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Conto XIII: "Um Rei Ga-Ga-Ga...Go"

por Eduardo Gomes, em 15.04.18

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No termo de Ariza, à beira da fronteira castelhano-aragonesa, um menino de cerca de dez anos observava o rebanho que levara a pastorear ainda a manhã mal despontara e se entoavam os louvores no mosteiro de S. Pedro Mártir. A cada assobio que emitia, correspondia Perrito, o pequeno cão-pastor, com mais uma corrida a corrigir algum desvio de rota a que ovelha mais curiosa se tivesse atrevido.

Paco, assim se chamava o menino, tinha por uso chegar os animais àquele lugar, um pouco mais para cá ou para lá, consoante lho exigia o rebanho sempre ávido dos rebentos mais tenros e viçosos que brotavam pela encosta do monte. Tanto palmilhava o pastor que não eram escassas as vezes em que se abeirava da estrada que de Medinaceli precedia. Assim foi o caso naquele dia que se adivinhava quente, corria para o final o Verão de 1360.

À medida que se foram aproximando do local eleito, o cão ia-se mostrando algo excitado, ladrando aqui, executando largas piruetas ali. O ouvido apurado do animal distinguia, ainda que ao longe, o trotar de um cavalo.

– Que se passa, Perrito? Queres brincadeira, é? Vai-me cuidar das ovelhas, cão vadio.

Mas o rafeiro não parecia estar pelos ajustes. Subitamente deixou de ouvir o barulho que antes detectara.

– Pára quieto!

O cachorro obedeceu de imediato, algo que até o próprio dono estranhou. Estancado, cauda apontada como se bandeira de cata-vento se tratasse, deu em mirar umas moitas, uma centena de metros mais abaixo, para logo disparar em louca correria.

– Não te metas no sendeiro. Daqui a nada estás em Castela.

Tal qual as gentes aragonesas, também o animal parecia nutrir uma particular aversão por tudo o que viesse de ocidente. E, por tal, muito se surpreendeu Paco com a insistência do cão, que, chegado ao objectivo, desatou furiosamente a ladrar. O menino achou por bem ir dar uma vista de olhos. Afastadas as ramagens que impediam o acesso, viu, pelo chão, inertes, um homem e um cavalo. Assustou-se, pegou no cajado em postura defensiva, primeiro; atacante, logo após; e vá de picar de mansinho e a distância segura besta e humano que se encontravam prostrados:

– Um está desmaiado; o outro, morto. Perrito, vai à feira chamar o pai. “Diz-lhe” que venha e traga a burra. Rápido!

Mal partira o cão, já o viajante parecia querer dar cobro de si:

– Aragão... Preciso de chegar a Aragão – murmurava tão baixo que só ouvidos de criança o haveriam escutado.

– Acalme-se, senhor, que está em terras do reino de Aragão. O cavalo é que... Diria que morreu de esgotamento. Co catano!, vossência deu-lhe cabo dos peitos.

O estranho fez menção de se levantar, todavia mais não almejou que tombar de novo sobre as silvas, ferindo-se num braço. E voltou a desmaiar. O pai do menino chegou um pouco antes da hora sexta. Rapidamente se apercebeu do sucedido:

– Que bizarria! Vestido de pedinte, mas olha-me os alforges – dizia enquanto abria uma das bolsas da sela do cavalo –, roupa fina, gabão de fidalgo, moedas em ouro.

– Mas já a montada... – insinuou Paco

– Vamos levá-lo para casa. Ajuda-me a pô-lo às costas da burra.

O menino deixou mandarete:

– Fica aqui a tomar conta do rebanho, Perrito. – E como o animal, rabo entre as pernas, aparentasse algum desacordo: – Não faças essa “cara”, que eu vou num pé e volto noutro.

Já na modesta choupana onde pai e filho habitavam, foi servido um caldo de borrego ao viajante que, logo após, estômago amparado, adormeceu.

– E nós melhor faríamos também em ir jantar – propôs Manuel ao filho.

 

(Continua)

 

Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

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