dos sepulcros ali bem perto, ouviremos o susurro dos mouros: Allahu Akbar!
Acrescente-se que o novo quadro influenciará o plano dos contos relativos a Abril e Maio. No próximo mês continuaremos a cronologia histórica com a explanação de um dos mais belos relatos. Se a temátca serão os amores de Pedro e Inês, a acção decorre na fronteira castelhano-aragonesa. Perrito, o pequeno cão-pastor, será o protagonista principal. Palpita-me que vem por aí lágrima ao canto do olho. Já em Maio, avançaremos para a história da conquista de Lisboa. Objectivo? Proporcionar às crianças a possibilidade de, in loco, "ensinarem" os pais, quando aí nos deslocarmos, a 23 de Junho.
Através da Biblioteca de Cascais (como não podia deixar de ser), irão os pais dos meninos e meninas envolvidos no projecto receber a informação que aqui deixo em primeira mão. Da reacção e do interesse dos progenitores dependerá a efectividade do projecto.
Ah, é verdade! Os pais podem -- e devem -- participar... em segunda fila, pois as crianças são a razão de ser de tudo isto.
Um abraço a todos. Voltar-nos-emos a ver a 14 de Abril.

Um dia com um conto paradoxal. Se, por um lado, nos levou a enfrentar o sofrimento e a impotência perante a morte corporizada na terrível Peste Negra, levou-nos, por outro, a conceber um herói, antes vilão, cuja tomada de consciência nos faz a todos acreditar na benignidade do ser humano.

A reflexão sobre o conto levou-nos a tocar ao de leve na questão do Caminho Marítimo para a Índia, algo que abordaremos algures no próximo ciclo. Contudo, antevimos o conhecimento da problemática geográfico-politica, e, surpresa máxima, ficámos a saber que há cerca de 4 000 anos já os faraós haviam antecipado a construção do Canal do Suez. E explicar que Dario, o sassânida, no século V a.C., levava navios dos mares Vermelho ao Mediterrâneo?
Assim se cresce; assim nos apaixonamos pela História.

NOTÍCIA
Planeamos uma saída ao exterior para Junho. Um conto especial que depende da anuência dos pais, e para o qual os convidaremos. Logo que tenhamos notícias seguras, dá-las-emos a conhecer.
Por tal motivo, manteremos em aberto os temas dos contos referentes a 14 de Abril e 12 de Maio, sabendo que, como sempre, serão estimulantes para quem ouve e para quem conta. Certo, certo é que deixaremos algumas "pontas" da primeira dinastia para o ciclo 2018 / 2019. Tratar-se-á da aplicação do princípio dos vasos comunicantes. Não virá daí mal ao mundo, certamente, tão rica é a História Nacional.

CONCURSO DESCOBRE O VOCÁBULO
Os vocábulos seleccionados para este conto foram:
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Veniaga |
= |
Mercadoria |
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Fâmulo |
= |
Criado |
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Presságio |
= |
Pressentimento |
Vejamos a lista que, prazenteiros, vemos crescer todos os meses:
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Ardil |
= |
Artimanha |
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Parlenga |
= |
Discussão |
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Açodar |
= |
Apressar |
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Burleta |
= |
Farsa |
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Valhacoito |
= |
Abrigo |
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Cogitar |
= |
Pensar |
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Desarrazoados |
= |
Despropositados |
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Deambular |
= |
Passear |
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Vitualhas |
= |
Alimentos |
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Alazão |
= |
Cavalo |
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Pacto |
= |
Acordo |
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Desígnios |
= |
Projectos |
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Patranhas |
= |
Mentiras |
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Animadversão |
= |
Ódio |
Nota: Relembro que quatro dos dezasseis termos acima serão alvo do questionário "Memória dos Contos Anteriores" na próxima sessão, a realizar no dia 14 de Abril.
Quando faltam três contos para acabar esta série, os mais bem classificados são:
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João Machado |
200 |
Pontos |
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Maria Lorena |
190 |
" |
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Lourenço Pinto |
125 |
" |

TEMÁTICA: A PESTE NEGRA
O fenómeno registado em meados do século XIV, cognominado de “grande pestilência”, “grande mortandade” e “morte negra” (os nomes da época), não foi a primeira pandemia observada no ocidente. Outro registo existe cujo índice de gravidade fora semelhante àquele. Aconteceu 700 anos antes.
Muitas foram as teorias construídas ao longo dos séculos para identificar as razões para a dimensão da peste que se observou, com particular ênfase, na Europa, entre os anos 1347/53, a qual deverá ter varrido algo como cem milhões de vidas humanas. Sabe-se que também na Ásia Central muitas mortes ocorreram, sem, todavia, existirem números credíveis. A doença instalou-se no ocidente, abatendo-o em focos endémicos mais ou menos silváticos. Observe-se a enorme lista de anos pestosos documentados em Portugal até ao alvorecer da centúria de quinhentos: 1356, 1361-63, 1374, 1383-85, 1389, 1400, 1414-16, 1423, 1429, 1432, 1433, 1437, 1441, 1448-1453, 1456-58, 1464, 1472, 1477, 1497. Valeu que nenhum dos referidos surtos possuiu o carácter trágico da “Peste Negra”. Os efeitos nefastos continuariam a fazerem-se sentir pela Europa até ao século XIX, altura em que a erradicação do fenómeno foi possível graças aos avanços registados pela medicina.
Estudos realizados nos últimos anos por uma equipa de investigadores da Universidade de Oslo, permitiram concluir que a origem da peste não estará, ao contrário do que sempre se afirmou, nas ratazanas, antes nuns pequenos roedores, os gerbilos asiáticos. É um facto que a pandemia teve origem na Ásia, tanto quanto o seu veículo para chegar aos portos do Mediterrâneo foram os animais, mercadores e barcos que, por terra ou por mar, percorriam a Rota da Seda. A bactéria causadora da doença encontra-se hoje classificada como a Yersínia Pestis, a qual se julgava ter um reservatório nos parasitas (pulgas) das ratazanas negras. Certamente que a responsabilidade pela disseminação da doença lhes cabe, sobretudo por encontrarem nos barcos e nos portos as condições de higiene (falta dela) ideais para a respectiva propagação.
Quem transportou as pulgas de oriente para ocidente? Vamos por partes.
Sempre que a temperatura aumenta, os gerbilos asiáticos (A doença é originária do Extremo Oriente e da região curdo-cáspia, onde se situam os seus viveiros originais) fazem disparar a sua população, o que tem por consequência subir também a comunidade de parasitas. O dado é tão certo quanto o seu contrário, ou seja, a um decréscimo da temperatura, os roedores morrem. As pulgas, não podendo alimentar-se, rapidamente procuram outro ser onde encontrar a fonte de subsistência (parasitado). Dos gerbilos passavam para os camelos das caravanas na Rota da Seda, para os humanos que as conduziam ou para os bens que eram transportados. Um par de anos seria suficiente para que o ciclo de chegada da bactéria à Europa se fechasse. E, acreditam os investigadores, até ao século XIX, por dezasseis vezes se renovaria. Fica explicada a regularidade do fenómeno pestífero.
A bactéria Yersínia Pestis é transmitida ao homem quando este é picado por um pulga que previamente se houvesse alimentado do sangue de algum roedor infectado. A peste negra caracterizou-se como um quadro nosológico de três formas clínicas: a peste bubónica, a peste pulmonar e a peste septicémica. A primeira forma foi transmitida por pulgas e piolhos infectados, e degenerou, em larga escala, na segunda e, ambas, na terceira. A manifestação bubónica da doença conduzia à morte no espaço de cinco a dez dias após o período de incubação; a septicémica era absolutamente letal ao fim de três ou quatro horas após a inoculação; a pulmonar tornou-se na de maior gravidade devido à sua altíssima contagiosidade. A peste pulmonar disseminava-se num crescendo de progressão geométrica, visto que o contágio era feito através do ar. Dois dias de incubação da doença eram suficientes para que a morte ocorresse daí a 48/72 horas. Foi esta a forma de peste responsável pela catástrofe demográfica. Ainda assim, nem todos morriam. Cerca de metade dos seres humanos tornaram-se imunes, o que, só por si seria factor de erradicação da doença, por inexistência de meio onde se desenvolver... Mortas que estivessem as vítimas, e até à erupção de novas gerações, entenda-se.
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

A técnica de fiar a seda a partir do respectivo bicho foi mantida em segredo durante cerca de 3 000 anos pelos chineses. Logo que se compreendeu a utilidade da matéria-prima, rapidamente se procedu à sua negociação, que, através da conhecida Rota da Seda, atingia o ocidente por duas vias: a marítima e a terrestre.
Giovanni Marignolli, genovês, comandante da embarcação Madonna Mia, chegara a Cantão em princípios de 1345. Ali aguardou o carregamento de seda que de Chang'an receberia, conforme tinha por hábito e autorização de comércio dada pelo Khan mongol a si e a alguns conterrâneos. A mercadoria, saída da cidade localizada na China central, ainda teria de percorrer por terra cerca de 1 500 quilómetros até chegar ao mar da China. Marignolli podia haver poupado algum tempo se tivesse optado por atracar a embarcação na região de Calcutá, como alguns dos seus amigos tinham por uso, porém, face ao facto de o poder mongol não ser ali tão efectivo, sempre havia preferido rumar a leste. Ademais, nem sempre dava por perdido o tempo, pois basta vezes se deslocara à região de Java a comercializar mercadorias.
A viagem iniciada em Cantão, prosseguiu em direcção à Índia, com paragens em Cochim, Bombaim, onde procedeu à necessária aguada e carregou os últimos lotes de especiarias: pimenta, noz-moscada, gengibre, cravo etc.
Nem todos os capitães tocavam os mesmos portos. Muitos, chegados ao golfo de Adém, haviam, ao longo dos tempos, preferido rumar a Mogadíscio, o que enriquecera comerciantes e califa local.
À questão sobre os custos de tamanha expedição, recordavam os genoveses a importância dada na Europa por reis, nobres e clérigos abastados aos finos tecidos que comercializavam e às especiarias tão procuradas, razões que elevavam a mercadoria a preços cerca de cem vezes o seu valor original. A prata e a lã rapidamente se converteram em moeda de troca do ocidente, produtos com forte procura tanto na Índia como na China.
Nicola Conti, outro genovês, era sócio de Marignolli, ocupando-se das cargas logo que a mercadoria chegava ao Mediterrâneo. Navegava, como muitos dos compatriotas, a partir de Génova até ao delta do Nilo, Alexandria, Rosetta, Damietta ou Port Said. Recepcionada a carga que o sócio ali fizera chegar, numa operação que combinava terra e mar, ainda que guardada por algumas centenas de mercenários contratados em Adem que impediam os ataques piratas a bens e pessoas, os genoveses rumaram então a Constantinopla. Ali cruzaram o mar de Mármora e o Bósforo, para, através do mar Negro, atingir Caffa, porto comercial de enorme importância, onde chegava muita da seda que por terra se encaminhava de oriente para ocidente. Porém, o principal motivo para que a nau se desviasse da rota europeia que a traria, mais tarde, à Ibéria e países do Atlântico norte, eram os escravos que na fortaleza se transaccionavam.
O ano de 1346 entrara já quando os genoveses ali chegaram. Um mensageiro do alcaide parecia aguardá-los no porto.
– Giovanni, Nicola, como estais? – e sem sequer lhes dar tempo a responder à cortesia, continuou o estafeta. – É importante que vós e a vossa tripulação se recolham de imediato no castelo.
– Que se passa? – perguntou Nicola
– Temos notícias seguras de que o Khan Jani Berg está aqui bem perto a preparar-se para montar um cerco à cidade.
– Mas Caffa tem um acordo de paz com o Mongol para que aqui possamos comerciar – respondeu, surpreso, Marignolli.
– O Khan não aceita que nós, genoveses, tenhamos o monopólio do negócio dos escravos. E por isso nos quer destruir – informou o mensageiro do alcaide.
As tentativas de assalto mongol à fortaleza de Caffa começaram de imediato. O Khan ficou surpreendido quando viu que alguns dos seus soldados adoeciam sem razão:
– Que se passa? – perguntou aos físicos.
– Não sabemos ao certo, talvez precisemos de mais alguns dias. Contudo, tanto quanto temos sido informados, há gente a morrer nas planícies da Ásia Central, lugares por onde o exército passou antes de aqui chegar.
– Crêem que... – insinuou o Khan, tendo obtido pronta resposta.
– Sem dúvida. É uma forma de peste. O problema é que não entendemos como se propaga.
– Mas sei eu. Querem ver? Sigam-me.
Encerrados nas muralhas da cidade, os genoveses atribuíam a doença no acampamento mongol à justiça divina, sinal de que Deus estava do lado dos cristãos. O pior foi quando, incrédulos, começaram a assistir às catapultas que os mongóis construíam. E mais estupefactos ficaram ao ver as máquinas de lançamento carregadas de corpos de soldados mortos. A morte cruzou os céus, quando as “balas humanas” começaram a cair no terreiro dentro da fortaleza.
A curiosidade dos defensores levou a investigarem os cadáveres. Rapidamente se percebeu que estavam empestados.
– Atiremo-los ao mar, rápido – gritava-se, quando, um a um, eram os corpos levados até às muralhas e deixados cair nos penhascos sobre o mar Negro.
– Já viste que o Khan está a levantar o cerco?
– Resta saber quanto nos vai custar tudo isto – insinuou Conti.
– A que te referes, que não te entendo? -- questionou Marignolli.
– Ao facto de havermos mexido e estado em contacto com a peste. Podemos estar todos contagiados. Melhor será que fujamos daqui de imediato.
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.
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