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Projecto pioneiro de colaboração com a Biblioteca Municipal de Cascais, destinado a contar a História da Ibéria a crianças. Os contos são apresentados sob a forma de narrativas originais ou adaptadas do nosso património histórico-cultural.

Abu Abd Allah Muhammad ibn Ali, al-Hasan az-Zughbî, Boabdil o desventurado, El Chico para os castelhanos, foi filho do sultão Muley Hacén e de sua esposa Aixa, tendo nascido por volta de 1460, em Granada. Liderou o reino por duas vezes, a primeira entre 1482 e 1483; a segunda, em versão reduzida, pois nunca controlou toda aquela área, sucedendo ao tio, El Zagal, a partir de 1489, apoiado claramente nos mais tarde denominados Reis Católicos, Fernando e Isabel. Muhammad XII seria o título com o qual Boabdil ficaria para a história como o último rei nazari de Granada.
Em Fez, na actual Marrocos, onde desempenhava o cargo de conselheiro do sultão Muley El Idrisi, Boabdil não se livrara de escutar alguns comentários jocosos:
– Olha o chefe dos cristãos de Castela.
Estava-se em 1494 e assim eram tratados entre os muçulmanos africanos aqueles que com o antigo rei de Granada ali haviam arribado, no que ficava claro, chiste à parte, que um homem pertence onde nasce e a mais nenhum outro lugar.
Boabdil viera até aos arrabaldes da cidade, como tinha por hábito fazer, desde que ali chegara no ano anterior. Gostava de meditar no que fora e deixara de ser, no que o destino lhe traçara. Por aquele tempo perdera filho e esposa, que haviam entretanto morrido e deixados na terra que os vira nascer, enterrados na La Rauda, o ex-Cemitério Real do Alhambra, que ele próprio ordenara que se trasladasse com os túmulos dos restos mortais dos ilustres lideres nazaris para Mondújar.
Ultimamente tornara-se algo questionador, faceta bem oposta à submissão de que tantos em Granada o haviam acusado.
– Como é possível ter perdido o reino que os meus antepassados conquistaram, no qual reinámos para cima de 250 anos? – perguntava-se em solilóquio, certo de ninguém o escutar.
Pela mente passou-lhe a imagem de Muhammad I com a sua barba avermelhada, iniciador da dinastia nazari, pequeno rei de taifa que tivera a ousadia de propor a Fernando III de Castela, em Jaén, corria o ano de 1246, um pacto de tal forma astuto que por tanto tempo permitira a sobrevivência do último reduto muçulmano do Al-Andaluz.
– Fomos os construtores do Alhambra, palácios, jardins, fontes. Que têm os infiéis que se lhe iguale em beleza? A sua capacidade construtiva não passa de mosteiros frios e desconfortáveis. – E a Peste Negra, a qual rapidamente percebemos como combater, enquanto os cristãos morriam aos milhares contaminando-se uns aos outros enfiados dentro das igrejas?
E continuava:
– É certo que também nos cabem culpas, sobretudo as decorrentes das nossas divisões internas… só no castelo de Salobreña estiveram presos cinco sultões... mas o pior foi o estado quase permanente de guerra civil entre os nobres abencerragens e zegries; a perda do controlo do estreito de Gibraltar, na batalha do Salado, que nos isolou do norte de África; a derrota em Antequera, em 1410; aquela espécie de monarquia dual em 1445. Na verdade, só em 1464, com a chegada do meu pai ao trono, foi possível controlar as revoltas dos abencerragens.
Boabdil estendia a mão para o horizonte, como se quisesse apagar o passado.
– Até à entronização de Fernando e Isabel, pensávamos que, enquanto reino tributário, encaixássemos na harmonia dos reinos cristãos peninsulares. Nem sempre pagámos as párias acordadas, mas as armas castelhanas aí estavam para nos lembrarem que estávamos em falta. Claro que ripostámos sempre que nos sentimos fortes, sobretudo em momentos em que os infiéis lutavam entre si. O novo modo de entender a questão do reino partilhada pelos monarcas e pela nobreza indiciava que a atitude dos cristãos ia mudar. A investida militar era, sobretudo, de carácter religioso. Os reis católicos introduziram a Inquisição e apoiaram o anti-semitismo enquanto braços espirituais do movimento tendente à unidade confessional do território.
Por muito que o balanço fosse do tipo generalista, Boabdil não escapava à própria consciência que o forçava a também analisar a sua contribuição no descalabro nazari:
– Sicário ao serviço dos cristãos me chamaram. Terei mesmo sido? E colaborador das vinganças de minha mãe? Tenho de admitir que também serviram os meus propósitos. Seguro é que fui vilipendiado pelos meus súbditos e apoiado pelos inimigos, o que me aproxima do estatuto de marioneta e traidor. Contudo, pergunto: quem, sendo feito prisioneiro, não cede a tudo para recuperar a liberdade?
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.
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