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Projecto pioneiro de colaboração com a Biblioteca Municipal de Cascais, destinado a contar a História da Ibéria a crianças. Os contos são apresentados sob a forma de narrativas originais ou adaptadas do nosso património histórico-cultural.

Dia agendado para o regresso d' As Voltas da História após largos meses de ausência.

A equipa do ano transacto regista duas baixas: a Matilde e a Carolina, ambas abrangidas pelo limite da idade, ainda que, como sempre fizemos extensivo a todos os anteriormente envolvidos, possam vir assistir aos contos se o pretenderem. A barreira etária máxima existe porque a abordagem à História deve ser adequada à diferenciação de desenvolvimento intelectual registado em crianças com 8 ou 13 anos. Tão-só.
Outros houve que incluiram entretanto novas actividades nas suas rotinas de fim-de-semana ou estavam simplesmente de férias á data de reabertura da Biblioteca da Casa da Horta. Aguardaremos por todos a 13 de Abril.



É, porém, tempo de abrirmos os braços a novos participantes: à Clara, ao Manuel, à Maité. Que gostem de estar connosco; que voltem; que outros se nos juntem.
O conto XV levou-nos à compreensão da organização politica e militar que permitiu aos portugueses de meados do século XIII chegarem ao Algarve.
"Já demos esta matéria na escola!", disseram-nos ao princípio.
"Muito mais completo e giro!", afirmaram no final da apresentação.
Ainda bem. Ficam todos mais ricos de conhecimentos.
O já conhecido concurso de incremento vocabular registou a inclusão de provérbios e expressões figurativas que se propõem junto aos habituais vocábulos soltos com que desafiámos as crianças nos pretéritos dois anos.
Ficámos a saber que:
1 -- Para uns é mel, o que para outros é fel...
2 -- A ave de rapina não canta...
3 -- Esforço titânico...
significam:
1 -- O bem de uns, corresponde, muitas vezes, ao mal de outros.
2 -- Quem caçar pretende, não se denuncia.
3 -- Para além das possibilidades humanas.

A Clara Sol, o João Fernandes, o Hugo Sousa, o Lourenço Pinto e a Maria Lorena cumpriram integralmente a pontuação: 25 pontos.
Não se esqueçam que em Abril, para além do teste em sala, terão de relembrar as expressões acima.
O próximo conto leva-nos a abordar o reinado de D. Fernando. Partiremos de uma taberna, algures em Montiel, Castela, onde se prepara o assassinato do rei...
... O resto fica para Abril.
Nota: A partir do presente conto abandono a habitual estrutura do trabalho. Tendo iniciado por construir três versões -- literária, factológica e a específica e imagética para apresentação em sala -- de cada unidade, concluí que a factologia política, cujo objectivo era o de proporcionar a visão rigorosa e científica (ainda que, aqui e ali, polémica, como é apanágio da História) dos temas abordados para posterior enriquecimento próprio ou utilização escolar, não tem conseguido alcançar tal desiderato. Dêmos então um passo em frente.
Um abraço a todos.

Introdução.
Aljustrel foi conquistada aos mouros, no ano de 1234, pelo braço lusitano da Ordem Militar de Santiago. O castelo situava-se a sudeste de Alcácer do Sal, sede dos monges-cavaleiros desde 1217, e correspondia ao primeiro passo para que, em progressão na diagonal, os espatários se aproximassem de Sevilha, capital do califado almóada, objectivo geral da Cristandade hispânica face ao, já então evidente, desmembramento deste.
Rapidamente o rei Sancho II doou ao comendador-mor a vila com os territórios circunvizinhos. A concessão tinha por contrapartida a defesa do Baixo Alentejo ocidental, posto que, a oriente, Moura e Serpa haviam sido entretanto tomadas, por volta de 1232, pelos hospitalários, conquistas em que se distinguira um jovem e simples fidalgo, cavaleiro de uma lança e um escudo, Afonso Peres Farinha, que mais tarde ascenderia ao posto de Prior da Ordem. Apesar de, na prática, se estar em área fronteiriça, por nenhum outro território mais a sul possuírem os lusos, a verdade é que não havia perigo vizinho, posto haverem os mouros fugido bem para lá dos cerros que no horizonte se divisavam, deixando meras atalaias que, por si só, não ofereciam perigo de contra-ataque à Reconquista.
Vamos ao conto.
Paio Peres Correia fora, no início de 34, nomeado comendador da Ordem em Portugal. Servira os reis de Leão e Castela – enquanto freire-cavaleiro – em várias batalhas durante os anos precedentes. Dirigiu pessoalmente o ataque a Aljustrel, e logo ali lhe veio à mente uma ideia:
– E se fôssemos atacar o Gharb?
– Mas daqui para sul tudo são andurrais. Acaso pensaste na graveza da passagem da serra? – contestaram os monges. – E ainda que cruzássemos as montanhas, o Gharb é terra povoada de muita gente.
Explique-se que o ocidente, isto é, o Gharb do al-Andaluz – a província árabe de Chenchir – possuía imensos castelos, sendo que, sobretudo Silves (Xelb, Xilb ou al-Shilb), a capital, mas também Santa Maria de Faro (Santa Maria de Ibn Harun) e Tavira (Tabira) eram grandes cidades e muito bem protegidas de muralhas. E, mais a norte, Mértola era mesmo considerada inexpugnável. O território era controlado pelo auto-intitulado “emir do ocidente”, Mohammed Ibn Mahfot, antigo váli de Niebla, guerreiro esforçado, que não só havia derrotado os rivais muçulmanos na cobiça pelo domínio do “emirado”, como também se tinha mantido praticamente incólume perante a ameaça cristã.
Para os portugueses chegarem a tão meridionais lugares, havia duas alternativas: a primeira, por mar, navegando pela costa atlântica até dobrarem o cabo dos Árabes ou de S. Vicente; a segunda, por terra, forçava caminho por Mértola, cruzava o Guadiana em direcção a Alfajar de Pena, e rumava logo após a sul, em direcção a Aiamonte. Ali entroncava com a estrada que de Sevilha passava a Niebla, capital do reino muçulmano do “ocidente”, e, de novo na margem direita do Anas, prosseguia para o ocaso, cobrindo o espaço que hoje é a província do Algarve. Todas as opções que cruzassem as serras de Monchique ou Caldeirão eram...andurrais.
O comendador não encontrou forma de convencer os companheiros e, contrariado, viu-se forçado a retomar o objectivo primordial da Ordem, que era o de atacar Sevilha. Paio esquecera momentaneamente que a razão pela qual havia sido deslocado para Portugal se ligava ao desejo do Mestre de Santiago pretender apoiar com forças pelo sul da serra de Tentudia os esforços dos companheiros leoneses e castelhanos que, entretanto, haviam bloqueado a norte daquela, face ao controlo ali exercido pelos muçulmanos de Zafra, Jerez de los Caballeros e Montemolín
Quatro anos mais tarde, em 1238, Paio Peres Correia e os seus cavaleiros lograram tomar Mértola. O feito ficou a dever-se à surpresa do ataque consumado em direcção à Torre de Oeiras, sobranceira à ribeira do mesmo nome. Com esta conquista a Ordem não só alargava as suas possessões na orla austral transtagana, como também ia cumprindo o plano de se aproximar da capital almóada.
Paio era homem de acção, e, conquistada a cidade alentejana, logo falou aos companheiros:
– Precisamos de construir muralhas em volta do arrabalde e uma torre de menagem que nos habilite a ter melhor visão do espaço em redor.
Os confrades olhavam a planície a partir do cume do monte em que se implantava o castelo e comentaram:
– Estamos tão alto que os muçulmanos nunca lhe sentiram necessidade.
Contudo o comendador logo ordenou aos companheiros:
– Faça-se a obra, que um dia nos poderá fazer falta.
Os freires deixaram na cidade defesa que bastasse, cruzaram o Guadiana, e rapidamente se posicionaram defronte de Alfajar da Pena, em cujo pequeno castelo roqueiro, todavia bem situado, se refugiara a parca população do lugar, que, em pânico, logo se rendeu. A partir dali, os espatários possuíam uma base para assediarem os alfozes das povoações de Saltes, Huelva e Gibraleón, localidades que protegiam o caminho para Niebla. Para a História ficava um marco territorial jamais repetido: os domínios portugueses – termos de Aiamonte – chegavam às margens do Odiel.
Contudo, Paio estava ansioso por saber o que, emmentes, sucedera noutro lugar:
– Temos notícias da frota real?
– Chegaram mensageiros a informar que Sancho tomou Aiamonte.
Boa notícia!
A operação fora coordenada para atacar os muçulmanos ao mesmo tempo em dois pontos diversos. Apesar de os ventos da fortuna acompanharem os exércitos cristãos, certo é que o frenesim militar de um e outro lados da fronteira ia-se extinguido. Se os de lá se atolaram e não atalhavam caminho, os da banda de cá digladiavam-se em quezílias cujo resultado seria a perda do trono de quem o possuía por direito.
De volta a Alcácer do Sal, Paio Peres Correia tudo pretendia controlar:
– Sabemos o que se passa com os nossos companheiros de Castela e de Leão? E com Fernando e Sancho? Se não nos mexermos, nunca tomaremos Sevilha aos muçulmanos.
Martim fez o ponto da situação:
– Santiago e Alcântara continuam a planear o ataque a Zafra, sem o que não lhes será possível avançarem para lá da Sierra.
De volta a Alcácer do Sal, o comendador-mor andava inquieto. Rui Peres e Martim do Vale, cavaleiros lealíssimos, decidiram saber o que intrigava o chefe:
– Temos reparado que passas muito tempo a olhar as serras que se estendem para o meridião.
– Monchique e Caldeirão...
Os monges não desistiam de melhor entender o que ia na mente do líder:
– Vais voltar com a peregrina ideia de ir por aí abaixo conquistar o Gharb?
Porém, desta feita, o comandante estava decidido. Em bom rigor, Paio estava entregue a si próprio, nenhum outro objectivo lhe era permitido até que leoneses e castelhanos desbravassem o caminho para Sevilha.
– Mandai dizer ao Garcia Rodrigues que vá ter connosco a Aljustrel. E o mesmo façam saber aos almogávares.
Garcia era um mercador traquejado no comércio com a mourama, cujos conhecimentos geográficos da região o haviam levado ao importante posto de adaíl, ou seja, guia dos exércitos. O cargo requeria uma pessoa de indubitável lealdade, pois uma traição sua levaria a que toda a hoste pudesse ser dizimada. E ainda que dele não se duvidasse, havia que ter a certeza que conhecia bem os caminhos, para que não se perdessem os homens ou atrasasse a expedição. Já os almogávares eram cavaleiros-vilãos, oriundos dos senhorios da Ordem, que, pelo respectivo foral, eram obrigados a cumprir trabalho de controlo da área fronteiriça. Executavam muitas vezes o papel de batedores na vanguarda dos exércitos.
No dia aprazado Paio Peres Correia reuniu-se com os vilões e o adaíl.
– Sem o empenho e coordenação régia, não me atrevo a ir contra Sevilha. Mudei de ideias, decidi avançar para sul. O alvo é a conquista do Gharb, beneficiando da nossa posição em Aiamonte, que em muito dificulta o apoio que de Niebla poderiam receber os chefes das cidades ocidentais. E, para tal, tenho de tomar aos mouros algum castelo em lugar estratégico, todavia defensável. Transfiro para lá os meus cavaleiros, e, a partir daí, ataco as cidades muçulmanas.
Martim e Rui acharam a ideia um pouco louca:
– Queres posicionar-nos numa fortaleza, no coração do Gharb, rodeada de mouros por todos os lados?
Todavia Paio não parecia prestar-lhes atenção. Virou-se para o adaíl e inquiriu:
– Que achas, Garcia? Consegues guiar-nos pelas serras até ao Gharb sem que os vigias desconfiem?
– Os caminhos são péssimos, é impossível levar máquinas de cerco. Propunha que mandasses à frente uma força de cavalaria. Chegados à primeira linha de defesa mourisca, atacariam e surpreenderiam a fortaleza escolhida para nela se abrigarem e defenderem até que tu e o grosso do exército ali chegassem.
Os monges estavam estupefactos, não queriam acreditar no que ouviam:
– Estais-vos a esquecer do que aconteceu em Silves, em tempos de Sancho I, fará agora uns cinquenta anos? Mal os cristãos tomaram a cidade, logo o califa Almançor enviou para lá duas expedições a reconquistá-la.
Paio Peres Correia parecia ter estudado bem o assunto, e logo respondeu:
– Outros tempos. O poder almóada era então muito forte. E se provas precisássemos da valia da mourama nessa altura, bastaria recordar-nos da enorme derrota que nos impuseram em Alarcos, logo a seguir à perda de Silves, corria 1195.
Martim ia interromper para alegar algo, mas logo o comendador atalhou:
– Deixa-me continuar, pois, mais tarde, em 1212, vencemo-los em Navas de Tolosa. Fragilizados aqui e atacados em África, rapidamente os almóadas se viram alvo de sublevações várias entre os do seu credo, perdendo territórios: Múrcia e Granada, Fez e Tunes, todos em duas décadas. E com a perda do controlo das rotas auríferas subsarianas, começou a faltar o suporte económico ao califado. Nos anos 20 chegaram a fome, as exacções exorbitantes e o óbvio fim dos “unitários.”
Martim insistia em ripostar:
– Certo é, mas os muçulmanos andaluzes não se renderam. Tal como no passado, reorganizaram-se em reinos de taifas. Chefes que conhecem a forma como combatemos e estão tão bem armados quanto nós.
De facto, assim era. Vários foram os reinos independentes que se formaram no território do Andaluz: Arjona, Baeza, Lorca, Menorca, Múrcia, Valência, Córdova, Sevilha, Jerez, Niebla, Granada. A maioria não passaram de breve luzeiro, rapidamente submetidos ao poder de Castela. Somente o último dos referidos se manteria na Península por largo tempo, dois séculos e meio, até 1492.
– Pois se da História tanto pareces saber, recorda-me o que aconteceu das duas outras vezes em que os mouros constituíram esses reinos independentes – inquiriu Paio.
– Que me lembre, acabaram subjugados por novas dinastias berberes que entretanto se haviam formado no Norte de África, e que atravessaram o Estreito para unificar a comunidade dos fiéis.
– Ora aí tens a resposta às tuas dúvidas. Se queremos acabar com os sarracenos a sul, devemos aproveitar a ocasião em que estão divididos. Se nada fizermos, mais tarde ou mais cedo virá por aí nova dinastia de berberes completamente fanatizados.
Garcia Rodrigues achou que podia meter a colherada:
– E depois é o cabo dos trabalhos para os expulsarmos de novo. A partir de Fez, o bando dos merínidas bate-se com o que resta dos almóadas. Será uma questão de tempo até que o desígnio de invadir a Península se manifeste.
Paio estava decidido:
– Acabou a conversa. É tempo de planearmos o assalto ao Gharb.
Tudo o comendador pensou. Do adaíl recolheu informações sobre a organização política e social do inimigo, das fraquezas do sistema defensivo, dos caminhos que atravessavam a serra. Da discussão entre os principais cavaleiros surgiram soluções para problemas como a mobilidade das forças e a necessidade evitar as atalaias serranas, o castelo de Ourique, a insuficiência de tropas, a forma de acometer as cidades, o lucro da operação:
– Esse depende da conquista de Silves – admitiu o chefe.
– Melhor será que tiremos da cabeça a ideia de afrontarmos directamente Silves. Morremos lá todos – convieram os monges.
Contudo, Paio não hesitava:
– Para já, avança a força ligeira de cavalaria, almogávares conduzidos pelo adaíl.
Como a ave de rapina não canta, os cavaleiros partiram pela calada da noite (descansavam durante o dia), procedimento que repetiriam ao longo da viagem, para que os mouros não os sentissem. Passaram ao largo de Garvão e contornaram Ourique e Marrachique, atalaias fortificadas que, em caso de sobressalto, alertariam de imediato as cidades do litoral sul.
O prémio aguardava pelos cavaleiros-batedores em Estômbar, albacar onde os mouros ficaram de tal forma surpresos pela aparição dos cristãos, que não tiveram tempo de esboçar reacção que se visse. Ultrapassada a primeira dificuldade, novo problema se colocava: fazer acorrer ali rapidamente o comendador e os seus monges. E tal aconteceu bem preste, ao arrepio de vigias e riscos, que bem maior era o que corriam os valorosos que haviam ousado aventura tão louca. Cavaleiros entrincheirados, agulha santiaguista em palheiro.
Da base espatária pronto saíram “correrias” ás redondezas. O propósito era o de fustigar o território e saquear rebanhos, hortas e pomares, posto que a distância e as atalaias serranas impediam o abastecimento através de Aljustrel. As cavalgadas de rapina acabaram na conquista da torre de Alvor:
– O plano corre às mil maravilhas – constatou o comendador.
Corria, certamente, de tal forma que os mouros vieram a bem pedir tréguas aos cristãos. Assim se explicaram:
– És forte, Maestro Pelayo, mas nós somos muitos, tantos que te desbaratemos logo que te atrevas a sair em campo aberto.
– Chalaceais, mas decerto não foi para isso que aqui viestes.
– Trazemos-te uma proposta: a permuta de Estômbar e Alvor por Cacela (Hisn-Kastala) que é poderosa praça, um hisn (castelo), não mero albacar ou torre como por aqui tens.
(Continua)
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