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Conto XIII: "Um Rei Ga-Ga-Ga...Go" - Factologia

por Eduardo Gomes, em 15.04.18

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TEMÁTICA: OS AMORES DE PEDRO E INÊS

 

Por el rey matar omnes, non llaman justiçiero, ca sería nombre falso: más propio es carnicero

 

Pedro Lopes de Ayala, castelhano, cronista real e coevo dos sucessos então ocorridos, redigiu a frase acima acerca de Pedro I de Castela. Fora português e podê-la-ia haver escrito acerca do tio daquele, o também primeiro Pedro na cronologia dos reis de Portugal.

Não cabe neste trabalho a análise do reinado do Cruel. Deixemos claro que o rei exibia a sua crueldade sob a capa da aplicação da justiça. A severidade do seu carácter alterado inclinava-o a ditar penas exageradas para castigos de delitos insignificantes. E isto não é justiça, como também não é do espírito justo (antes a sua formal negação) rir-se, folgar e comer enquanto as sentenças estavam sendo executadas: Tragam-me cebola e vinagre para comer o coelho em molho vilão, pediu, enquanto assistia à barbárie praticada sobre o conselheiro Pero Coelho.

 

Atentemos na forma e argumentos usados pelas várias fontes que, acerca dos amores de Pedro e Inês (tema do conto anexo), se têm confrontado nas áreas mais cinzentas da História.

 

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A QUESTÃO DO CASAMENTO

 

Em meados de Junho de 1360, a 14, em Cantanhede, e a 18, em Coimbra, Pedro declarou ao reino, por intermédio do mordomo-mor, João Afonso Telo, que se casara com Inês por uma ocasião em que estivera em Bragança: “Jurou aos Evangelhos, por ele corporalmente tangidos”. As testemunhas foram D. Gil Viana, então simples deão da Sé de Braga, que bem pronto seria elevado a bispo, e Estevão Lobato, mero serviçal do rei. A ocorrência teria acontecido, de acordo com o rei, uns sete anos antes, pouco mais ou menos, em mês e dia de que não me recordo. O clérigo alinhou pelo mesmo diapasão, no que demonstrava concordância absoluta com uma bizarra versão, ainda que afirmada enquanto testis qualifatus (declaração jurada do clérigo que pede e recebe o consentimento dos contraentes). Lobato foi o único que se recordava do dia: 1 de Janeiro (supostamente de 1354).

Outrossim afirmou Pedro que aguardara tanto tempo para fazer tal declaração por temer as retaliações do pai, Afonso IV. Embalado, o rei fez presente a bula de dispensa pontifícia que fora enviada ao reino em 18 de Fevereiro de 1325 pelo papa João XXII, na qual concedia dispensa para Pedro se casar com qualquer mulher nobre que fosse sua parente até determinado grau, o que envolveria o caso do compadrio com Inês.

Posto serem conhecidas as reacções violentas do monarca perante qualquer contrariedade, os presentes não se atreveram a colocar dúvidas sobre o tema. A muitos pareceu estranho que o rei se esquecesse da data do seu casamento. As incertezas cortesãs prolongavam-se à bula papal, posto ser de todos conhecido que a mesma fora emitida para permitir o primeiro casamento de Pedro com Branca de Castela. Dali decorreria que, ainda que o casamento se houvesse realizado, seria nulo, posto Pedro e Inês serem primos e compadres. Por último, também não se entendia porque, morto Afonso IV em Maio de 1357, Pedro tivesse esperado três anos para fazer a declaração que naquele momento tornava pública.

O já então monarca decidiu enviar a Avinhão uma embaixada presidida por Geraldo Esteves. Procurava, junto do papa Inocêncio VI, a outorgação e ratificação do seu casamento e, naturalmente, a legitimação dos filhos. Sem rodeios, recomendou por escrito aos seus: Fazei de guisa que hajaaes desembargo da dita confirmação de casamento, em guisa que os moços fiquem legítimos. E quanto é das duas pedidas não cureis d'ellas.

O Papa devia estar bem informado da incerteza do acto, pelo que respondeu: Rogamos a tua real clareza, com todo o bom desejo aconselhamos, que com paciência suportes nossas execuções, que nos demove e constrange usar do contrário do que tu suplicaste, porque a nossa pastoral officio quebrantar não pertence a lei de Christo, mas a ella nos chegar e não desviar de sua doutrina.

Acrescente-se que, mais tarde, também D. Fernando e João das Regras desmentiram a validade do enlace, sem com isso esquecermos que tinham ambos boas razões para o fazer. Já Fernão Lopes, apesar do melindre da posição que detinha e de quem lhe incumbira a tarefa, inclinou-se para a inexistência do casamente de Pedro e Inês, afirmando acerca dos depoimentos das testemunhas: Parecemdolhes seer muyto contra razom, para mais à frente concluir: Carrego ao que isto leer que destas opiniooens escolha qual quiser.

 

(Continua)

 

Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

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