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Projecto pioneiro de colaboração com a Biblioteca Municipal de Cascais, destinado a contar a História da Ibéria a crianças. Os contos são apresentados sob a forma de narrativas originais ou adaptadas do nosso património histórico-cultural.

Dia de contar uma história por confirmar, isto é, por ir ver in loco a cerca que fez de Lisboa cidade muçulmana por 358 anos, no dizer, talvez pouco rigoroso, do arcebispo João Peculiar, aquando do cerco da cidade, em 1147.
Porém, pouco importa a matemática ou a retórica: importante é que, através dos edifícios, dos recantos, da destruição tão bárbara quão ignorante da historicidade, dos vestígios do que somos, possamos usufruir e apaixonarmo-nos pelo que resta; transportarmo-nos ao medievo; imaginarmos cristãos e mouros em luta. De lado, judeus e moçárabes, apátridas sem tempo nem espaço, terçam armas sem saberem por quem nem porquê. Constrangidos, entenda-se.

As crianças puderam seguir a extraordinária aventura que levou à conquista definitiva da bela Lisboa: entender as razões das cruzadas, o interesse dos cruzados, as manhas, mas também os princípios de Afonso Henriques. É só deixar correr a imaginação pela extraordinária vista do castelo de S. Jorge: a oeste, em linha recta, o monte Fragoso; uns graus acima, Sant'Ana; rodando a norte, S. Vicente; a leste, Alfama; a sul, as desconhecidas Portas do Mar, os mercadores e viajantes que, vindos do Atlântico, aí permutavam produtos; locais vivos, abertos ao sonho.
Lá nos encontraremos em Junho.


CONCURSO "DESCOBRE O VOCÁBULO"
Em Outubro partimos em busca de palavras incomuns, contudo ricas do léxico da Língua portuguesa. Eis a lista global daquelas sobre as quais nos debruçámos durante oito meses:
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Ardil |
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Artimanha |
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Parlenga |
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Discussão |
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Açodar |
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Apressar |
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Burleta |
= |
Farsa |
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Valhacoito |
= |
Abrigo |
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Cogitar |
= |
Pensar |
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Desarrazoados |
= |
Despropositados |
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Deambular |
= |
Passear |
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Vitualhas |
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Alimentos |
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Alazão |
= |
Cavalo |
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Pacto |
= |
Acordo |
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Desígnios |
= |
Projectos |
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Patranhas |
= |
Mentiras |
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Animadversão |
= |
Ódio |
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Veniaga |
= |
Mercadoria |
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Fâmulo |
= |
Criado |
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Presságio |
= |
Pressentimento |
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Aprisco |
= |
Curral |
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Quelha |
= |
Viela |
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Almocreve |
= |
Mercador |
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Paliçada |
= |
Estacada |
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Chalacear |
= |
Gracejar |
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Cépticos |
= |
Duvidadores |
Os mais bem classificados:
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João Machado |
290 |
Pontos |
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Maria Lorena |
220 |
" |
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Lourenço Pinto |
170 |
" |
O carácter anormal da actividade prevista para o próximo mês leva-nos a alterar as normas em vigor. Trata-se da última sessão da presente época, e, por tal, estarão a concurso todas as palavras acima mencionadas. A final "vale" 115 pontos (5X23). A disputa limitar-se-á aos três primeiros, posta a pontuação dos demais não interferir na classificação.
Boa sorte ao João, à Maria Lorena e ao Lourenço.
Mas há mais...
Durante o trajecto recriaremos um jogo que apela à atenção e empenho dos participantes. Aberto a todos. Pela convivência, sem vencedores nem vencidos. Um momento agradável, assim esperamos.

TEMÁTICA: A CONQUISTA DE LISBOA
A história do cerco de Lisboa, acontecido em 1147, chegou-nos através de fontes islâmicas e cristãs. Das primeiras destacam-se as obras Kitāb Farhat al-Anfus, de Ibn Ghālib; o Kitāb al-Ja‘rāfiyya, de Al-Zuhrī ; a De Geographia Universali ou kitāb Nuzhat, de al-Idrīsī. No caso dos crentes na cruz, as narrativas epistolográficas pertencem a cruzados que na peleja participaram ou que foram transmissores do acontecimento, casos de Osberno/R(aol), Vinando, Arnulfo e Duodequino.
O mais pormenorizado testemunho chegou-nos pela pena de Osberno/R(aol), através da Cruscesignati Anglici Epístola de expugnatione Lyxbonensia, isto é, a Epístola dum Cruzado Inglês sobre a Conquista de Lisboa, manuscrito copiado entre os anos 1180 e 1220, e que descreve: (as) adversidades desta nossa viagem, e bem assim os feitos, os ditos, ou tudo o que, durante ela, virmos ou ouvirmos e for digno de relato.
Pelas citações bíblicas, deduz-se que fosse um cruzado inglês (o que não o impede de ser normando, algo que desde a batalha de Hastings, em 1066, em que Guilherme conquistou a Inglaterra, passou a nomenclatura certificadora da unidade territorial), sacerdote-guerreiro, dualidade perfeitamente normal no século XII. Manejaria com idêntica habilidade cálice e espada. A carta do cruzado começa por : Osb. de Baldr. R. salutem. (Por Osb. de Baldr. entenda-se Osberno, Osborne ou Osberto de Baldresseia. O R. é atribuído, hoje em dia, a um presbítero normando chamado Raul ou Raol. A primeira questão que se coloca tem a ver com emissor e receptor. Quem escreveu a missiva? A quem corresponde o nominativo (o emissor), e, por conseguinte, o dativo (o receptor)? Em princípio Osb será o nominativo. Era essa a norma corrente na escrita latina. Curiosamente, a carta de Arnulfo (de quem se falará mais abaixo) começa assim: Miloni venerabili Tarvaniensi episcopo Arnulfus. E agora? De repente, o dativo tornou-se prioritário. E aqui sem qualquer espécie de dúvida sobre quem escreve e a quem se dirige.
O segundo testemunho tem origem no cruzado Arnulfo, sacerdote morinense (nome dado ao povo que ocupava, ao tempo, a região de Artois), o qual expõe as operações militares em carta dirigida ao bispo Milo (talvez Milão), da cidade de Therouanne, à beira do rio La Lys, em França. O seu relato foca os sucessos ocorridos no acampamento flamengo, e, mais concretamente, entre os companheiros que consigo haviam iniciado a aventura cruzada em Boulogne-sur-Mèr, recrutados pelo referido bispo. A visão de Arnulfo indicia a parcialidade de Osberno, e corrige-lhe algumas omissões. A narração do inglês no que respeita à segunda versão da construção da torre no lado ocidental, reza assim: De novo os ingleses, os normandos e os que estavam com eles começaram a fazer uma torre móvel de oitenta pés de altura. Continua afirmando que, concluída, aproximaram-na das muralha e colocaram-na entre a torre e a porta férrea, guardada por cem dos seus cavaleiros, bem como outros cem galegos ou portugueses. Arnulfo possui outra versão. Alude a que a torre fora feita tanto à custa do rei, como pelo trabalho de todo o exército. E mais esclarece que, quando a torre foi atacada, os lotaríngios e flamengos enviaram os seus exércitos a defendê-la. A fazer fé no morinense, ficam expostas a parcialidade e as omissões de Osberno... ou Raul.
Modernamente tem-se posto em causa a veracidade dos autores dos relatos mencionados. Já referi a questão do binómio Osberno/Raul. Cabe agora esclarecer que certas fontes históricas avançam com a possibilidade deste Raul ser o autor e Osberno o receptor, acrescido da curiosidade daquele possuir por apelido Glanville, patronímico por adopção de origem, certamente. O que abre uma nova questão: que relação existe entre este último e o condestável Herveo, também de apelido Glanville? Pura coincidência ou existiam entre ambos laços familiares?
Também o caso de Arnulfo surge algo ensombrado pela incerteza. Há correntes a afirmarem que o verdadeiro autor da epístola é Vinando. relegando o morinense para executor duma cópia com receptor diferenciado daquele. Ou será que é Duodequino o escriba? Baralhe-se e torne-se a dar.
A atentar na ênfase concedida ao que os seus deixou escrito, e a quem tal conteúdo pudesse interessar conhecer, Osberno e R. serão certamente ingleses. Decidir entre Osberno e Raul, de Glanville ou de outra coisa qualquer, pretender cavar um fosso entre latinistas ortodoxos e racionalistas modernos, torna-se impossível. Decida quem possui tal competência. Para mim, a narrativa é muito mais importante para entendermos os sucessos do cerco, do que a descoberta do papel que aos vários emissores, receptores e simples copiadores coube.
A saliência final tem mais a ver com o rigor do que a razão. Diga-se então que também na Historia Compostellana, na Crónica do Imperador Afonso VII e na Crónica Najerense, se observam descrições menores sobre o tema aqui em questão.
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

Em 1144 os muçulmanos retomaram a cidade de Edessa, localizada a sudeste de Anatólia, na actual Turquia, a qual, a partir da Primeira Cruzada, se constituíra num dos Reinos Latinos do Oriente. Agitou-se a cruz na longínqua Terra Santa, choveram pedidos de auxílio ao ocidente. Bem sabiam os cristãos da debilidade da localização da cidade, único território não mediterrânico, tanto quanto imaginavam a precária situação em que se encontrariam os Templários e Hospitalários na missão que lhes fora confiada de guardar o Santo Sepulcro numa cidade (Jerusalém) em vias de voltar ao controlo islâmico. O ataque islamita foi de imediato alvo duma chamada às armas por parte do papa Eugénio III, corria o ano de 1146. Logo Bernardo de Claraval encetou peregrinação pela França e Sacro Império, tentando persuadir realeza e nobreza a participarem naquela que ficaria conhecida pela Segunda Cruzada. Pronto Luís VII e Conrado III tomaram em mãos o símbolo do cristianismo: para leste, unidos pela cruz.
União contra o poderio mosleme, era predicado raro entre os príncipes feudatários do Reino Latino de Jerusalém. Algo de que também se podiam acusar os chefes dos exércitos expedicionários. Mas isso são contas de um outro rosário, histórias que excedem este conto. Viajemos então até Dartmouth, porto inglês, donde, a 23 de Maio de 1147, sexta-feira antes da Ascensão do Senhor, se fez à vela a frota de cerca de cento e setenta navios com 13 000 cruzados a bordo (assim o relata Roberto do Monte, coevo dos acontecimentos, no Apêndice à Cronografia de Sigeberto), a qual incluía normandos, ingleses, bretões e escoceses divididos em quatro grupos, debaixo das ordens de Herveu de Glanville, Simão de Dover, Sahério de Archelles e um tal de André de quem nada mais se conhece. Por outro lado, flamengos e bolonheses (Boulogne-sur-Mèr) uniam-se sob o comando de Cristiano de Gristell. Os alemães de Colónia, e de uma forma geral todos os provenientes do Sacro Império, tinham por líder Arnaldo de Aarschot. Grande tempestade sofreram, a 28 de Maio, no Golfo da Gasconha, dispersando-se a frota de tal forma que só mais tarde, na costa galaico-portuguesa, se voltariam a reunir, arribando à foz do rio Douro a uma segunda-feira, 16 de Junho.
O arcebispo de Braga, João Peculiar, havia recebido carta de Bernardo de Claraval:
– Aproveita para convenceres os cruzados a dar uma ajuda em Lisboa. E diz ao Afonso Henriques que não se esqueça que me prometeu as terras de Alcobaça para aí construirmos um mosteiro de Cister.
Peculiar logo mandou mensagem ao rei que estava em Coimbra, local onde a corte residia.
Afonso respondeu de imediato:
– Amanhã, 6 de Junho, parto com o exército para Santarém e, logo após, sigo para Lisboa. Diz ao bispo do Porto que vá receber os cruzados e os mande irem ter comigo. Ele que prometa o que tem e o que não tem, não interessa; importante é que a frota dos cruzados apareça no Tejo em frente às muralhas da cidade para assustar os mouros.
– Venham, venham, que muito prazer tenho em vos receber no meu humilde paço episcopal – propôs afavelmente o antiste do Porto, D. Pedro Pitões, aos comandantes da frota.
E logo continuou:
– Estais decerto cientes do pedido que Bernardo vos fez para que ouvísseis as propostas do meu senhor, o rei de Portugal. Em causa está o apoio que possais conceder à conquista da cidade de Lisboa. Os vossos conhecimentos de técnicas de cerco poderão auxiliar-nos a derrotar o Mouro.
Os cruzados podiam jurar que a viagem encetada se destinava a proteger a Terra Santa, contudo, a par da honra, esperavam também encontrar o proveito pessoal. Por isso, mantiveram-se atentos ao clérigo, para no final questionarem:
– Sim, sim, mas diz-se que a acção de Bernardo será premiada com a doacção das fartas terras de Alcobaça. Assim sendo, e se de negócio se trata, pretendemos saber o que nos oferece Afonso para que o ajudemos.
Pitões sabia até onde podia comprometer-se:
– Pois se assim o desejais, digo-vos que o rei já se encontra a caminho, tendo saído de Coimbra no passado dia 6. Se acaso Deus insinuar em vossos corações que deveis ir ter com ele, e com ele quiserdes ficar até ser tomada a cidade de Lisboa, pela nossa parte vos faremos uma proposta em consonância com as disponibilidades do património régio.
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.
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