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Projecto pioneiro de colaboração com a Biblioteca Municipal de Cascais, destinado a contar a História da Ibéria a crianças. Os contos são apresentados sob a forma de narrativas originais ou adaptadas do nosso património histórico-cultural.

Afonso Henriques terá nascido entre 1109 e finais de Julho de 1111; Lourenço Viegas, uns meses antes, não muitos; Afonso Viegas, outros tantos após, nada por aí além; Mem Viegas, para cima de ano e meio mais tarde O primeiro era filho de Teresa de Leão, herdeira do condado portucalense por ser filha de Afonso VI, e do conde D. Henrique, desde 1096 governante do território em nome da mulher, sujeito a vassalagem ao sogro. Os restantes três meninos representavam a prole de Dórdia Pais de Azevedo e Egas Moniz, um rico e poderoso nobre, descendente dos “Gascos”, senhor das terras de Ribadouro, na região de Entre Douro e Minho, o qual, pela sua importância, rapidamente seria elevado ao cargo de aio, educador do herdeiro do condado.
O grandioso baptizado de Afonso Henriques ocorreu na igreja de S. Miguel, contígua ao castelo e paço de Guimarães; os dos irmãos Viegas, porventura menos exuberantes, no mosteiro do Salvador de Paço de Sousa, local que, ao tempo, servia de panteão à família dos Ribadouro.
Henrique faleceu em 1112, em Astorga, deixando a Teresa a governação da terra e os cuidados com os filhos. Grandiosa era a tarefa da infanta e mãe que, apesar dos apoios que tão importante dama desfrutava, dilacerava-se com a enfermidade do pequeno Afonso. É que o menino nascera “tolheito” das pernas, doença que só foi entendida na sua plenitude aos três anos de idade, quando já todo o séquito real desesperava por o aleijado, perdão, o herdeiro, não começar a andar como qualquer outra criança.
Por volta dos cinco anos, já só parecia possível esperar um qualquer milagre. O menino não tinha forças nas pernas para se manter de pé e, por tal, amparava-se em duas muletas.
– Que progressos opera meu filho? – questionava Teresa o aio, aparentando de há muito haver-se conformado com as deficiências do pequenote.
– Poucas, senhora, poucas, não obstante todo o esforço de cinco anos gastos a tentar exercitar físico e espírito tão débeis – lamentava-se Egas Moniz.
– Queres dizer que devo perder toda a esperança?
O nobre evitou responder directamente à questão posta pela infanta:
– Senhora, sabei que haverá em terras de Resende, ali bem junto a Lamego, na margem sul do Douro, local onde possuo um couto, quem garanta que a Virgem opera milagres aos que nela confiam.
– E que dúvidas se podem ter da minha devoção? – replicou Teresa.
– De vosso credo, nenhuma, porém, sabemos todos como o povo é com esta coisa da cura das maleitas, invocando santos e santas por dá aquela palha.
– Mas Egas, se não acreditais na veracidade dos relatos que supostamente ouvistes, porque vindes dilacerar o coração de uma mãe a quem Deus deixou as filhas e levou os filhos, legando-me não mais que um aleijado. Como poderá o Afonso defender as terras que meu pai me entregou, protegê-las da gula de cristãos e mouros?
– É que... é que...
– É que o quê? Falai, Egas, que me estais a enervar.
– É que... é que foi um sonho que me anda a perseguir há sete noites consecutivas.
– Queres dizer que a origem desta conversa não são tagarelices duns quaisquer camponeses, antes supostas premonições saídas de vossa tarimba?
– Assim o podeis dizer, senhora, mas escutai-me: sabeis quanto quero a nosso menino, quais os sonhos que acalentamos, eu e os restantes nobres, de vermos esta terra independente. Foi isso o que Santa Maria me disse: que não precisaríamos de esperar muito mais, que nascido era já aquele que terá trono nas terras de oeste onde até hoje só condes governaram.
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.
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