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Sessão Realizada a 13 de Abril - Conto XVI

por Eduardo Gomes, em 14.04.19

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O conto de hoje serviu-nos para entendermos o trágico reinado de D. Fernando. Das guerras insanas em que se meteu, até à visceral falta de cumprimento dos tratados que firmava, passando pela estulta leitura da situação política. Deixemos o Inconstante repousar em paz, pois, por aquele tempo, a insensatez foi tal que até a Igreja Católica chegou a possuir três Papas em simultâneo.

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Chegámos a Outubro de 1384 e, com ele, a debandada castelhana causada por uma estranha peste que se restringiu (???) ao exterior das novas muralhas alfacinhas. Contudo, na ambição de Juan I não cabia o verbo "desistir". O ano seguinte -- 1385 -- corresponderia ao tudo ou nada por um trono. O tira-teimas aconteceria a 14 de Agosto: João ou Beatriz?

Lá iremos na sessão a realizar a 11 de Abril.

 

Aos poucos, vamos criando um manual de termos, Assim voltou a suceder. Aprendemos que...

1 - O pomo da discórdia...

2 - O calcanhar de Aquiles...

3 - Entre Cila e Caribde...

Significam, respectivamente...

1.A - O motivo da desavença...

2.A - O ponto vulnerável...

3.A - Qual das ameaças a mais perigosa.

 

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O desafio vocabular ficou marcado pelo regresso do João Machado, vencedor da temporada pretérita. Em sentido contrário, fomos surpreendidos com a ausência da Clara.

Isentos os mais jovens da participação num jogo que teriam dificuldade de entender e muito mais em competir, observámos que a Maria Lorena, o João Fernandes e o João Machado concluíram com 100% de êxito as questões colocadas.

 

No final do segundo conto os mais bem classificados são:

Maria Lorena

65 Pontos

João Fernandes

65

Lorenço Pinto

55

Hugo Âmbar

45

João Machado

40

Clara Sol

25

 

Nota: As crianças foram informadas de que, face ao exíguo número de contos a apresentar até Junho, iremos acumular as pontuações até lá alcançadas com as que obterão no período Outubro 2019/Junho 2020.

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publicado às 19:50

Conto XVI: " A Tragédia Fernandina"

por Eduardo Gomes, em 12.04.19

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Estávamos no ano de 1369, mais concretamente a 23 de Março. Na Taverna La Mollera, em Montiel, vivia-se um ambiente bizarro, que o dono, Don Pepe, tentava gerir ao seu jeito.

– Sai daí, bebedolas, que não te quero perto da fidalguia – dizia para os frequentadores usuais, gente que desconfiava da razão pela qual um infante e respectivos sequazes ali estavam.

– Isto não é antro de facínoras, é casa de gente honesta e trabalhadora – insistia Don Pepe, alto e bom som.

Porém, Dueña Carmen, a esposa, não parecia estar convencida do êxito da estratégia. Chamou o marido à parte e comentou:

– Olha lá, Pepe, que faz ao certo o Henrique de Trastâmara na nossa casa?

O conde era – tal como outros nove, entre vivos e mortos – filho ilegítimo de Afonso XI e da amante deste, Leonor de Gusmão. Henrique guerreava o meio-irmão, Pedro, filho da Fremosíssima Maria, desde que este ascendera ao trono, em 1350. Fazia-o por medo, mas também por ambição. Vira a mãe, dois dos irmãos e mais umas largas dezenas de fidalgos serem assinados por mesquinha crueldade do monarca. A guerra civil entrara, em 1366, numa fase de tudo ou nada, com os dois lados a alternarem vitórias e derrotas. Na busca de apoios que ambos os contendores encetaram, serviram e serviram-se do antagonismo entre França e Inglaterra, naquela que mais tarde se chamaria, erroneamente, Guerra dos Cem Anos. Henrique apoiou-se em Carlos V, suportado pelas Companhias Brancas comandadas por Beltrán Du Gueslin. A moeda de troca consistiu na fantástica frota naval de Castela, a qual, colocada ao serviço dos gauleses, proporcionar-lhes-ia o domínio dos mares do Norte. Pedro, por seu turno, buscou apoio em Eduardo de Inglaterra, o Príncipe Negro. Para os ilhéus, era condição máxima neutralizar o poder marítimo de Castela. Entre 1366 e 1369, Henrique e Pedro alternaram vitórias com derrotas. Ao primeiro daquele mês de Março, Henrique cercara o rei e as suas tropas na fortaleza de Montiel.

Pepe entendeu responder assim à esposa:

– Não faço ideia, mas passa-se algo de estranho lá em cima, no castelo da Estrela. Já faz para lá de uma semana que o Mem Rodriguez de Sanabria e o Du Gueslin estão em conversações. Parece que o Pedro quer negociar um acordo, cujo seja, é a dúvida que me atormenta.

– Escuta-me, homem: será bom que os fidalgos se vão. Dá-lhes de comer, dá-lhes de beber e livra-te deles.

– Dar, dou, mas palpita-me que não estão aí por coisa boa. Está-se a preparar borrasca da grossa. Pelo sim e pelo não, vou mandar embora os nossos clientes habituais.

– Credo, valha-nos a Virgem Maria! Logo tinha de acontecer em nossa casa – concluiu Carmen, apertando o peito com ambas as mãos.

No exército sitiador começou a correr o boato de que existiria um túnel subterrâneo que ia dar ao cerro de San Polo, pequena elevação fortificada a cerca de um quilómetro de distância do castelo. Du Gueslin pensou num ardil para evitar que o rei fugisse. Assim se explicou:

– Majestade, vosso irmão pretende fazer pazes convosco. Pensai que vos propõe o fim da maldita guerra civil. Pede que venhais comigo, posto aguardar-nos na vila.

Entre Cila e Caríbde, Pedro viu na proposta a oportunidade de se livrar do cerco, e logo explicou a decisão ao escudeiro Mem Rodriguez:

– Assim que estejamos a salvo, mando reunir todo o exército de Castela e mato o Henrique e o francês.

Pedro e Du Gueslin abandonaram o castelo e dirigiram-se à taberna de D. Pepe. Ao sentirem barulho no exterior, os acompanhantes de Henrique saltaram de um único pulo das mesas onde se encontravam e, em guardado silêncio, cobriram portas e janelas da taberna, espadas em riste, como se de atalaia prestes a ser atacada se tratasse. Ouviu-se então um palavreado esquisito, mistura de espanhol e francês de raia, que logo todos atribuíram ao francês:

– Trago-vos a esta humilde tasca, Alteza, pois vosso meio-irmão assim mo pediu. Por mim só, não possuo meios para estabelecer acordo proveitoso para ambas as partes. Garanto-vos que Henrique saberá respeitar Vossa Majestade.

Mal Pedro surgiu no interior do estabelecimento, Henrique correu para ele, adaga na mão. Contudo, o rei era valente e decidido a salvar a vida. Vendo que o espaço em que combatiam não permitia um duelo à espada, puxou também de um punhal e derrubou o conde. Henrique debatia-se, mas Pedro ganhara supremacia no combate, aprestando-se para rapidamente dar o golpe de misericórdia no pretendente ao trono. Foi então que Du Gueslin decidiu intervir na refrega. Agarrou no rei pelas costas e atirou-o ao chão, o que permitiu a Henrique lançar-se sobre aquele e apunhalá-lo repetidas vezes. Os espectadores ficaram surpresos perante o sucedido. Olharam o francês com ares de réu: Ni quito ni pongo rey, pero ayudo a mi señor, contestou.

No dia seguinte Montiel assistiu a um espectáculo macabro.

– Olha para aquilo, Pepe. O conde pendurou o corpo degolado do Pedro nas ameias do castelo para que todos o vejamos – afirmou Dueña Carmen.

– E não só. Espetou a cabeça numa lança para forçar as praças legitimistas que ainda dão voz pelo defunto a renderem-se.

Ainda Março não terminara e já Henrique partia. Assim se despediu do estalajadeiro:

– Obrigado por tudo, Pepe. Aqui cheguei infante; daqui saio rei.

– Aqui tem e terá um servo à vossa disposição, Alteza. Contudo, parece-me ter de ser eu a falar-lhe das coisas que que ninguém ousa.

– A que te referes, homem?

– De legitimidade. Se pensais que se acabaram os vossos problemas, lamento anunciar-vos que eles ainda mal começaram.

Quando o novo rei partiu, o povo decidiu fazer uma homenagem a Pedro: ali construiu um monólito com a coroa real no topo.

A Península Ibérica tremeu quando nos demais reinos se soube da funesta conduta: de Portugal a Aragão, passando por Navarra e até a Granada muçulmana se sentiu incomodada. De lembrança dos homens que fosse, não havia memória de fratricídio igual. E nem as respectivas classes nobres descansaram. É que a virtude da família tradicional assentava nos princípios do direito civil e canónico. A transmissão hereditária fazia-se com base no inviolável sacramento do casamento, não no concubinato.

Se Henrique se sentou no trono, não o fez sem oposição: concreta em alguns casos; velada noutros. Trata-se de um bastardo, diziam estes. Baterem-se de armas ou de razões, era o ponto. Na Galiza, um grupo de “patriotas” encabeçado por Fernán Ruíz de Castro, irmão de Joana de Castro, uma das esposas do defunto Pedro; Álvaro Pires de Castro, que seria mais tarde Condestável de Portugal; e Inês de Castro, sobejamente conhecida pelos amores com o pai do rei Fernando I, decidiu-se pelo combate. Havia, porém, que encontrar candidato de sangue real e suficientemente poderoso para que a luta fizesse sentido em todos os cantos de Leão e Castela.

Pedro de Castela tivera vida amorosa agitada, casara, descasara, forçara a aceitação de um casamento dúbio: uma trapalhada. Se alguma linha sucessória poderia reclamar a real herança, era opinião comum que ela deveria recair nas duas filhas que o rei tivera de Maria Padilla: Constança e Isabel. Todavia, a mulher era estigmatizada pelo direito divino e natural. Fêmeas não servem – explicou Fernán Castro. – Necessitamos encontrar um varão. Estudemos a árvore genealógica. Saltemos as gerações que forem precisas. Há-de haver um parente da família real castelhana.

– Eu?! – surpreendeu-se Fernando.

– Quem mais do que vós tem tal direito? Sois bisneto do rei Sancho IV pelo lado de mãe.

 

(Continua)

 

Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

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publicado às 17:53


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