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Sessão de 22 de Junho de 2019 - Conto XVIII

por Eduardo Gomes, em 24.06.19

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Um dia especial marcado pela homenagem que, por esta ocasião, fazemos aos pais que, nove meses por ano, trazem até nós crianças interessadas em conhecer a História do território onde nascemos ou adoptámos para viver.

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A sessão de hoje, aberta a todos -- até a estranhos --, porque levada a cabo no pátio exterior da Biblioteca, iniciou-se com um conto a recordar-nos o lado místico da Humanidade: a atribulada existência de Virgílio que recupera o trono de Ludhiana com a ajuda dos deuses do Olimpo.

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Vitualhas gentilmente trazidas pelos participantes, fizeram as delícias de todos, que a hora ia adiantada e um "ratito" já ameaçava estômagos vazios.

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Por último a esperada pantomina com que o autor do projecto -- sem esquecer a valiosa colaboração da Heratânia --  inunda de sorrisos e boa-disposição a audiência.

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Voltaremos para o ciclo Outubro/2019 - Junho/2020. Iniciaremos com um conto sobre os primórdios da expansão africana e planeamos atingir no final daquele a trágica perda da indepência de Portugal. Contos originais com uma visão muito própria baseada na criatividade, no rigor e na capacidade de comunicação: um desafio para fazer de uma boa história a base para nos apaixonarmos pela História.

Aqui deixo o calendário do próximo conjunto de sessões:

12 de Outubro de 2019; 09 de Novembro de 2019; 14 de Dezembro de 2019; 11 de Janeiro de 2020; 8 de Fevereiro de 2020; 14 de Março de 2020; 18 de Abril de 2020; 09 de Maio de 2020; 20 de Junho de 2020.

 

Nota: Devido aos múltiplos afazeres, não foi possível transcrevermos o relato da sessão realizada a 11 de Maio. Refira-se que 4 das crianças presentes atingiram a pontuação máxima do concurso "Descobre o Vocábulo". Assim, ao final do terceiro conto, os mais bem classificados são:

Maria Lorena, João Fernandes: 100 Pontos

Lourenço Pinto: 90

João Machado:  75

Hugo Âmbar:     70

Recordo que a pontuação até agora alcançada acumulará com a das sessões do próximo ciclo 2019/2020.

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Aqui deixo uma parte do conto apresentado. O texto completo será enviado a todas as crianças cujos pais o solicitem.

 

CONTO XVIII

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O GILA NO OLIMPO

Ludhiana não era reino de facínoras. Ali, poucos crimes se cometiam, os conflitos não passavam das vulgares quezílias entre grupos sociais com interesses distintos. Nada de mais. Contudo, o rei Leovigildo há muito decidira ser tempo de acabar com os privilégios que os seus antecessores haviam concedido aos mais poderosos: a nobreza de armas e o clero de orações não menos mortíferas. Tantos foram os vexames e impostos sobre estes que o fim se adivinhava a qualquer momento. A borrasca rebentou quando Eurico entendeu liderar um golpe de Estado contra o irmão mais velho. Falar-se do sangue que correu é pouco. Em poucas horas tudo mudou. Quem se sentira anteriormente achincalhado, rejubilou; quem vira fugaz luz no horizonte da justiça, recolheu-se de novo à mais profunda servidão.

Virgílio, o herdeiro real, fora encerrado na torre de menagem do castelo. Ia para três anos que o infante dali não saía. O interior do edifício era quadrado, teria de lado cerca de dez dos seus pequenos passos. O local possuía uma janela situada a bons cinco metros de altura. Era por aquela que entrava o Sol e, no Inverno, também o frio, ainda que mantas e peles curtidas não faltassem ali.

Todas as manhãs lá se deslocava o Arménio. O petiz, nove anos incompletos, conhecia-o dos tempos em que tanto fizera rir a corte. O antigo truão era um velho corcunda, todavia rijo de ossos e ágil como cabrito montês. Chegava-se à fresta pelo exterior e deitava uma escada de corda pela qual rapidamente descia. A tiracolo, levava uma cesta com comida que deixava pousada pelo chão. Logo após fazia o percurso inverso para só voltar no dia seguinte. O menino surpreendera-se ao princípio com a mudez do ancião. Tentara, inclusive, chegar-lhe à fala, repetira mesmo algumas das graças que lhe ouvira. Mas qual o quê?, nada, nem a razão para tão bizarro comportamento. A intervalos de tempo regulares, isto é, coisa que o menino estimava semana sim, semana não, habituara-se a que o Arménio – que outrem poderia ser? – ali fosse deixar palha seca que arrumava a um dos cantos. Fazia-o de noite, ocasião em que a criança dormia o sono dos justos.

Como procedia o bobo para que nunca o houvesse detetado em tal tarefa? Certamente não atiraria a palha pela janela, que o vento a espalharia por todo o lado. Como tempo era o que ali não parecia faltar-lhe, o rapazinho decidiu virar a divisão do avesso em busca duma porta de acesso ao exterior. Quiçá a encontrasse; porventura estivesse ali a oportunidade de fugir. Começou a tarefa bem cedo, logo que terminada a visita diária do corcunda. Primeiro usou as mãos na tentativa de encontrar vestígios de algum alçapão. Depois buscou com que raspar as paredes uma por uma. Noite fechada, cansado, deu a tarefa por impossível e chorou copiosamente, tanto que acabou por adormecer. Subitamente, nem ele saberia precisar quando, ouviu uma voz:

– Porque choras, Virgílio? Um homem não chora.

O petiz acordou atemorizado. Ouvira aquela frase da boca do tio fratricida três anos atrás. Fora mesmo a coragem de não chorar que o salvara da morte, ou pelo menos assim lho dissera aquele. Com a vista afirmada e o coração a parecer querer saltar-lhe do peito, perguntou:

– Quem és tu, que não te enxergo nem sinto teu respirar? Acaso terá meu tio morrido e sejas a alma de tamanho velhaco?

(Continua)

 

Boas férias a todos!

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publicado às 20:45


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