Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Projecto pioneiro de colaboração com a Biblioteca Municipal de Cascais, destinado a contar a História da Ibéria a crianças. Os contos são apresentados sob a forma de narrativas originais ou adaptadas do nosso património histórico-cultural.

Dinis Afonso nasceu em 1261. Aos 16 anos, já maior de idade, teve uma conversa com o rei, seu pai:
– Gostaria de ir conhecer as cortes de França.
Afonso III havia vivido e servido o monarca francês, enquanto conde de Bolonha, pelo seu primeiro matrimónio com a condessa titular, Matilde II. O pedido do filho mais velho pareceu-lhe normal atendendo à curiosidade intelectual que Dinis vinha manifestando:
– Acho bem que vás conhecer alguma coisa do mundo que fica para lá da Península Ibérica, quiçá até a Borgonha, raiz da nossa dinastia. Leva contigo aios e escolta a condizer com a tua posição de herdeiro do trono de Portugal.
– Estava a pensar levar só o Lourenço... D. Nuno está velho para tais andanças.
– Mas é sensato, e, ademais, não me parece bonito que desprezes o meu meirinho-mor.
– E não desprezo... de todo que o não faço. Conto até com ele para me servir como mordomo-mor quando for rei... mas para viajar é que...
O rei não estava para grandes discussões e logo deu por encerrada a conversa:
– Pois se tanto confias nele, não há razão para não o levares contigo.
Como qualquer pai, Afonso tinha um grande carinho por todos os filhos, mais a mais por aquele, a quem tinha sido administrada educação esmerada para um dia vir a reinar. Contudo, a juventude necessita da experiência dos mais velhos para não cometer erros. Nuno Martins de Chacim era um Rico-homem, grau mais elevado da nobreza, embora, à ocasião, já as cãs se lhe notassem, pois havia entretanto passado dos sessenta anos. Por seu turno, Lourenço Gonçalves Magro, bem mais novo do que aquele, fidalgo também de elevada estirpe, descendente de Egas Moniz, havia sido o encarregado da educação de Dinis. O que Afonso III não sabia era que a curiosidade do filho se dirigia para as Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, mais conhecidos pelos Templários. Para tanto interesse, muito havia contribuído frei Beltrão de Valverde, mestre templário em Portugal, que havia instigado o infante a ir conhecer em detalhe a enigmática cavalaria.
Dinis partiu para França, e, logo à chegada ao castelo de Gisors, foi recebido por Guillaume, senhor da localidade. O francês tentou explicar ao infante as origens da Ordem:
– A fundação da Ordem deve-se à insistência de São Bernardo, primo de Afonso Henriques, em convencer os nove originais confrades de Cluni, todos irmãos de armas, a irem a Jerusalém, em 1118, para fundarem uma Milícia de Cavaleiros-Monges, que, por gentileza de Balduíno II, sicou sediada no que restava do primitivo Templo de Salomão...
Porém, logo Dinis interrompia:
– Sim, sim, isso já eu sabia. O que eu queria era...
O infante não conseguiu prosseguir, pois, Nuno Chacim simulou tossir, o que foi entendido que Dinis poderia estar a ser indelicado com o seu anfitrião, que aproveitou para continuar o que antes iniciara:
– O fundador da Ordem dos Cavaleiros do Templo foi Hugo de Payens; a missão oficial era a de proteger os caminhos de peregrinação da Cristandade nas estradas que levavam a Jerusalém.
– Oficial? Que quer isso dizer? Que os Templários possuíam outro objectivo? – Dinis sabia perfeitamente onde queria chegar. Guillaume sentiu que tinha de aprofundar o esclarecimento do que afirmara:
– Existem entre nós e os Templários algumas diferenças de opinião quanto a esse tema.
– Continuai! – Ordenava o infante, satisfeito por ver o rumo que a conversa levava – e não vos esqueçais de explicar quem são esses “nós” de que falastes.
O senhor de Gisors percebeu que, apesar de jovem ainda, o português recebera uma boa educação e daí tanta curiosidade.
– Logo a seguir à Primeira Cruzada, em 1099, um conjunto de cavaleiros fundou uma Ordem secreta em Jerusalém, no local onde acreditamos que se celebrou a Última Ceia de Cristo.
Lourenço ficou algo nervoso com a explicação que acabara de escutar. O educador do infante era um homem muito culto, e bem sabia onde Guillaume queria chegar.
Por tal, decidiu interromper, dirigindo-se directamente a Dinis:
– Vossa Alteza deverá saber que não existem Ordens secretas, e tudo o que Guillaume disser daqui para a frente carece de provas.
– Lourenço, és um chato. Vim de tão longe aqui para saber o que em Portugal ninguém ousa discutir... e não te preocupes, pois bem sei que não há certezas dessa tal organização secreta. Continue, senhor de Gisors!
– Os cavaleiros de que falei não podiam pedir a legalização da Ordem, pelo simples motivo de que se opunham aos desígnios do papa. Têm por objectivo a protecção da descendência de Jesus Cristo, que passou pelos reis da dinastia merovíngia.
Porém, logo Dinis replicou:
– De que raio falais? Da descendência de Jesus Cristo?
– Sabei que sim, que Cristo era descendente do rei David de Israel, e que, com Maria Madalena deixaram descendência que a Igreja Católica e os poderosos nobres que governam França pretendem liquidar.
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.