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Dia de conto focado num episódio por demais conhecido, ou mais correctamente, "mal-conhecido", posta a influência negativa que a visão utra-romântica dos séculos XVI e XVII trouxe ao tema. A factologia anexa ao conto ajuda a esclarecer o que, sob o manto diáfano de tanta simbologia, se esconde.

Oportunidade para lembrar que as edículas dos túmulos de Alcobaça constituem-se em elemento assaz interessante para entender a história de Pedro e Inês.

 

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A reflexão do conto de hoje levou-nos a equacionar os conceitos de justiça, de consanguinidade e a levantar o véu da verdadeira consequência dos amores inesianos: a Batalha de Aljubarrota. A ela voltaremos.

Em Maio prepararemos a hipotética visita de Junho, com a apresentação do conto dedicado à conquista de Lisboa pela cristandade no ano de 1147. Renderemos as nossas homenagens a um "terrorista" do século XII, Afonso Henriques, que, afora o pânico que infundia, possuia também um conjunto de princípios que orgulham os portugueses de todos os tempos.

 

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CONCURSO DESCOBRE O VOCÁBULO

 

Os vocábulos seleccionados para este conto foram:

 

Aprisco

=

Curral

Quelha

=

Viela

Almocreve

=

Mercador

 

Vejamos a lista que, prazenteiros, vemos crescer todos os meses:

  

Ardil

=

Artimanha

Parlenga

=

Discussão

Açodar

=

Apressar

Burleta

=

Farsa

Valhacoito

=

Abrigo

Cogitar 

=

Pensar

Desarrazoados

=

Despropositados

Deambular 

=

Passear

Vitualhas

=

Alimentos

Alazão

=

Cavalo

Pacto

=

Acordo

Desígnios

=

Projectos

Patranhas

=

Mentiras

Animadversão

=

Ódio 

Veniaga

=

Mercadoria

Fâmulo

=

Criado

Presságio

=

Pressentimento

 

Nota: Relembro que quatro dos vinte termos acima serão alvo do questionário "Memória dos Contos Anteriores" na próxima sessão, a realizar no dia 12 de Maio.

 

Quando faltam dois contos para acabar esta série, os mais bem classificados são:

 

João Machado

245

Pontos

Maria Lorena

220

"

Lourenço Pinto

170

"

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publicado às 00:02

Conto XIII: "Um Rei Ga-Ga-Ga...Go" - Factologia

por Eduardo Gomes, em 15.04.18

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TEMÁTICA: OS AMORES DE PEDRO E INÊS

 

Por el rey matar omnes, non llaman justiçiero, ca sería nombre falso: más propio es carnicero

 

Pedro Lopes de Ayala, castelhano, cronista real e coevo dos sucessos então ocorridos, redigiu a frase acima acerca de Pedro I de Castela. Fora português e podê-la-ia haver escrito acerca do tio daquele, o também primeiro Pedro na cronologia dos reis de Portugal.

Não cabe neste trabalho a análise do reinado do Cruel. Deixemos claro que o rei exibia a sua crueldade sob a capa da aplicação da justiça. A severidade do seu carácter alterado inclinava-o a ditar penas exageradas para castigos de delitos insignificantes. E isto não é justiça, como também não é do espírito justo (antes a sua formal negação) rir-se, folgar e comer enquanto as sentenças estavam sendo executadas: Tragam-me cebola e vinagre para comer o coelho em molho vilão, pediu, enquanto assistia à barbárie praticada sobre o conselheiro Pero Coelho.

 

Atentemos na forma e argumentos usados pelas várias fontes que, acerca dos amores de Pedro e Inês (tema do conto anexo), se têm confrontado nas áreas mais cinzentas da História.

 

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A QUESTÃO DO CASAMENTO

 

Em meados de Junho de 1360, a 14, em Cantanhede, e a 18, em Coimbra, Pedro declarou ao reino, por intermédio do mordomo-mor, João Afonso Telo, que se casara com Inês por uma ocasião em que estivera em Bragança: “Jurou aos Evangelhos, por ele corporalmente tangidos”. As testemunhas foram D. Gil Viana, então simples deão da Sé de Braga, que bem pronto seria elevado a bispo, e Estevão Lobato, mero serviçal do rei. A ocorrência teria acontecido, de acordo com o rei, uns sete anos antes, pouco mais ou menos, em mês e dia de que não me recordo. O clérigo alinhou pelo mesmo diapasão, no que demonstrava concordância absoluta com uma bizarra versão, ainda que afirmada enquanto testis qualifatus (declaração jurada do clérigo que pede e recebe o consentimento dos contraentes). Lobato foi o único que se recordava do dia: 1 de Janeiro (supostamente de 1354).

Outrossim afirmou Pedro que aguardara tanto tempo para fazer tal declaração por temer as retaliações do pai, Afonso IV. Embalado, o rei fez presente a bula de dispensa pontifícia que fora enviada ao reino em 18 de Fevereiro de 1325 pelo papa João XXII, na qual concedia dispensa para Pedro se casar com qualquer mulher nobre que fosse sua parente até determinado grau, o que envolveria o caso do compadrio com Inês.

Posto serem conhecidas as reacções violentas do monarca perante qualquer contrariedade, os presentes não se atreveram a colocar dúvidas sobre o tema. A muitos pareceu estranho que o rei se esquecesse da data do seu casamento. As incertezas cortesãs prolongavam-se à bula papal, posto ser de todos conhecido que a mesma fora emitida para permitir o primeiro casamento de Pedro com Branca de Castela. Dali decorreria que, ainda que o casamento se houvesse realizado, seria nulo, posto Pedro e Inês serem primos e compadres. Por último, também não se entendia porque, morto Afonso IV em Maio de 1357, Pedro tivesse esperado três anos para fazer a declaração que naquele momento tornava pública.

O já então monarca decidiu enviar a Avinhão uma embaixada presidida por Geraldo Esteves. Procurava, junto do papa Inocêncio VI, a outorgação e ratificação do seu casamento e, naturalmente, a legitimação dos filhos. Sem rodeios, recomendou por escrito aos seus: Fazei de guisa que hajaaes desembargo da dita confirmação de casamento, em guisa que os moços fiquem legítimos. E quanto é das duas pedidas não cureis d'ellas.

O Papa devia estar bem informado da incerteza do acto, pelo que respondeu: Rogamos a tua real clareza, com todo o bom desejo aconselhamos, que com paciência suportes nossas execuções, que nos demove e constrange usar do contrário do que tu suplicaste, porque a nossa pastoral officio quebrantar não pertence a lei de Christo, mas a ella nos chegar e não desviar de sua doutrina.

Acrescente-se que, mais tarde, também D. Fernando e João das Regras desmentiram a validade do enlace, sem com isso esquecermos que tinham ambos boas razões para o fazer. Já Fernão Lopes, apesar do melindre da posição que detinha e de quem lhe incumbira a tarefa, inclinou-se para a inexistência do casamente de Pedro e Inês, afirmando acerca dos depoimentos das testemunhas: Parecemdolhes seer muyto contra razom, para mais à frente concluir: Carrego ao que isto leer que destas opiniooens escolha qual quiser.

 

(Continua)

 

Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

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publicado às 00:01

Conto XIII: "Um Rei Ga-Ga-Ga...Go"

por Eduardo Gomes, em 15.04.18

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No termo de Ariza, à beira da fronteira castelhano-aragonesa, um menino de cerca de dez anos observava o rebanho que levara a pastorear ainda a manhã mal despontara e se entoavam os louvores no mosteiro de S. Pedro Mártir. A cada assobio que emitia, correspondia Perrito, o pequeno cão-pastor, com mais uma corrida a corrigir algum desvio de rota a que ovelha mais curiosa se tivesse atrevido.

Paco, assim se chamava o menino, tinha por uso chegar os animais àquele lugar, um pouco mais para cá ou para lá, consoante lho exigia o rebanho sempre ávido dos rebentos mais tenros e viçosos que brotavam pela encosta do monte. Tanto palmilhava o pastor que não eram escassas as vezes em que se abeirava da estrada que de Medinaceli precedia. Assim foi o caso naquele dia que se adivinhava quente, corria para o final o Verão de 1360.

À medida que se foram aproximando do local eleito, o cão ia-se mostrando algo excitado, ladrando aqui, executando largas piruetas ali. O ouvido apurado do animal distinguia, ainda que ao longe, o trotar de um cavalo.

– Que se passa, Perrito? Queres brincadeira, é? Vai-me cuidar das ovelhas, cão vadio.

Mas o rafeiro não parecia estar pelos ajustes. Subitamente deixou de ouvir o barulho que antes detectara.

– Pára quieto!

O cachorro obedeceu de imediato, algo que até o próprio dono estranhou. Estancado, cauda apontada como se bandeira de cata-vento se tratasse, deu em mirar umas moitas, uma centena de metros mais abaixo, para logo disparar em louca correria.

– Não te metas no sendeiro. Daqui a nada estás em Castela.

Tal qual as gentes aragonesas, também o animal parecia nutrir uma particular aversão por tudo o que viesse de ocidente. E, por tal, muito se surpreendeu Paco com a insistência do cão, que, chegado ao objectivo, desatou furiosamente a ladrar. O menino achou por bem ir dar uma vista de olhos. Afastadas as ramagens que impediam o acesso, viu, pelo chão, inertes, um homem e um cavalo. Assustou-se, pegou no cajado em postura defensiva, primeiro; atacante, logo após; e vá de picar de mansinho e a distância segura besta e humano que se encontravam prostrados:

– Um está desmaiado; o outro, morto. Perrito, vai à feira chamar o pai. “Diz-lhe” que venha e traga a burra. Rápido!

Mal partira o cão, já o viajante parecia querer dar cobro de si:

– Aragão... Preciso de chegar a Aragão – murmurava tão baixo que só ouvidos de criança o haveriam escutado.

– Acalme-se, senhor, que está em terras do reino de Aragão. O cavalo é que... Diria que morreu de esgotamento. Co catano!, vossência deu-lhe cabo dos peitos.

O estranho fez menção de se levantar, todavia mais não almejou que tombar de novo sobre as silvas, ferindo-se num braço. E voltou a desmaiar. O pai do menino chegou um pouco antes da hora sexta. Rapidamente se apercebeu do sucedido:

– Que bizarria! Vestido de pedinte, mas olha-me os alforges – dizia enquanto abria uma das bolsas da sela do cavalo –, roupa fina, gabão de fidalgo, moedas em ouro.

– Mas já a montada... – insinuou Paco

– Vamos levá-lo para casa. Ajuda-me a pô-lo às costas da burra.

O menino deixou mandarete:

– Fica aqui a tomar conta do rebanho, Perrito. – E como o animal, rabo entre as pernas, aparentasse algum desacordo: – Não faças essa “cara”, que eu vou num pé e volto noutro.

Já na modesta choupana onde pai e filho habitavam, foi servido um caldo de borrego ao viajante que, logo após, estômago amparado, adormeceu.

– E nós melhor faríamos também em ir jantar – propôs Manuel ao filho.

 

(Continua)

 

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