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Projecto pioneiro de colaboração com a Biblioteca Municipal de Cascais, destinado a contar a História da Ibéria a crianças. Os contos são apresentados sob a forma de narrativas originais ou adaptadas do nosso património histórico-cultural.

TEMÁTICA: A RECONQUISTA NO ALÉM TEJO
Em 1156 Afonso Henriques operou uma incursão no interior do Alentejo, conquistando as cidades de Beja e Évora, após mais de quatro séculos daquelas em posse dos árabes. Supõe-se que rapidamente haja a primeira sido abandonada, e a segunda retomada pelos muçulmanos em 1161, quando forças almóadas acorreram do interior do Al-Andaluz e desbaratam as tropas portuguesas. Ainda assim, logo no ano seguinte – segundo relato de Abd al-Malik ben Sahib Asala, cronista árabe, provavelmente nascido em Beja –, na noite de sábado, 1 de dezembro de 1162, um grupo de cavaleiros-vilões ao serviço do rei de Portugal, assaltou repentinamente a antiga Pax Julia romana, sob o comando de Fernando Gonçalves, filho do alcaide de Coimbra, podendo parte dos atacantes serem naturais de Santarém. Sol de pouca dura seria, pois, quatro meses e oito dias mais tarde foi a cidade abandonada pelos cristãos, desmanteladas as suas fortificações e despovoada.
O passo seguinte da Reconquista ocorreu em 1165, com a tomada de Yeborath, a Évora dos nossos dias. O nome de Giraldo Geraldes aparece ligado ao feito, posto ser obra sua o plano e o assalto à cidade que a traria definitivamente para mãos cristãs. É crível que Giraldo se encontrasse já antes entre os assaltantes de Beja, não sendo de descurar também a possibilidade de haver nascido moçárabe no seio da sociedade islâmica. O espaço territorial onde se moveu, leva-nos a supor que conhecia profundamente os costumes e língua árabe.
A criação e elaboração da versão mítica em volta do “herói nacional”, propõe que Giraldo pudesse ter sido um nobre português caído em desgraça junto de Afonso Henriques, e por ele exilado, algo bem mais honroso do que o classificar como foragido à justiça real. Em linha com aquela visão vai a teoria de que terá vivido no Vale do rio Bestança, na localidade de Vila Chã, e por tal, aproveitado para se refugiar da perseguição de Afonso Henriques nas fragas da Penavilheira. É difícil destrinçar a dupla faceta duma personagem que protagonizou um feito extraordinário, e, em consequência do mesmo, foi revestido da condição heróica face a uma realidade que lançava as maiores dúvidas sobre o carácter da pessoa em causa. Capacidade de liderança natural teria para que, em terras fronteiriças, dele se dissesse: “a ele se juntavam todos os proscritos e malfeitores que passavam a integrar a sua mesnada, e como mantinha tréguas com os muçulmanos dedicavam-se a razias em território cristão, sendo por isso apodados de ladrões.”
Terá Giraldo assumido que a deslocação da fronteira do reino para sul, isto é, para perto da sua área de actuação, promovida por Afonso I com as conquistas de Lisboa, Palmela e Alcácer, lhe aumentaria a possibilidade de alcançar o perdão real, se compensada com a luta pelo lado cristão? Terá a conquista de Évora correspondido a uma actuação do bandoleiro ao serviço do rei ou por conta própria? E, neste último caso, a entrega das chaves da cidade a Afonso serviu de moeda de troca ou pagamento no âmbito de um qualquer tipo de acordo ou vassalagem? A actuação de Giraldo nos anos posteriores à conquista de Évora revela-nos um “senhor de fronteira” em busca de “território próprio” ou um simples mercenário a soldo de quem melhor lhe pagasse? Dúvidas por esclarecer.
Faça-se um parêntesis para esclarecer a visão de Afonso relativa à reconquista territorial.
Évora foi subtraída definitivamente ao poder muçulmano em 1165. Contudo, a urbe manteve ainda, durante quase um século, o seu estatuto de cidade de fronteira, inserida numa área de primordial importância militar, palco de constantes conflitos entre as forças muçulmanas e cristãs, ainda que beneficiada pelo seu papel de grande entreposto comercial. A necessidade sentida pelo primeiro monarca de assegurar a defesa do território conquistado a sul do Mondego, e, sobretudo em todo o vasto além Tejo, e prosseguir e consolidar os avanços cristãos sobre o Islão, levá-lo-á a incentivar a implantação nesta região de diversas ordens religiosas militares. Ao apoio facultado por estas milícias, a realeza responderá com importantes concessões patrimoniais e diversificados benefícios senhoriais. O caso de Évora é paradigmático: apesar de as tentativas de Afonso Henriques em associar a Ordem do Templo à defesa da urbe alentejana, doando-lhe diversas casas no interior da cidade, o monarca acabaria por confiar tal encargo a uma nova milícia por ele criada (em 1175 ou 1176), dita dos freires de Évora, cuja essência poderá ter assentado numa anterior confraria de cavaleiros aí existente. A importância estratégica da cidade levaria Afonso Henriques a entregar o comando desta milícia ao governador militar de Lisboa e da Estremadura, Gonçalo Viegas de Lanhoso, a quem, de igual modo, confiaria, logo a seguir, em 1176, a defesa de Coruche.
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.
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