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A técnica de fiar a seda a partir do respectivo bicho foi mantida em segredo durante cerca de 3 000 anos pelos chineses. Logo que se compreendeu a utilidade da matéria-prima, rapidamente se procedu à sua negociação, que, através da conhecida Rota da Seda, atingia o ocidente por duas vias: a marítima e a terrestre.

Giovanni Marignolli, genovês, comandante da embarcação Madonna Mia, chegara a Cantão em princípios de 1345. Ali aguardou o carregamento de seda que de Chang'an receberia, conforme tinha por hábito e autorização de comércio dada pelo Khan mongol a si e a alguns conterrâneos. A mercadoria, saída da cidade localizada na China central, ainda teria de percorrer por terra cerca de 1 500 quilómetros até chegar ao mar da China. Marignolli podia haver poupado algum tempo se tivesse optado por atracar a embarcação na região de Calcutá, como alguns dos seus amigos tinham por uso, porém, face ao facto de o poder mongol não ser ali tão efectivo, sempre havia preferido rumar a leste. Ademais, nem sempre dava por perdido o tempo, pois basta vezes se deslocara à região de Java a comercializar mercadorias.

A viagem iniciada em Cantão, prosseguiu em direcção à Índia, com paragens em Cochim, Bombaim, onde procedeu à necessária aguada e carregou os últimos lotes de especiarias: pimenta, noz-moscada, gengibre, cravo etc.

Nem todos os capitães tocavam os mesmos portos. Muitos, chegados ao golfo de Adém, haviam, ao longo dos tempos, preferido rumar a Mogadíscio, o que enriquecera comerciantes e califa local.

À questão sobre os custos de tamanha expedição, recordavam os genoveses a importância dada na Europa por reis, nobres e clérigos abastados aos finos tecidos que comercializavam e às especiarias tão procuradas, razões que elevavam a mercadoria a preços cerca de cem vezes o seu valor original. A prata e a lã rapidamente se converteram em moeda de troca do ocidente, produtos com forte procura tanto na Índia como na China.

Nicola Conti, outro genovês, era sócio de Marignolli, ocupando-se das cargas logo que a mercadoria chegava ao Mediterrâneo. Navegava, como muitos dos compatriotas, a partir de Génova até ao delta do Nilo, Alexandria, Rosetta, Damietta ou Port Said. Recepcionada a carga que o sócio ali fizera chegar, numa operação que combinava terra e mar, ainda que guardada por algumas centenas de mercenários contratados em Adem que impediam os ataques piratas a bens e pessoas, os genoveses rumaram então a Constantinopla. Ali cruzaram o mar de Mármora e o Bósforo, para, através do mar Negro, atingir Caffa, porto comercial de enorme importância, onde chegava muita da seda que por terra se encaminhava de oriente para ocidente. Porém, o principal motivo para que a nau se desviasse da rota europeia que a traria, mais tarde, à Ibéria e países do Atlântico norte, eram os escravos que na fortaleza se transaccionavam.

O ano de 1346 entrara já quando os genoveses ali chegaram. Um mensageiro do alcaide parecia aguardá-los no porto.

– Giovanni, Nicola, como estais? – e sem sequer lhes dar tempo a responder à cortesia, continuou o estafeta. – É importante que vós e a vossa tripulação se recolham de imediato no castelo.

– Que se passa? – perguntou Nicola

– Temos notícias seguras de que o Khan Jani Berg está aqui bem perto a preparar-se para montar um cerco à cidade.

– Mas Caffa tem um acordo de paz com o Mongol para que aqui possamos comerciar – respondeu, surpreso, Marignolli.

– O Khan não aceita que nós, genoveses, tenhamos o monopólio do negócio dos escravos. E por isso nos quer destruir – informou o mensageiro do alcaide.

As tentativas de assalto mongol à fortaleza de Caffa começaram de imediato. O Khan ficou surpreendido quando viu que alguns dos seus soldados adoeciam sem razão:

– Que se passa? – perguntou aos físicos.

– Não sabemos ao certo, talvez precisemos de mais alguns dias. Contudo, tanto quanto temos sido informados, há gente a morrer nas planícies da Ásia Central, lugares por onde o exército passou antes de aqui chegar.

– Crêem que... – insinuou o Khan, tendo obtido pronta resposta.

– Sem dúvida. É uma forma de peste. O problema é que não entendemos como se propaga.

– Mas sei eu. Querem ver? Sigam-me.

Encerrados nas muralhas da cidade, os genoveses atribuíam a doença no acampamento mongol à justiça divina, sinal de que Deus estava do lado dos cristãos. O pior foi quando, incrédulos, começaram a assistir às catapultas que os mongóis construíam. E mais estupefactos ficaram ao ver as máquinas de lançamento carregadas de corpos de soldados mortos. A morte cruzou os céus, quando as “balas humanas” começaram a cair no terreiro dentro da fortaleza.

A curiosidade dos defensores levou a investigarem os cadáveres. Rapidamente se percebeu que estavam empestados.

– Atiremo-los ao mar, rápido – gritava-se, quando, um a um, eram os corpos levados até às muralhas e deixados cair nos penhascos sobre o mar Negro.

– Já viste que o Khan está a levantar o cerco?

– Resta saber quanto nos vai custar tudo isto – insinuou Conti.

– A que te referes, que não te entendo? -- questionou Marignolli.

– Ao facto de havermos mexido e estado em contacto com a peste. Podemos estar todos contagiados. Melhor será que fujamos daqui de imediato.

 

(Continua)

 

Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

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