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Conto X: "Noites de Lua-Nova"

por Eduardo Gomes, em 14.01.18

lua-nova.jpg 

Chegara de mansinho o outono daquele ano de 1165. Yeborath fervilhava de actividade: cristãos moçárabes, não muitos ainda assim, procuravam comprador para a sua veniaga, alheios a credos que para ali não eram chamados. Bem mais seriam os maometanos, tantos de que se lhes perdia o conto, uns negociando aqui; outros comerciando mais além, aravia que aos ouvidos de um estrangeiro soaria a altercação. Conclusão errada, pois aquele era o modo porque as trocas se acordavam, e escarnecido pelos demais seria o que se recusasse a participar do ritual de oferecer e recusar, pegar e largar.

No terreiro exterior uma estranha figura se encapuzara, procurando passar despercebida, tiorba de trovador amparada pelo largo ombro, caminhando lentamente em direcção à torre de atalaia, como quem houvera cumprido o que à cidade o levara e dela se despedia com um até breve.

– Conhece aquele homem, meu pai? – perguntava Iasmin, a bela moura, que se chegara à guarita do torreão, quando, ao longe, do interior da cidade, a partir do altaneiro minarete que coroava os coruchéus da mesquita sagrada, emanava a voz do almocadém a chamar os fiéis à oração de fim de tarde.

– Mercador não será, e se de menestrel faz vida, nunca lhe ouvi acorde ou timbre da voz.

Iasmin e o pai zelavam pela guarda da atalaia construída sem portas para o exterior, fortaleza arredondada com uma única abertura a servir de vigia lá bem no alto, situada a noroeste da cidade. Ali viveriam até que o al-qadi os mandasse substituir, recebendo as vitualhas que consumiam através duma cesta que faziam descer e subir a partir da referida abertura. Como os demais mouros em qualquer lugar onde estivessem, também filha e pai se ajoelharam humildemente virados a leste, para Meca. Quando à janela voltou, Iasmin não viu nem sinais do homem que antes por ali passara.

– Já diante daí esteve por diversas vezes nos últimos dias – relembrou o pai da jovem, retomando a conversa antes interrompida.

– Mete-me medo, meu pai. Forasteiros assim nunca se sabe ao que vêm.

– É por isso mesmo que o governador aqui nos pôs; para que vigiemos o que se passa em redor, contudo, pareces-me algo nervosa. Troquemos os turnos: esta noite fico eu a guardar a chave da cidade. Vai tu dormir, minha filha.

 

A súbita mudança de rotina foi detectada a distância, na pequena elevação coroada de oliveiras que não longe dali se observava, local donde o suposto trovador vigiava o movimento da população da romana Liberitas Julia. Assim, pôde aquele observar o recolher nocturno dos habitantes, a forma manual com se fecharam as portas mais pequenas da fortaleza, aquelas cuja largura mal deixava passar três homens lado a lado ou um só por vez se a cavalo fosse. A grande, a mais imponente delas, só se abria em ocasiões festivas ou quando o governador ou mesmo o califa pernoitavam em Yeborath. A chave era então recolhida a partir da base da torre exterior por uma brigada de cavaleiros que ali se deslocava, procedendo de igual forma para a respectiva devolução, tudo feito com a maior das precauções e garantia prévia de que nenhuma emboscada lhes havia sido preparada. A segurança do sistema obedecia ao princípio muito antigo de impedir a traição perpetrada pelos habitantes a partir do interior das muralhas. A escolha de Iasmin e do pai fora feita em função da fidelidade que ambos dedicavam ao al-qadi, e, mais genericamente, a Alá.

 

– Quem vem lá? – perguntava a sentinela, à entrada da rude fortaleza recolhida entre arvoredo e rochas, que em tempos antigos fora um castro, local situado num dos contrafortes da Serra de Monfurado, a mais de 300 metros de altura. Dali se tinha ampla visão sobre Yeborath, ainda que ao longe, como convinha a quem não queria ser detectado e na serra se escondia. A razão da ansiedade do vigia ao sentir o som dos passos daquele que se aproximava tinha razão de ser: é que por ali não circulava só aquele bando de malfeitores foragidos à justiça de Afonso Henriques. Também pela serra se escondiam outros grupos de assassinos ou simplesmente ladrões, cristãos ou muçulmanos, homens que, em muitos casos, se haviam cansado da vida de lavradores, da devassa que fossados e razias dos contendores peninsulares lhes provocavam nas colheitas.

– Quem julgas tu que a meu castelo se atreveria a subir? – respondeu aquele que estava a chegar, o chefe do bando, Giraldo Geraldes, conhecido por “O Sem Pavor”, nome que só por si fazia tremer os sarracenos de além do Tejo.

Giraldo rapidamente fez reunir os cerca de trezentos homens que liderava:

– Quando entra a lua-nova? – perguntou a Fernão Anes, um dos seus mais fiéis cavaleiros e arqueiro de se lhe tirar o chapéu.

– Dentro de dois dias aí a teremos, e, pelo tamanho do minguante, nem a boca do Feioso conseguiremos ver à nossa frente – disse, apontando para o atingido, expressão que logo fez rir os companheiros e amuar o pobre que tinha nascido com a boca torta, inclinada à direita e alinhada com o nariz pencudo.

– Deixa-te de graças que isto é coisa séria – corrigiu Giraldo. – E cordas, temo-las suficientes?

– Dá para fazer meia dúzia de escadas fortes, capazes de suportarem três a quatro homens– respondeu Fernão.

– Não chegam, vamos necessitar do dobro. A cidade é grande, precisaremos de escalar as muralhas em vários locais de maneira a impedir a mourama de se organizar. Atacaremos daqui por três dias – sentenciou Giraldo.

Fernão e os demais ficaram surpreendidos: se o ponto máximo da escuridão se dava dali a 48 horas, porque o chefe anunciava o assalto somente para o terceiro dia?

– O velho mouro anda desconfiado, trocou o turno com a filha. Para termos a certeza de que é ela quem estará de vigia, melhor será corrigirmos a data do ataque. Velhos dormem mal; já em contrapartida os jovens quando pegam no sono não há quem os faça acordar.

 

(Continua)

 

Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

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