Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Conto VIII - "O Rio do Esquecimento"

por Eduardo Gomes, em 12.11.17

 

1.jpg

 

Depois do assassinato de Viriato, em Arce, Táutalo foi eleito chefe dos lusitanos, tendo prometido ao seu exército vingar a morte daquele. Assumindo que os assassinos eram naturais de Urso, a represália foi dirigida contra essa cidade. O exército do cônsul Quinto Servílio Cipião seguira-lhe os passos, ofereceu-lhe combate e encurralou-o junto ao Guadalquivir, empurrando-o através da margem esquerda do rio até perto da foz, onde Táutalo, falho do génio militar de Viriato, se viu obrigado a render-se.

Apesar de tudo, Cipião mostrou-se generoso para com os lusitanos (problemas de consciência teria), prometendo-lhes um território e uma cidade onde pudessem viver sem necessidade de efectuarem campanhas de pilhagem pela vizinhança, desde que jurassem a submissão a Roma e aceitassem participar na missão de pacificar a Lusitânia.

Por essa ocasião, Cipião foi substituído no governo da Hispânia Ulterior por Décimo Junío Bruto, o qual trazia ideias próprias quanto ao modo de honrar o tratado firmado com Táutalo.

– Vou-vos conceder o estatuto de aliados do povo romano. Vão combater ao lado do meu exército que vai submeter a Lusitânia.

– Mas nós somos lusitanos: queres que ataquemos o nosso próprio povo? – responderam Táutalo e Adrúbal.

– Não necessariamente. Queremos que vocês honrem o tratado que assinaram e convençam os vossos amigos a descerem das montanhas e a viverem nos vales sujeitos às leis de Roma.

– Vamos atacar as cidades – denunciou Bruto, para logo ser questionado por Táutalo:

– Mas aí só estarão as mulheres e as crianças. Os homens esconder-se-ão nas montanhas.

– Estarão as mulheres, as crianças, os túmulos e os templos sagrados. O nosso ataque fará com que os homens venham protegê-los, sem termos de ir lutar com eles nas montanhas.

 

O novo cônsul reuniu um exército de 15 000 homens, cuja missão era ampliar para norte e noroeste a área de controlo militar romana na Península Ibérica, algo que deveria ser executado em consonância com o governador da Citerior.

Bruto sabia que os lusitanos se recolheriam nos montes Hermínios logo que detectassem a aproximação do inimigo. O romano enviou Táutalo e Asdrúbal às montanhas para convencerem os resistentes a aceitarem a proposta de obediência. Tentativa falhada, Bruto atacou e conquistou cerca de 30 urbes, numa estranha luta que não só opunha romanos a lusitanos, mas também lusitanos a lusitanos. Vitorioso, o cônsul exigiu o reconhecimento do poder de Roma. Assumida a nova potência administrante, o povo foi convidado a voltar a viver nas suas terras.

Nem todos os habitantes da Lusitânia se submeteram aos novos senhores, havendo quem tivesse fugido para as regiões montanhosas a norte do Tejo, mantendo acesa a chama da independência. Muitos destes não hesitaram em juntar-se aos celtiberos, que suportavam, havia vários anos, guerra em Numância contra o governador da Citerior.

Conquistada a Lusitânia, Bruto mandou que a esquadra que por mar o acompanhava fornecendo apoio em mantimentos e equipamentos, seguisse para norte, até ao rio Douro, fronteira histórica entre a Lusitânia e a Galaecia (Galiza). Ali, no dia 9 de Junho do ano 137, encontraria os galaicos, que haviam cruzado o rio em barcaças de couro, vindos em socorro dos lusitanos. Talvez Bruto não esperasse ter de combater, talvez quisesse repetir o que fizera na Lusitânia, exigir aos galaicos a obediência ao poder romano. Só que aqueles não pareciam estar pelos ajustes em deixar o exército romano penetrar no seu território.

– Se eles querem guerra, vamos a isso, matá-los-emos a todos – disse o cônsul. – Acaba por ser uma forma de aliviar o pretor da Citerior, que combate tribos de celtiberos, lusitanos e galaicos em Numância.

A batalha, ocorrida na margem esquerda do Douro, foi das mais sangrentas da conquista do ocidente peninsular. O plano do cônsul consistiu em ir forçando os galaicos a recuarem na direcção do litoral. Cercados, pereceram aqueles sob a pressão das armas romanas ou tragados pelas águas do Douro. No final, calcula-se que terão morrido 50 000 galegos, fora os 6 000 prisioneiros feitos.

 

As legiões romanas cruzaram, posteriormente, o rio para a margem norte. Não encontraram forças opositoras, posto que a maioria das tribos se tinha mobilizado para a batalha em que haviam perdido muitos dos seus membros. Se os homens não lhes metem medo, chamem-se os deuses, pensaram os poucos galaicos que haviam sobrevivido à chacina. Aconteceu que à chegada ao Lima os romanos depararam-se com notícias de que aquele era um rio dos infernos. O cruzar das suas águas provocaria o esquecimento das origens, das famílias, do passado, da pátria: no final, a todos esperaria a morte. Bruto achava estúpidas tais notícias, porém os seus legionários eram supersticiosos: recusaram-se terminantemente a cumprir as ordens de passar o curso de água. Foi necessário que o próprio cônsul, estandarte empunhado, montasse no cavalo que o levou à margem norte do Lima. De lá, pôs-se a chamar um a um, pelo nome, todos os soldados:

– Silvano... Cayo... Lucio... Quinto... Drusio – demonstrando ser falso o mito do esquecimento.

 

(Continua)

 

Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 00:00



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.



Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D