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TEMÁTICA: D. DINIS E A EXTINÇÃO DA ORDEM DO TEMPLO

 

Dinis ascendeu ao trono ainda jovem, com a idade de 17 anos, embora, logo a partir do meio do ano anterior – 1278 – exercesse de facto o poder em nome do pai, já então bastante doente. Na sua formação cultural muito influíram os sacerdotes Emérico d' Ébrard e Domingos Jardo, para além do avô, o monarca castelhano Afonso X, cognominado, com alguma razão, de O Sábio. Os reais aios foram Lourenço Gonçalves Magro, um terceiro neto de Egas Moniz, e Nuno Martins de Chacim, meirinho-mor do pai, Afonso III, encarregado pela justiça real desde 1264, um Rico-homem, que viria a ser mordomo-mor de Dinis entre 1279 e 1284.

Diversas fontes especulam acerca da possibilidade de Dinis ter efectuado, na companhia de alguns cavaleiros portugueses, uma viagem à Normandia, às cortes provençais onde os templários haviam fundado castelos, comendadorias e perceptorias, em locais como Caubedec em Caux, Valcanville, La Rabelle, Baugy, Courval, Louvagny, Voismer, Saint-Vicent-des-Bois, Saint Vaubourg ou Villedieu-la-Montagne, sem esquecer Gisors, aquela que mais focada é por quem defende a teoria da busca real se ter processado em direcção ao esoterismo templário.

A ser factual, não se conhece a razão para tal deslocação. Certamente que ao infante português terá sido exposta a igreja colegial de Gisors, notável na sua arquitectura, que, ao tempo, seria mais gótica e menos flamejante e renascentista do que se revestiria a partir do séculos XVI. O templo havia sido erguido no âmbito do projecto das confrarias de monges-construtores, e consagrado pelo papa Calixto II, em 1119, para, quatro anos volvidos, ser alvo de um incêndio que lhe devastou a nave. Efectuados os trabalhos de restauro na segunda metade do século XII, foi o coro gótico consagrado em 1249. Também o espírito curioso do infante se deve ter sentido recompensado ao verificar que nas catacumbas da igreja existia uma sala com a imagem de Santa Catarina do Monte Sinai, tanto quanto uma rede de túneis subterrâneos ligava o templo ao castelo de Gisors.

Seguindo os mesmos relatos, ali terá contactado Dinis com Guillaume, senhor de de Gisors. Não sendo límpido – e muito menos garantida a sua veracidade – o teor das conversações havidas, imagina-se que o francês tenha explicado ao real hóspede a essência duma organização secreta criada em 1099, na abadia de Santa Maria do Sião, construída sobre o cenábulo onde se crê que Jesus Cristo tenha reunido os apóstolos para a Última Ceia. Terá também o anfitrião referido a importância da tomada de consciência do grupo de cavaleiros que a Jerusalém se deslocou, liderados por Godfroi de Bouillon, ao contactarem com a guarda do Santo Sepulcro, vigilância feita por sacerdotes coptas, cujo entendimento e práticas cristãs assentavam no primitivo cristianismo, as quais em muito diferiam dos princípios praticados pelos cavaleiros europeus. Mais terão estes sido surpreendidos pela erudição e espiritualidade da cultura islâmica, pela importância do cumprimento dos preceitos de pureza que tal credo propunha. Em causa estava tão-só o entendimento da letra e espírito das escrituras sagradas: a crença ortodoxa, exotérica ou pública; em oposição à fé heterodoxa, esotérica ou privada. Na verdade, poderão os “apóstolos” das modernas e rebuscadas teorias acerca do chamado Priorado do Sião, estarem a “transferir” a prática e o por demais evidente e místico esoterismo templário para si próprios.

Entre 1158 e 1160 o castelo de Gisors esteve à guarda dos templários, enquanto penhora do casamento de Margarida de França e do filho do plantageneta Henrique II de Inglaterra. A partir daquela data, a região ficou sob domínio inglês, ao cuidado da Ordem do Templo. "Por aqueles tempos os cavaleiros do Templo (eram) parte reconhecida da legalidade política sujeita à (poderosa) ortodoxia eclesial (...)" Por conseguinte, não eram marginais aventureiros, arruaceiros e salteadores desafiando qualquer autoridade, tampouco santões, profetas e adivinhos por conta-própria: eram reconhecida Milícia Regular da Igreja composta por cavaleiros de nobreza universalmente reconhecida, logo, de acesso livre a qualquer trono, a qualquer corte, assim como a quaisquer paços episcopais, para não dizer, ao próprio Papa.

Seguindo a linha de orientação assinalada, Guillaume terá esclarecido o português acerca do sucedido em 1188, quando o seu avô, Jean de Gisors, vassalo do rei de Inglaterra ao tempo, ali estabeleceu as pazes com o rei de França, sob mediação dos templários, processo que ficaria conhecido por “pazes do olmo”. Certamente terá aludido à traição perpetrado pelo, ao tempo, grão-mestre dos Cavaleiros do Templo, Gerard de Ridefort, acontecimento que requer explicação a condizer. Ridefort havia chegado ao cargo de grão-mestre da Ordem do Templo no início de 1184, altura em que o reino de Jerusalém atravessava forte crise desencadeada pela doença de Balduíno V, o qual não possuía descendência. Os candidatos à sucessão eram Guy de Lusignan e o conde de Tripoli, Raimundo III. Outrora Ridefort solicitara a mão da filha do conde que lha recusou. Detentor do poder pelo cargo que recebera, o templário aliou-se a Lusignan. Saladino apercebeu-se da profunda divisão entre os cristãos e derrotou-os na batalha de Hattin, que lhe abriu caminho para Jerusalém. Visto por este prisma, não é límpido que não se esteja a confundir vingança pessoal com traição.

Já o denominado “corte do olmo” poderá não ter passado da separação de poderes e competências entre as confrarias de monges-construtores – pedreiros, arquitectos ou canteiros – e a Ordem do Templo. Talhadas na madeira e esculpidas na pedra, eram facilmente compreensíveis os sinais heterodoxos da doutrina esotérica dos templários que as confrarias haviam adoptado e legado ao futuro. Resulta daqui que ao promovermos uma qualquer espécie de ligação secreta (mesmo que somente até 1188) entre os Templários e o suposto Monastério ou Priorado do Sião, poderemos estar a confundir História com romantismo modernista.

 

(Continua)

 

Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

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