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Projecto pioneiro de colaboração com a Biblioteca Municipal de Cascais, destinado a contar a História da Ibéria a crianças. Os contos são apresentados sob a forma de narrativas originais ou adaptadas do nosso património histórico-cultural.

Um dia especial marcado pela homenagem que, por esta ocasião, fazemos aos pais que, nove meses por ano, trazem até nós crianças interessadas em conhecer a História do território onde nascemos ou adoptámos para viver.

A sessão de hoje, aberta a todos -- até a estranhos --, porque levada a cabo no pátio exterior da Biblioteca, iniciou-se com um conto a recordar-nos o lado místico da Humanidade: a atribulada existência de Virgílio que recupera o trono de Ludhiana com a ajuda dos deuses do Olimpo.

Vitualhas gentilmente trazidas pelos participantes, fizeram as delícias de todos, que a hora ia adiantada e um "ratito" já ameaçava estômagos vazios.

Por último a esperada pantomina com que o autor do projecto -- sem esquecer a valiosa colaboração da Heratânia -- inunda de sorrisos e boa-disposição a audiência.

Voltaremos para o ciclo Outubro/2019 - Junho/2020. Iniciaremos com um conto sobre os primórdios da expansão africana e planeamos atingir no final daquele a trágica perda da indepência de Portugal. Contos originais com uma visão muito própria baseada na criatividade, no rigor e na capacidade de comunicação: um desafio para fazer de uma boa história a base para nos apaixonarmos pela História.
Aqui deixo o calendário do próximo conjunto de sessões:
12 de Outubro de 2019; 09 de Novembro de 2019; 14 de Dezembro de 2019; 11 de Janeiro de 2020; 8 de Fevereiro de 2020; 14 de Março de 2020; 18 de Abril de 2020; 09 de Maio de 2020; 20 de Junho de 2020.
Nota: Devido aos múltiplos afazeres, não foi possível transcrevermos o relato da sessão realizada a 11 de Maio. Refira-se que 4 das crianças presentes atingiram a pontuação máxima do concurso "Descobre o Vocábulo". Assim, ao final do terceiro conto, os mais bem classificados são:
Maria Lorena, João Fernandes: 100 Pontos
Lourenço Pinto: 90
João Machado: 75
Hugo Âmbar: 70
Recordo que a pontuação até agora alcançada acumulará com a das sessões do próximo ciclo 2019/2020.

Aqui deixo uma parte do conto apresentado. O texto completo será enviado a todas as crianças cujos pais o solicitem.
CONTO XVIII

O GILA NO OLIMPO
Ludhiana não era reino de facínoras. Ali, poucos crimes se cometiam, os conflitos não passavam das vulgares quezílias entre grupos sociais com interesses distintos. Nada de mais. Contudo, o rei Leovigildo há muito decidira ser tempo de acabar com os privilégios que os seus antecessores haviam concedido aos mais poderosos: a nobreza de armas e o clero de orações não menos mortíferas. Tantos foram os vexames e impostos sobre estes que o fim se adivinhava a qualquer momento. A borrasca rebentou quando Eurico entendeu liderar um golpe de Estado contra o irmão mais velho. Falar-se do sangue que correu é pouco. Em poucas horas tudo mudou. Quem se sentira anteriormente achincalhado, rejubilou; quem vira fugaz luz no horizonte da justiça, recolheu-se de novo à mais profunda servidão.
Virgílio, o herdeiro real, fora encerrado na torre de menagem do castelo. Ia para três anos que o infante dali não saía. O interior do edifício era quadrado, teria de lado cerca de dez dos seus pequenos passos. O local possuía uma janela situada a bons cinco metros de altura. Era por aquela que entrava o Sol e, no Inverno, também o frio, ainda que mantas e peles curtidas não faltassem ali.
Todas as manhãs lá se deslocava o Arménio. O petiz, nove anos incompletos, conhecia-o dos tempos em que tanto fizera rir a corte. O antigo truão era um velho corcunda, todavia rijo de ossos e ágil como cabrito montês. Chegava-se à fresta pelo exterior e deitava uma escada de corda pela qual rapidamente descia. A tiracolo, levava uma cesta com comida que deixava pousada pelo chão. Logo após fazia o percurso inverso para só voltar no dia seguinte. O menino surpreendera-se ao princípio com a mudez do ancião. Tentara, inclusive, chegar-lhe à fala, repetira mesmo algumas das graças que lhe ouvira. Mas qual o quê?, nada, nem a razão para tão bizarro comportamento. A intervalos de tempo regulares, isto é, coisa que o menino estimava semana sim, semana não, habituara-se a que o Arménio – que outrem poderia ser? – ali fosse deixar palha seca que arrumava a um dos cantos. Fazia-o de noite, ocasião em que a criança dormia o sono dos justos.
Como procedia o bobo para que nunca o houvesse detetado em tal tarefa? Certamente não atiraria a palha pela janela, que o vento a espalharia por todo o lado. Como tempo era o que ali não parecia faltar-lhe, o rapazinho decidiu virar a divisão do avesso em busca duma porta de acesso ao exterior. Quiçá a encontrasse; porventura estivesse ali a oportunidade de fugir. Começou a tarefa bem cedo, logo que terminada a visita diária do corcunda. Primeiro usou as mãos na tentativa de encontrar vestígios de algum alçapão. Depois buscou com que raspar as paredes uma por uma. Noite fechada, cansado, deu a tarefa por impossível e chorou copiosamente, tanto que acabou por adormecer. Subitamente, nem ele saberia precisar quando, ouviu uma voz:
– Porque choras, Virgílio? Um homem não chora.
O petiz acordou atemorizado. Ouvira aquela frase da boca do tio fratricida três anos atrás. Fora mesmo a coragem de não chorar que o salvara da morte, ou pelo menos assim lho dissera aquele. Com a vista afirmada e o coração a parecer querer saltar-lhe do peito, perguntou:
– Quem és tu, que não te enxergo nem sinto teu respirar? Acaso terá meu tio morrido e sejas a alma de tamanho velhaco?
(Continua)
Boas férias a todos!

Liberta de castelhanos em Outubro de 84, Lisboa sarou as feridas e preparou-se para o que de lá viria. Nuno Álvares Pereira constituíra uma força especial de cavalaria com cerca de 300 homens escolhidos entre os mais leais ao partido português. Entre estes estava Ramiro Fróis Coutinho, segundogénito de afamado e poderoso clã das Beiras. O pai, o velho Leopoldo, ficou estupefacto perante a decisão do filho em se aliar às forças do mestre de Avis:
– Pequice a tua. A nossa família sempre pugnou pela lealdade ao rei. Queres desgraçar o nome dos teus antepassados?
– O pai fala de lealdade, mas a verdade é que não o vejo comprometer-se com lado algum, antes o sinto na expectativa, como que a ver para que lado sopra o vento.
– Estás a confundir cobardia com bom-senso.
– Onde o pai vê bom-senso, vejo eu, perdoe-me que lho diga, manha de burro velho.
Para o progenitor, a ter de envolver a linhagem na luta, melhor faria em apoiar o monarca castelhano, acreditando que, em caso de vitória, veria honra e acrescentamento, e, mesmo em contrário, Juan seria magnânimo ao ponto de compensar – em Castela – os Coutinho pelas perdas e exílio forçado. Foi naquele preciso momento, ainda a tempo de escutar tais palavras, que entrou no solarengo salão o irmão mais velho, Sesnando Fróis Coutinho. Logo entendeu intervir no diálogo:
– Se discordo por inteiro de meu irmão, também não posso concordar com o pai. O herdeiro de direito é o infante João, ora preso em Toledo. Apoiar Juan é fazer o jogo dos Castro, dos Tello e dos Meneses: é ainda ficarmos submetidos à poderosa nobreza castelhana. Estou farto das migalhas reais, de ver o quão ostracizada tem sido a nobreza de sangue lusitano.
Porém o pai não estava pelos ajustes:
– Acaso o infante não é também um Castro?
O primogénito, tal como o pai, tinha o lado prático bem apurado.
– Será, mas também é português. Do mal, o menos. Saberá premiar quem o apoie e não a família que pouco ou nada o ajudou quando ele matou a Maria Teles e se refugiou em Castela.
– – Imagina que apostamos no lado errado, que Beatriz recupera o trono. Que aconteceria aos nossos bens? – insistia o ancião.
– Muito provavelmente seriam confiscados por desserviço a Juan.
– E sem terras, que faríamos?
A discussão prometia não ter fim. Contudo, também Ramiro tinha visão pessoal interessada:
– A mim pouco me interessam propriedades e riqueza que nunca serão meus, pois, pelo direito divino e canónico, a ti – apontava para Sesnando –, por seres o mais velho, cabe a herança de nosso pai. Que me espera? Viver às tuas custas? Integrar uma Ordem Militar? Ganhe o Mestre esta guerra, e comigo se inaugurará um novo ramo da família.
– À nossa custa, imagino, minha e de teu irmão – retorquiu ofendido D. Leopoldo, sentimento que não passou desapercebido a Ramiro.
– O pai estará provavelmente velho de mais para entender que não nos podemos esconder debaixo do manto da neutralidade.
– Sempre o fiz e não me dei mal.
– Outros tempos, outros conflitos. Nesta guerra pelo trono de Portugal só haverá lugar para um. O povo que dá o sangue pelo Mestre não admitirá o perdão daqueles que se colocarem ao lado de Castela.
– Achas-me um traidor, desnaturado filho? – gritava o patriarca, aparentando começar a perder a lucidez. Todavia, Ramiro esforçava-se por manter a calma:
– Traidores e patriotas são duas faces da mesma moeda. Ainda há bem pouco era a nobre família Coutinho exemplo de fidelidade a D. Fernando.
Sesnando sentiu-se tão injuriado que declarou sentença sem apelo:
– Pois se pretendes ir para o Mestre, vai, que esta não é mais a tua casa. A partir de hoje deixo de te reconhecer como irmão. Se acaso nos encontrarmos no campo de batalha, que a morte se amerceie de ti.
Ramiro sentiu a ira do irmão. Ainda assim, lançou intrigante premonição:
– Aqui voltarei um dia. E, nessa altura, ninguém me expulsará.
O ano de 1385 começou com um bizarro acontecimento: uma tentativa de assassinato de João de Avis. Os conselheiros do Regedor e Defensor do Reino tudo fizeram para abafar um caso que, a tornar-se público, demonstraria a fragilidade dos laços que uniam a hoste revolucionária. Por portas travessas, soube-se que haviam sido quatro os conjurados, e que um deles acabou mesmo enforcado.
Em Março o Mestre anunciou que se iriam fazer cortes:
– É preciso aprovar um plano dos meios necessários para fazer face aos custos com a guerra – disse, deixando no ar a suspeita de que tal não passasse de pretexto, cujo fim era, só os mais próximos pareciam conhecer.
Em Coimbra se faria a reunião. Por essa ocasião já Ramiro fazia parte da força de cavalaria de Nuno Álvares Pereira. Assim se dirigiu o fronteiro às três centenas de homens que comandava logo que à cidade universitária chegaram:
– Daqui, ou o Mestre sai rei, ou passamos os opositores todos à espada.
Só naquela altura o mais novo dos Coutinho percebeu que dera um passo que não admitia volta atrás: matar ou morrer. Aquele Nuno que, tal como ele, teria pouco mais de vinte anos, levava muito a sério a revolta. Nada semelhante ao que, em tempos, Ramiro vira na casa paterna, pelejas com outras famílias nobres que acabavam em acordos de casamento. A ingenuidade do jovem beirão ficou evidente na questão com que interpelou o comandante:
– Vamos mesmo ter de matar próceres do reino por causa de uma discussão sobre fundos?
Riram-se os demais. Nuno Álvares Pereira manteve o ar sério e contestou:
– Sabes quem é aquele? Provavelmente não. É João das Regras, eminente doutor de leis. Que achas que veio cá fazer?
Ramiro ficou encabulado. Conhecia lá semelhante peça. Acabou de chegar de Bolonha? Ah! Onde fica tal lugar? Tão longe? O jovem vivera nas Beiras, desconhecia as figuras públicas, o mundo da política, as intrigas cortesãs.
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

O conto de hoje serviu-nos para entendermos o trágico reinado de D. Fernando. Das guerras insanas em que se meteu, até à visceral falta de cumprimento dos tratados que firmava, passando pela estulta leitura da situação política. Deixemos o Inconstante repousar em paz, pois, por aquele tempo, a insensatez foi tal que até a Igreja Católica chegou a possuir três Papas em simultâneo.

Chegámos a Outubro de 1384 e, com ele, a debandada castelhana causada por uma estranha peste que se restringiu (???) ao exterior das novas muralhas alfacinhas. Contudo, na ambição de Juan I não cabia o verbo "desistir". O ano seguinte -- 1385 -- corresponderia ao tudo ou nada por um trono. O tira-teimas aconteceria a 14 de Agosto: João ou Beatriz?
Lá iremos na sessão a realizar a 11 de Abril.
Aos poucos, vamos criando um manual de termos, Assim voltou a suceder. Aprendemos que...
1 - O pomo da discórdia...
2 - O calcanhar de Aquiles...
3 - Entre Cila e Caribde...
Significam, respectivamente...
1.A - O motivo da desavença...
2.A - O ponto vulnerável...
3.A - Qual das ameaças a mais perigosa.



O desafio vocabular ficou marcado pelo regresso do João Machado, vencedor da temporada pretérita. Em sentido contrário, fomos surpreendidos com a ausência da Clara.
Isentos os mais jovens da participação num jogo que teriam dificuldade de entender e muito mais em competir, observámos que a Maria Lorena, o João Fernandes e o João Machado concluíram com 100% de êxito as questões colocadas.
No final do segundo conto os mais bem classificados são:
|
Maria Lorena |
65 Pontos |
|
João Fernandes |
65 |
|
Lorenço Pinto |
55 |
|
Hugo Âmbar |
45 |
|
João Machado |
40 |
|
Clara Sol |
25 |
Nota: As crianças foram informadas de que, face ao exíguo número de contos a apresentar até Junho, iremos acumular as pontuações até lá alcançadas com as que obterão no período Outubro 2019/Junho 2020.

Estávamos no ano de 1369, mais concretamente a 23 de Março. Na Taverna La Mollera, em Montiel, vivia-se um ambiente bizarro, que o dono, Don Pepe, tentava gerir ao seu jeito.
– Sai daí, bebedolas, que não te quero perto da fidalguia – dizia para os frequentadores usuais, gente que desconfiava da razão pela qual um infante e respectivos sequazes ali estavam.
– Isto não é antro de facínoras, é casa de gente honesta e trabalhadora – insistia Don Pepe, alto e bom som.
Porém, Dueña Carmen, a esposa, não parecia estar convencida do êxito da estratégia. Chamou o marido à parte e comentou:
– Olha lá, Pepe, que faz ao certo o Henrique de Trastâmara na nossa casa?
O conde era – tal como outros nove, entre vivos e mortos – filho ilegítimo de Afonso XI e da amante deste, Leonor de Gusmão. Henrique guerreava o meio-irmão, Pedro, filho da Fremosíssima Maria, desde que este ascendera ao trono, em 1350. Fazia-o por medo, mas também por ambição. Vira a mãe, dois dos irmãos e mais umas largas dezenas de fidalgos serem assinados por mesquinha crueldade do monarca. A guerra civil entrara, em 1366, numa fase de tudo ou nada, com os dois lados a alternarem vitórias e derrotas. Na busca de apoios que ambos os contendores encetaram, serviram e serviram-se do antagonismo entre França e Inglaterra, naquela que mais tarde se chamaria, erroneamente, Guerra dos Cem Anos. Henrique apoiou-se em Carlos V, suportado pelas Companhias Brancas comandadas por Beltrán Du Gueslin. A moeda de troca consistiu na fantástica frota naval de Castela, a qual, colocada ao serviço dos gauleses, proporcionar-lhes-ia o domínio dos mares do Norte. Pedro, por seu turno, buscou apoio em Eduardo de Inglaterra, o Príncipe Negro. Para os ilhéus, era condição máxima neutralizar o poder marítimo de Castela. Entre 1366 e 1369, Henrique e Pedro alternaram vitórias com derrotas. Ao primeiro daquele mês de Março, Henrique cercara o rei e as suas tropas na fortaleza de Montiel.
Pepe entendeu responder assim à esposa:
– Não faço ideia, mas passa-se algo de estranho lá em cima, no castelo da Estrela. Já faz para lá de uma semana que o Mem Rodriguez de Sanabria e o Du Gueslin estão em conversações. Parece que o Pedro quer negociar um acordo, cujo seja, é a dúvida que me atormenta.
– Escuta-me, homem: será bom que os fidalgos se vão. Dá-lhes de comer, dá-lhes de beber e livra-te deles.
– Dar, dou, mas palpita-me que não estão aí por coisa boa. Está-se a preparar borrasca da grossa. Pelo sim e pelo não, vou mandar embora os nossos clientes habituais.
– Credo, valha-nos a Virgem Maria! Logo tinha de acontecer em nossa casa – concluiu Carmen, apertando o peito com ambas as mãos.
No exército sitiador começou a correr o boato de que existiria um túnel subterrâneo que ia dar ao cerro de San Polo, pequena elevação fortificada a cerca de um quilómetro de distância do castelo. Du Gueslin pensou num ardil para evitar que o rei fugisse. Assim se explicou:
– Majestade, vosso irmão pretende fazer pazes convosco. Pensai que vos propõe o fim da maldita guerra civil. Pede que venhais comigo, posto aguardar-nos na vila.
Entre Cila e Caríbde, Pedro viu na proposta a oportunidade de se livrar do cerco, e logo explicou a decisão ao escudeiro Mem Rodriguez:
– Assim que estejamos a salvo, mando reunir todo o exército de Castela e mato o Henrique e o francês.
Pedro e Du Gueslin abandonaram o castelo e dirigiram-se à taberna de D. Pepe. Ao sentirem barulho no exterior, os acompanhantes de Henrique saltaram de um único pulo das mesas onde se encontravam e, em guardado silêncio, cobriram portas e janelas da taberna, espadas em riste, como se de atalaia prestes a ser atacada se tratasse. Ouviu-se então um palavreado esquisito, mistura de espanhol e francês de raia, que logo todos atribuíram ao francês:
– Trago-vos a esta humilde tasca, Alteza, pois vosso meio-irmão assim mo pediu. Por mim só, não possuo meios para estabelecer acordo proveitoso para ambas as partes. Garanto-vos que Henrique saberá respeitar Vossa Majestade.
Mal Pedro surgiu no interior do estabelecimento, Henrique correu para ele, adaga na mão. Contudo, o rei era valente e decidido a salvar a vida. Vendo que o espaço em que combatiam não permitia um duelo à espada, puxou também de um punhal e derrubou o conde. Henrique debatia-se, mas Pedro ganhara supremacia no combate, aprestando-se para rapidamente dar o golpe de misericórdia no pretendente ao trono. Foi então que Du Gueslin decidiu intervir na refrega. Agarrou no rei pelas costas e atirou-o ao chão, o que permitiu a Henrique lançar-se sobre aquele e apunhalá-lo repetidas vezes. Os espectadores ficaram surpresos perante o sucedido. Olharam o francês com ares de réu: Ni quito ni pongo rey, pero ayudo a mi señor, contestou.
No dia seguinte Montiel assistiu a um espectáculo macabro.
– Olha para aquilo, Pepe. O conde pendurou o corpo degolado do Pedro nas ameias do castelo para que todos o vejamos – afirmou Dueña Carmen.
– E não só. Espetou a cabeça numa lança para forçar as praças legitimistas que ainda dão voz pelo defunto a renderem-se.
Ainda Março não terminara e já Henrique partia. Assim se despediu do estalajadeiro:
– Obrigado por tudo, Pepe. Aqui cheguei infante; daqui saio rei.
– Aqui tem e terá um servo à vossa disposição, Alteza. Contudo, parece-me ter de ser eu a falar-lhe das coisas que que ninguém ousa.
– A que te referes, homem?
– De legitimidade. Se pensais que se acabaram os vossos problemas, lamento anunciar-vos que eles ainda mal começaram.
Quando o novo rei partiu, o povo decidiu fazer uma homenagem a Pedro: ali construiu um monólito com a coroa real no topo.
A Península Ibérica tremeu quando nos demais reinos se soube da funesta conduta: de Portugal a Aragão, passando por Navarra e até a Granada muçulmana se sentiu incomodada. De lembrança dos homens que fosse, não havia memória de fratricídio igual. E nem as respectivas classes nobres descansaram. É que a virtude da família tradicional assentava nos princípios do direito civil e canónico. A transmissão hereditária fazia-se com base no inviolável sacramento do casamento, não no concubinato.
Se Henrique se sentou no trono, não o fez sem oposição: concreta em alguns casos; velada noutros. Trata-se de um bastardo, diziam estes. Baterem-se de armas ou de razões, era o ponto. Na Galiza, um grupo de “patriotas” encabeçado por Fernán Ruíz de Castro, irmão de Joana de Castro, uma das esposas do defunto Pedro; Álvaro Pires de Castro, que seria mais tarde Condestável de Portugal; e Inês de Castro, sobejamente conhecida pelos amores com o pai do rei Fernando I, decidiu-se pelo combate. Havia, porém, que encontrar candidato de sangue real e suficientemente poderoso para que a luta fizesse sentido em todos os cantos de Leão e Castela.
Pedro de Castela tivera vida amorosa agitada, casara, descasara, forçara a aceitação de um casamento dúbio: uma trapalhada. Se alguma linha sucessória poderia reclamar a real herança, era opinião comum que ela deveria recair nas duas filhas que o rei tivera de Maria Padilla: Constança e Isabel. Todavia, a mulher era estigmatizada pelo direito divino e natural. Fêmeas não servem – explicou Fernán Castro. – Necessitamos encontrar um varão. Estudemos a árvore genealógica. Saltemos as gerações que forem precisas. Há-de haver um parente da família real castelhana.
– Eu?! – surpreendeu-se Fernando.
– Quem mais do que vós tem tal direito? Sois bisneto do rei Sancho IV pelo lado de mãe.
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

Dia agendado para o regresso d' As Voltas da História após largos meses de ausência.

A equipa do ano transacto regista duas baixas: a Matilde e a Carolina, ambas abrangidas pelo limite da idade, ainda que, como sempre fizemos extensivo a todos os anteriormente envolvidos, possam vir assistir aos contos se o pretenderem. A barreira etária máxima existe porque a abordagem à História deve ser adequada à diferenciação de desenvolvimento intelectual registado em crianças com 8 ou 13 anos. Tão-só.
Outros houve que incluiram entretanto novas actividades nas suas rotinas de fim-de-semana ou estavam simplesmente de férias á data de reabertura da Biblioteca da Casa da Horta. Aguardaremos por todos a 13 de Abril.



É, porém, tempo de abrirmos os braços a novos participantes: à Clara, ao Manuel, à Maité. Que gostem de estar connosco; que voltem; que outros se nos juntem.
O conto XV levou-nos à compreensão da organização politica e militar que permitiu aos portugueses de meados do século XIII chegarem ao Algarve.
"Já demos esta matéria na escola!", disseram-nos ao princípio.
"Muito mais completo e giro!", afirmaram no final da apresentação.
Ainda bem. Ficam todos mais ricos de conhecimentos.
O já conhecido concurso de incremento vocabular registou a inclusão de provérbios e expressões figurativas que se propõem junto aos habituais vocábulos soltos com que desafiámos as crianças nos pretéritos dois anos.
Ficámos a saber que:
1 -- Para uns é mel, o que para outros é fel...
2 -- A ave de rapina não canta...
3 -- Esforço titânico...
significam:
1 -- O bem de uns, corresponde, muitas vezes, ao mal de outros.
2 -- Quem caçar pretende, não se denuncia.
3 -- Para além das possibilidades humanas.

A Clara Sol, o João Fernandes, o Hugo Sousa, o Lourenço Pinto e a Maria Lorena cumpriram integralmente a pontuação: 25 pontos.
Não se esqueçam que em Abril, para além do teste em sala, terão de relembrar as expressões acima.
O próximo conto leva-nos a abordar o reinado de D. Fernando. Partiremos de uma taberna, algures em Montiel, Castela, onde se prepara o assassinato do rei...
... O resto fica para Abril.
Nota: A partir do presente conto abandono a habitual estrutura do trabalho. Tendo iniciado por construir três versões -- literária, factológica e a específica e imagética para apresentação em sala -- de cada unidade, concluí que a factologia política, cujo objectivo era o de proporcionar a visão rigorosa e científica (ainda que, aqui e ali, polémica, como é apanágio da História) dos temas abordados para posterior enriquecimento próprio ou utilização escolar, não tem conseguido alcançar tal desiderato. Dêmos então um passo em frente.
Um abraço a todos.

Introdução.
Aljustrel foi conquistada aos mouros, no ano de 1234, pelo braço lusitano da Ordem Militar de Santiago. O castelo situava-se a sudeste de Alcácer do Sal, sede dos monges-cavaleiros desde 1217, e correspondia ao primeiro passo para que, em progressão na diagonal, os espatários se aproximassem de Sevilha, capital do califado almóada, objectivo geral da Cristandade hispânica face ao, já então evidente, desmembramento deste.
Rapidamente o rei Sancho II doou ao comendador-mor a vila com os territórios circunvizinhos. A concessão tinha por contrapartida a defesa do Baixo Alentejo ocidental, posto que, a oriente, Moura e Serpa haviam sido entretanto tomadas, por volta de 1232, pelos hospitalários, conquistas em que se distinguira um jovem e simples fidalgo, cavaleiro de uma lança e um escudo, Afonso Peres Farinha, que mais tarde ascenderia ao posto de Prior da Ordem. Apesar de, na prática, se estar em área fronteiriça, por nenhum outro território mais a sul possuírem os lusos, a verdade é que não havia perigo vizinho, posto haverem os mouros fugido bem para lá dos cerros que no horizonte se divisavam, deixando meras atalaias que, por si só, não ofereciam perigo de contra-ataque à Reconquista.
Vamos ao conto.
Paio Peres Correia fora, no início de 34, nomeado comendador da Ordem em Portugal. Servira os reis de Leão e Castela – enquanto freire-cavaleiro – em várias batalhas durante os anos precedentes. Dirigiu pessoalmente o ataque a Aljustrel, e logo ali lhe veio à mente uma ideia:
– E se fôssemos atacar o Gharb?
– Mas daqui para sul tudo são andurrais. Acaso pensaste na graveza da passagem da serra? – contestaram os monges. – E ainda que cruzássemos as montanhas, o Gharb é terra povoada de muita gente.
Explique-se que o ocidente, isto é, o Gharb do al-Andaluz – a província árabe de Chenchir – possuía imensos castelos, sendo que, sobretudo Silves (Xelb, Xilb ou al-Shilb), a capital, mas também Santa Maria de Faro (Santa Maria de Ibn Harun) e Tavira (Tabira) eram grandes cidades e muito bem protegidas de muralhas. E, mais a norte, Mértola era mesmo considerada inexpugnável. O território era controlado pelo auto-intitulado “emir do ocidente”, Mohammed Ibn Mahfot, antigo váli de Niebla, guerreiro esforçado, que não só havia derrotado os rivais muçulmanos na cobiça pelo domínio do “emirado”, como também se tinha mantido praticamente incólume perante a ameaça cristã.
Para os portugueses chegarem a tão meridionais lugares, havia duas alternativas: a primeira, por mar, navegando pela costa atlântica até dobrarem o cabo dos Árabes ou de S. Vicente; a segunda, por terra, forçava caminho por Mértola, cruzava o Guadiana em direcção a Alfajar de Pena, e rumava logo após a sul, em direcção a Aiamonte. Ali entroncava com a estrada que de Sevilha passava a Niebla, capital do reino muçulmano do “ocidente”, e, de novo na margem direita do Anas, prosseguia para o ocaso, cobrindo o espaço que hoje é a província do Algarve. Todas as opções que cruzassem as serras de Monchique ou Caldeirão eram...andurrais.
O comendador não encontrou forma de convencer os companheiros e, contrariado, viu-se forçado a retomar o objectivo primordial da Ordem, que era o de atacar Sevilha. Paio esquecera momentaneamente que a razão pela qual havia sido deslocado para Portugal se ligava ao desejo do Mestre de Santiago pretender apoiar com forças pelo sul da serra de Tentudia os esforços dos companheiros leoneses e castelhanos que, entretanto, haviam bloqueado a norte daquela, face ao controlo ali exercido pelos muçulmanos de Zafra, Jerez de los Caballeros e Montemolín
Quatro anos mais tarde, em 1238, Paio Peres Correia e os seus cavaleiros lograram tomar Mértola. O feito ficou a dever-se à surpresa do ataque consumado em direcção à Torre de Oeiras, sobranceira à ribeira do mesmo nome. Com esta conquista a Ordem não só alargava as suas possessões na orla austral transtagana, como também ia cumprindo o plano de se aproximar da capital almóada.
Paio era homem de acção, e, conquistada a cidade alentejana, logo falou aos companheiros:
– Precisamos de construir muralhas em volta do arrabalde e uma torre de menagem que nos habilite a ter melhor visão do espaço em redor.
Os confrades olhavam a planície a partir do cume do monte em que se implantava o castelo e comentaram:
– Estamos tão alto que os muçulmanos nunca lhe sentiram necessidade.
Contudo o comendador logo ordenou aos companheiros:
– Faça-se a obra, que um dia nos poderá fazer falta.
Os freires deixaram na cidade defesa que bastasse, cruzaram o Guadiana, e rapidamente se posicionaram defronte de Alfajar da Pena, em cujo pequeno castelo roqueiro, todavia bem situado, se refugiara a parca população do lugar, que, em pânico, logo se rendeu. A partir dali, os espatários possuíam uma base para assediarem os alfozes das povoações de Saltes, Huelva e Gibraleón, localidades que protegiam o caminho para Niebla. Para a História ficava um marco territorial jamais repetido: os domínios portugueses – termos de Aiamonte – chegavam às margens do Odiel.
Contudo, Paio estava ansioso por saber o que, emmentes, sucedera noutro lugar:
– Temos notícias da frota real?
– Chegaram mensageiros a informar que Sancho tomou Aiamonte.
Boa notícia!
A operação fora coordenada para atacar os muçulmanos ao mesmo tempo em dois pontos diversos. Apesar de os ventos da fortuna acompanharem os exércitos cristãos, certo é que o frenesim militar de um e outro lados da fronteira ia-se extinguido. Se os de lá se atolaram e não atalhavam caminho, os da banda de cá digladiavam-se em quezílias cujo resultado seria a perda do trono de quem o possuía por direito.
De volta a Alcácer do Sal, Paio Peres Correia tudo pretendia controlar:
– Sabemos o que se passa com os nossos companheiros de Castela e de Leão? E com Fernando e Sancho? Se não nos mexermos, nunca tomaremos Sevilha aos muçulmanos.
Martim fez o ponto da situação:
– Santiago e Alcântara continuam a planear o ataque a Zafra, sem o que não lhes será possível avançarem para lá da Sierra.
De volta a Alcácer do Sal, o comendador-mor andava inquieto. Rui Peres e Martim do Vale, cavaleiros lealíssimos, decidiram saber o que intrigava o chefe:
– Temos reparado que passas muito tempo a olhar as serras que se estendem para o meridião.
– Monchique e Caldeirão...
Os monges não desistiam de melhor entender o que ia na mente do líder:
– Vais voltar com a peregrina ideia de ir por aí abaixo conquistar o Gharb?
Porém, desta feita, o comandante estava decidido. Em bom rigor, Paio estava entregue a si próprio, nenhum outro objectivo lhe era permitido até que leoneses e castelhanos desbravassem o caminho para Sevilha.
– Mandai dizer ao Garcia Rodrigues que vá ter connosco a Aljustrel. E o mesmo façam saber aos almogávares.
Garcia era um mercador traquejado no comércio com a mourama, cujos conhecimentos geográficos da região o haviam levado ao importante posto de adaíl, ou seja, guia dos exércitos. O cargo requeria uma pessoa de indubitável lealdade, pois uma traição sua levaria a que toda a hoste pudesse ser dizimada. E ainda que dele não se duvidasse, havia que ter a certeza que conhecia bem os caminhos, para que não se perdessem os homens ou atrasasse a expedição. Já os almogávares eram cavaleiros-vilãos, oriundos dos senhorios da Ordem, que, pelo respectivo foral, eram obrigados a cumprir trabalho de controlo da área fronteiriça. Executavam muitas vezes o papel de batedores na vanguarda dos exércitos.
No dia aprazado Paio Peres Correia reuniu-se com os vilões e o adaíl.
– Sem o empenho e coordenação régia, não me atrevo a ir contra Sevilha. Mudei de ideias, decidi avançar para sul. O alvo é a conquista do Gharb, beneficiando da nossa posição em Aiamonte, que em muito dificulta o apoio que de Niebla poderiam receber os chefes das cidades ocidentais. E, para tal, tenho de tomar aos mouros algum castelo em lugar estratégico, todavia defensável. Transfiro para lá os meus cavaleiros, e, a partir daí, ataco as cidades muçulmanas.
Martim e Rui acharam a ideia um pouco louca:
– Queres posicionar-nos numa fortaleza, no coração do Gharb, rodeada de mouros por todos os lados?
Todavia Paio não parecia prestar-lhes atenção. Virou-se para o adaíl e inquiriu:
– Que achas, Garcia? Consegues guiar-nos pelas serras até ao Gharb sem que os vigias desconfiem?
– Os caminhos são péssimos, é impossível levar máquinas de cerco. Propunha que mandasses à frente uma força de cavalaria. Chegados à primeira linha de defesa mourisca, atacariam e surpreenderiam a fortaleza escolhida para nela se abrigarem e defenderem até que tu e o grosso do exército ali chegassem.
Os monges estavam estupefactos, não queriam acreditar no que ouviam:
– Estais-vos a esquecer do que aconteceu em Silves, em tempos de Sancho I, fará agora uns cinquenta anos? Mal os cristãos tomaram a cidade, logo o califa Almançor enviou para lá duas expedições a reconquistá-la.
Paio Peres Correia parecia ter estudado bem o assunto, e logo respondeu:
– Outros tempos. O poder almóada era então muito forte. E se provas precisássemos da valia da mourama nessa altura, bastaria recordar-nos da enorme derrota que nos impuseram em Alarcos, logo a seguir à perda de Silves, corria 1195.
Martim ia interromper para alegar algo, mas logo o comendador atalhou:
– Deixa-me continuar, pois, mais tarde, em 1212, vencemo-los em Navas de Tolosa. Fragilizados aqui e atacados em África, rapidamente os almóadas se viram alvo de sublevações várias entre os do seu credo, perdendo territórios: Múrcia e Granada, Fez e Tunes, todos em duas décadas. E com a perda do controlo das rotas auríferas subsarianas, começou a faltar o suporte económico ao califado. Nos anos 20 chegaram a fome, as exacções exorbitantes e o óbvio fim dos “unitários.”
Martim insistia em ripostar:
– Certo é, mas os muçulmanos andaluzes não se renderam. Tal como no passado, reorganizaram-se em reinos de taifas. Chefes que conhecem a forma como combatemos e estão tão bem armados quanto nós.
De facto, assim era. Vários foram os reinos independentes que se formaram no território do Andaluz: Arjona, Baeza, Lorca, Menorca, Múrcia, Valência, Córdova, Sevilha, Jerez, Niebla, Granada. A maioria não passaram de breve luzeiro, rapidamente submetidos ao poder de Castela. Somente o último dos referidos se manteria na Península por largo tempo, dois séculos e meio, até 1492.
– Pois se da História tanto pareces saber, recorda-me o que aconteceu das duas outras vezes em que os mouros constituíram esses reinos independentes – inquiriu Paio.
– Que me lembre, acabaram subjugados por novas dinastias berberes que entretanto se haviam formado no Norte de África, e que atravessaram o Estreito para unificar a comunidade dos fiéis.
– Ora aí tens a resposta às tuas dúvidas. Se queremos acabar com os sarracenos a sul, devemos aproveitar a ocasião em que estão divididos. Se nada fizermos, mais tarde ou mais cedo virá por aí nova dinastia de berberes completamente fanatizados.
Garcia Rodrigues achou que podia meter a colherada:
– E depois é o cabo dos trabalhos para os expulsarmos de novo. A partir de Fez, o bando dos merínidas bate-se com o que resta dos almóadas. Será uma questão de tempo até que o desígnio de invadir a Península se manifeste.
Paio estava decidido:
– Acabou a conversa. É tempo de planearmos o assalto ao Gharb.
Tudo o comendador pensou. Do adaíl recolheu informações sobre a organização política e social do inimigo, das fraquezas do sistema defensivo, dos caminhos que atravessavam a serra. Da discussão entre os principais cavaleiros surgiram soluções para problemas como a mobilidade das forças e a necessidade evitar as atalaias serranas, o castelo de Ourique, a insuficiência de tropas, a forma de acometer as cidades, o lucro da operação:
– Esse depende da conquista de Silves – admitiu o chefe.
– Melhor será que tiremos da cabeça a ideia de afrontarmos directamente Silves. Morremos lá todos – convieram os monges.
Contudo, Paio não hesitava:
– Para já, avança a força ligeira de cavalaria, almogávares conduzidos pelo adaíl.
Como a ave de rapina não canta, os cavaleiros partiram pela calada da noite (descansavam durante o dia), procedimento que repetiriam ao longo da viagem, para que os mouros não os sentissem. Passaram ao largo de Garvão e contornaram Ourique e Marrachique, atalaias fortificadas que, em caso de sobressalto, alertariam de imediato as cidades do litoral sul.
O prémio aguardava pelos cavaleiros-batedores em Estômbar, albacar onde os mouros ficaram de tal forma surpresos pela aparição dos cristãos, que não tiveram tempo de esboçar reacção que se visse. Ultrapassada a primeira dificuldade, novo problema se colocava: fazer acorrer ali rapidamente o comendador e os seus monges. E tal aconteceu bem preste, ao arrepio de vigias e riscos, que bem maior era o que corriam os valorosos que haviam ousado aventura tão louca. Cavaleiros entrincheirados, agulha santiaguista em palheiro.
Da base espatária pronto saíram “correrias” ás redondezas. O propósito era o de fustigar o território e saquear rebanhos, hortas e pomares, posto que a distância e as atalaias serranas impediam o abastecimento através de Aljustrel. As cavalgadas de rapina acabaram na conquista da torre de Alvor:
– O plano corre às mil maravilhas – constatou o comendador.
Corria, certamente, de tal forma que os mouros vieram a bem pedir tréguas aos cristãos. Assim se explicaram:
– És forte, Maestro Pelayo, mas nós somos muitos, tantos que te desbaratemos logo que te atrevas a sair em campo aberto.
– Chalaceais, mas decerto não foi para isso que aqui viestes.
– Trazemos-te uma proposta: a permuta de Estômbar e Alvor por Cacela (Hisn-Kastala) que é poderosa praça, um hisn (castelo), não mero albacar ou torre como por aqui tens.
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.
Fora a alma portuguesa valente e ingénua, e seria lusitana; organizada e metódica, romana; conquistadora e obsessiva, bárbara. Mas não é. É-o, antes, individualista, vagabunda, integradora, poética e doce. A alma de Portugal é árabe.
(Eduardo Gomes, As Voltas da História, 2018)
A VIAGEM
Vamos para a festa.

LARGO DE SANTO ANTÓNIO
Distribuição de tarefas.

PORTA DA ALFOFA
Diz-me, painel meu, se há porta mais bela do que eu.

CASTELO:
A vista da bela Lisboa.


CASTELO: PRAÇA DE ARMAS
Onde estarão as bocas de fogo?

CASTELO: RUÍNAS DO PAÇO DE D. JOÃO I
Que jeito dá uma mesa de pedra.

CASTELO: O CASTELEJO
Obrigado, irmãos muçulmanos.



CASTELO: TORRE DE S. LOURENÇO
Primeira estação: o milagre da multiplicação da água.

Ui, que soninho!

Vai lá, vai. Olha-me só para esta inclinação.

CASTELO: TORRE NORTE
Obrigado, Senhor, pela sombra nossa de cada Verão.

CASTELO: ESPLANADA DO SÍTIO ARQUEOLÓGICO
Desorientados?

CASTELO: PORTA DA BARBACÃ
O Wally esqueceu-se do grupo.


PORTA DO ESPÍRITO SANTO
Atenção às armadilhas do questionário.

SANTA CRUZ DO CASTELO
A T-Shirt é minha...

Um tostãozinho prò Santo António, vá lá...

PARQUE FECHADO PARA ALMOÇO OU SIMPLESMENTE ANTIPATIA CONGÉNITA



Ó-i-ó-ai, fui comprar um manjerico...


CHÃO DA FEIRA
Deixa-te de poses, que o velhote está "apertadinho".

PÁTIO D. FRADIQUE
Não vos cheira a sardinhas?

As torres

Um exemplo de bom graffiti

PORTAS DO SOL
Ao atravessar a rua, tenha cuidado com os Tuk-tuk. São aos milhares. Invadiram a cidade.

PORTAS DO SOL: PALÁCIO AZURARA
Onde estará a cruz pátea? Em cima da janela.

TORREÃO DA RUA NORBERTO DE ARAÚJO
Pano de muralha em óptimo estado.

Gulosa, a Carolina.

TORRE DE S. PEDRO
Nascentes de água fresquinha em Alfama? Vinha mesmo a calhar...

POSTIGO DE SÃO PEDRO
Primeiros sinais de cansaço.

ALFAMA
... Vou daqui prò bailarico...






CHAFARIZ D'EL-REI
Hora dos T.P.C.

PORTA DO MAR
Chega de visita. O almoço já esfria.

CAMPO DAS CEBOLAS
Obrigado à árvore que tais raízes tem.

Obrigado a todos: às crianças e aos pais.
Um abraço e até Outubro.
FIM.

Procurámos encontrar uma forma humorística de saudar os vencedores do desafio que celebra o enriquecimento do léxico por parte dos jovens. Nada melhor do que lhes mostrar o aspecto prático da aprendizagem. Eis o que nos ocorreu, com a devida vénia a quem foi o melhor dos melhores.
TEATRO
Ela: – Belo alazão montais, senhor. Deambulais por tão florida quelha?
Ele: – Chalaceais, senhora. Pretendo convosco firmar um pacto.
Ela: – Ah! Então é pela parlenga que vindes.
Ele: – Decerto.
Ela: – E que patranhas me preparais?
Ele: – Que céptica sois. Pretendo confessar-vos desígnios meus.
Ela: – Que cogitais?
Ele: – Pedir-vos que comigo contraias casamento.
Ela:– Quiçá sejam desarrazoados vossos motivos. Maus presságios, entendei. Esqueceste-vos da animadversão latente entre as nossas famílias?
Ele: – Burleta será, pois os interesses económicos sempre falaram mais alto.
Ela: – Acaso sois rico? Se sim, onde estão vossos fâmulos?
Ele: – De valhacoito lhes serve a floresta.
Ela: – Pressagia-me que a um ardil me atraís. Vosso falar mais parece o de um almocreve a propor a veniaga.
Ele: – Que credes? Que faltarão as vitualhas à vossa mesa?
Ela: – Açodais-me para além da razão.
Ele: – Tivera eu o vosso amor e um aprisco nos serviria de lar.
Ela, batendo-lhe:
– Um curral de porcos??? Sai-me da frente, vilão...ide-vos... ide-vos.
FINAL DO DESAFIO "DESCOBRE O VOCÁBULO"
O preenchimento dos significados das 23 palavras que compunham o questionário por parte dos dois concorrentes à compita pelo primeiro lugar, foi algo digno de se ver. A segurança que ambos alardearam; a falta de dúvidas na pronta e correcta resposta; a certeza de que não havia necesidade de rever as respostas, demonstraram o que de antemão sabíamos: estamos perante duas crianças de altíssimo gabarito intelectual para a idade. Que o futuro lhes proporcione as oportunidades que merecem, são os nossos votos.


O João Machado foi o brilhantíssimo vencedor; a Maria Lorena uma fantástica concorrente. Ambos tiveram uma única falha ao longo de nove meses. Quantos portugueses sabem o significado das expressões de que ambos mostraram ser profundos conhecedores?, é a questão que se deve colocar para melhor entendermos a performance destas crianças, ambas com nove anos. Representam a razão para que o projecto "Voltas da História" esteja de parabéns.
Vamos à classificação final dos três primeiros:
|
João Machado |
405 |
Pontos |
|
Maria Lorena |
335 |
" |
|
Lourenço Pinto |
170 |
" |
Uma palavra para a gentileza da Ana Gomes, que nos permitiu usufruir da presença da Carla, vencedora do ano transacto, que se prontificou a acompanhar-nos e abrilhantar a gala de entrega dos prémios do corrente ano.

Permita-se-nos uma colherada premonitória:
Acreditamos que, a par do João e da Lorena, o grupo é composto por crianças com potencial para concorrerem com aqueles no próximo ciclo. Todos. Independentemente do exposto, aqui deixamos uma referência ao Lourenço, que precisa de trabalhar mais, pois capacidade para ir além não lhe falta; e ao João Fernandes, um menino com um interesse pela História capaz de cativar qualquer lente.
(Continua)

Questionário A
À DESCOBERTA DA CERCA MOURA
OBSERVAÇÃO
P1 – A caminho do castelo encontramos as Escadinhas de S. Crispim. Quantos degraus as compõem?
R: 135
P2 – Quantos monóculos se situam na Praça de Armas da área do castelo?
R: 3
P3 – Quantos cubelos e portas estão visíveis na muralha da Alcáçova patente na Rua do Chão da Feira?
R: 2+2
P4 – No sítio arqueológico, mais concretamente no Bairro Islâmico, existem reproduções de duas casas. Quais as suas dimensões?
R: 160 e 190 m2
P5 – Na zona da exposição permanente encontram-se vários painéis temáticos. Num deles assinala-se a origem dos berberes Almorávidas. De onde vieram?
R: Saara
P6 – Noutro daqueles refere-se a forma como se deitavam os corpos dos defuntos. Sobre que lado os viravam?
R: Direito
P7 – Que pormenor relativo à cerca moura se encontra no chão junto à Porta do Furadouro?
R: O traçado da muralha
P8 – O Painel 14, “Porta do Mar” faz alusão a uma torre albarrã. Como se denominava?
R: Escrevaninha
TEMÁTICA
P101 – Que área da cerca era denominada por medina ou almedina?
R: Cidade
P102 – Como denominavam os muçulmanos a Porta do Ferro?
R: Porta Grande
P103 – Que animal invocou o alcaide mouro a 30 de Junho de 1147, para demonstrar a ganância dos cristãos e recusar a entrega da cidade sem combater?
R: Elefante
P104 – Qual o rei que transformou a alcáçova mourisca em Pousada Real?
R: Afonso III
P105 – Como se define a segunda linha de muralha patente no castelejo?
R: Barbacã
P106 – Qual a extensão da muralha compreendida entre os Palácios Belmonte e Azurara?
R: 86 m
P107 – Em que reinados reconstruiram os portugueses o pano de muralha destruído pelos cruzados germânicos?
R: D. Sancho I e D. Afonso II
P108 – Como se chamava a via romana que de oriente ligava a Porta de Alfama a ocidente, à Porta do Ferro?
R: Decumanus
P109 – Em tempo de Afonso II que nome se dava ao Chafariz D'el-Rei?
R: Chafariz de S. João da Praça dos Canos
P110 – Que palácios se encontram por cima do Arco de Jesus?
R: Francisco de Távora e condes de Coculim

Questionário B
À DESCOBERTA DA CERCA MOURA
OBSERVAÇÃO
P1 – Por quantos degraus se compõe o adarve da couraça da torre de S. Lourenço?
R: 149
P2 – Quantas torres compõem o castelejo?
R: 11
P3 – No sítio arqueológico existem vestígios do piso térreo de um palácio, o qual foi habitado até ao terramoto de 1755. Como se denominava?
R: Palácio dos condes de Santiago
P4 – Na zona da exposição permanente encontram-se vários painéis temáticos. Num deles referem-se os dois tipos de moeda batida em prata em circulação na cidade. Como se denominavam?
R: Dihrames e Quilates
P5 – Num outro daqueles painéis alude-se ao formato das telhas de cerâmica. Qual era?
R: Canudo
P6 – Que porta da zona do castelo possui escudo e esfera armilar no topo?
R: Espírito Santo
P7 – Como se designa a cerca que na segunda metade do século XIV veio reconstruir e reaproveitar a Torre de S. Pedro da cerca moura?
R: Cerca Fernandina
P8 – Que unidade hoteleira se encontra hoje construída no local onde existiu o Palácio dos condes de Coculim?
R: Eurostars
TEMÁTICA
P101 – Que parte da cerca era denominada por qhâsaba?
R: Alcáçova
P102 – Como passou a denominar-se a Porta do Ferro a partir do reinado de D. Manuel I?
R: Arco de Nossa Senhora da Consolação
P103 – Como se chamava o arcebispo de Braga que, a 30 de Junho de 1147, parlamentou com os mouros a entrega da cidade de Lisboa?
R: João Peculiar
P104 – Que formato tinha a Porta da Alfofa?
R: Cotovelo
P105 – Que monumentos ocupam hoje os locais onde foram erigidas as capelas para enterrar os cruzados ingleses e germânicos?
R: Basílica dos Mártires e Convento S. Vicente de Fora
P106 – Que tipo de cruz se encontra sobre uma das janelas da torre moura do palácio Azurara?
R: Cruz pátea
P107 – Em que dia do mês de Outubro do ano de 1147 fizeram os cruzados germanos ruir parte da muralha oriental da cidade?
R: 16 de Outubro
P108 – Que elementos arquitectónicos são visíveis no palácio do pátio da Srª de Murça, construído sobre a muralha da cerca no século XVI?
R: Cachorros e arcos
P109 – Que monarca mandou fazer o encanamento do Chafariz D'El-Rei até ao mar para abastecimento de água potável aos batéis ancorados?
R: D. João II
P110 – Onde ficava o condado de Coculim, região do extinto império português?
R: Índia
Questionário C
À DESCOBERTA DA CERCA MOURA
OBSERVAÇÃO
P1 – Quantas bocas de fogo se acumulam nas zonas da Praça de Armas e Passeio da área do castelo?
R: 10
P2 – No sítio arqueológico existem vestígios de habitações que se sobrepuseram entre a época islâmica e o século XVIII. Que construção existiu ali entre os séculos XII e XV?
R: Paço Episcopal
P3 – No átrio da zona da exposição permanente encontra-se um painel alusivo à Lisboa seiscentista. Nele faz-se menção a uma Casa dedicada à administração dos territórios portugueses de além-mar, bem como à organização do comércio e navegação. Como se chamava?
R: Casa da Índia
P4 – Na zona da exposição permanente encontram-se vários painéis temáticos. Num deles refere-se a palavra usada pelos muçulmanos para azeite. Transcreve-a para aqui.
R: al-Zait
P5 –Num outro painel alude-se a dois tipos de luminárias que se usavam em palácios, mesquitas e habitações. A quais se refere?
R: Lamparinas e Candis
P6 – Que porta da zona do castelo possui escudo e coroa no topo?
R: Porta de Santa Cruz
P7 – O Senado de Lisboa viu-se obrigado a estipular destinatário para cada uma das bicas do Chafariz D'El-Rei. Indica um desses grupos de população que àquele podia aceder.
R: Negros forros; mouros das galés etc
P8 – No painel 14 faz-se referência à actual Rua das Canastas. Como se chamou a via no passado?
R: Rua da Almargem
TEMÁTICA
P101 – Quais as designações das três torres couraça existentes na cerca moura?
R: Escrevaninha, S. Pedro e S. Lourenço
P102 – A quem era dedicada a capela que existiu até ao terramoto de 1755 sob o arco da antiga Porta do Ferro?
R: Nossa Senhora da Consolação
P103 – Como denominavam os muçulmanos a Porta da Alfofa?
R: Porta do Postigo
P104 – Que monarca instalou um Paço Real na alcáçova mourisca?
R: D. João I
P105 – Como se chamam as duas portas viradas a norte existentes na esplanada do castelo junto à estação arqueológica?
R: Portas do Norte e de Martim Moniz
P106 – Quantos côvados possuía a brecha aberta pelos cruzados germânicos na muralha oriental?
R: 30
P107– No Pátio da Srª de Murça foi, no século XVI, construído um palácio sobre a muralha. Qual o seu estilo arquitectónico ?
R: Manuelino
P108 – Que tipo de população viveu na zona do Postigo de S. Pedro entre os séculos XIV e XV?
R: Judeus
P109 – Como se denominavam as vias romanas que cruzavam o sentido norte/sul de uma cidade?
R: Kardo
P110 – Em que dia do mês de Outubro do ano de 1147 se deu o assalto final à cidade de Lisboa?
R: 21
(Continua)
Iniciamos aqui um conjunto de quatro inserções relativas à visita que promovemos à cerca moura de Lisboa e à sua relação com a conquista da cidade em 1147.
Um dia em cheio que aprofundou em muitos os conhecimento da História; que nos fez orgulhar da nossa lusitanidade; que nos permitiu brincar enaltecendo a língua materna; que alastrou às famílias a relação que até aqui passava somente pelas crianças. Um dia, obviamente, cansativo. Prò ano há mais... em Aljubarrota ou noutro lado, assim o queiramos todos.
Vamos às imagens com as quais pocurámos promover a imaginação dos participantes, algo sempre necessário quando se pretende reviver espaços que de há muito deixaram de existir.
Imagem 1
Aspecto da cidade de Lisboa à época de 1147 vista de ocidente:

Imagem 2
Contornos da cerca moura:

Imagem 3
A Olisipo romana no século I:

Imagem 4
Lisboa e o esteiro do rio Tejo:

Imagem 5
Posicionamento dos exércitos:

Imagem 6
Combates de Outubro:

Imagem 7
Assalto final:

(Continua)
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