Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]
Projecto pioneiro de colaboração com a Biblioteca Municipal de Cascais, destinado a contar a História da Ibéria a crianças. Os contos são apresentados sob a forma de narrativas originais ou adaptadas do nosso património histórico-cultural.

Em 1144 os muçulmanos retomaram a cidade de Edessa, localizada a sudeste de Anatólia, na actual Turquia, a qual, a partir da Primeira Cruzada, se constituíra num dos Reinos Latinos do Oriente. Agitou-se a cruz na longínqua Terra Santa, choveram pedidos de auxílio ao ocidente. Bem sabiam os cristãos da debilidade da localização da cidade, único território não mediterrânico, tanto quanto imaginavam a precária situação em que se encontrariam os Templários e Hospitalários na missão que lhes fora confiada de guardar o Santo Sepulcro numa cidade (Jerusalém) em vias de voltar ao controlo islâmico. O ataque islamita foi de imediato alvo duma chamada às armas por parte do papa Eugénio III, corria o ano de 1146. Logo Bernardo de Claraval encetou peregrinação pela França e Sacro Império, tentando persuadir realeza e nobreza a participarem naquela que ficaria conhecida pela Segunda Cruzada. Pronto Luís VII e Conrado III tomaram em mãos o símbolo do cristianismo: para leste, unidos pela cruz.
União contra o poderio mosleme, era predicado raro entre os príncipes feudatários do Reino Latino de Jerusalém. Algo de que também se podiam acusar os chefes dos exércitos expedicionários. Mas isso são contas de um outro rosário, histórias que excedem este conto. Viajemos então até Dartmouth, porto inglês, donde, a 23 de Maio de 1147, sexta-feira antes da Ascensão do Senhor, se fez à vela a frota de cerca de cento e setenta navios com 13 000 cruzados a bordo (assim o relata Roberto do Monte, coevo dos acontecimentos, no Apêndice à Cronografia de Sigeberto), a qual incluía normandos, ingleses, bretões e escoceses divididos em quatro grupos, debaixo das ordens de Herveu de Glanville, Simão de Dover, Sahério de Archelles e um tal de André de quem nada mais se conhece. Por outro lado, flamengos e bolonheses (Boulogne-sur-Mèr) uniam-se sob o comando de Cristiano de Gristell. Os alemães de Colónia, e de uma forma geral todos os provenientes do Sacro Império, tinham por líder Arnaldo de Aarschot. Grande tempestade sofreram, a 28 de Maio, no Golfo da Gasconha, dispersando-se a frota de tal forma que só mais tarde, na costa galaico-portuguesa, se voltariam a reunir, arribando à foz do rio Douro a uma segunda-feira, 16 de Junho.
O arcebispo de Braga, João Peculiar, havia recebido carta de Bernardo de Claraval:
– Aproveita para convenceres os cruzados a dar uma ajuda em Lisboa. E diz ao Afonso Henriques que não se esqueça que me prometeu as terras de Alcobaça para aí construirmos um mosteiro de Cister.
Peculiar logo mandou mensagem ao rei que estava em Coimbra, local onde a corte residia.
Afonso respondeu de imediato:
– Amanhã, 6 de Junho, parto com o exército para Santarém e, logo após, sigo para Lisboa. Diz ao bispo do Porto que vá receber os cruzados e os mande irem ter comigo. Ele que prometa o que tem e o que não tem, não interessa; importante é que a frota dos cruzados apareça no Tejo em frente às muralhas da cidade para assustar os mouros.
– Venham, venham, que muito prazer tenho em vos receber no meu humilde paço episcopal – propôs afavelmente o antiste do Porto, D. Pedro Pitões, aos comandantes da frota.
E logo continuou:
– Estais decerto cientes do pedido que Bernardo vos fez para que ouvísseis as propostas do meu senhor, o rei de Portugal. Em causa está o apoio que possais conceder à conquista da cidade de Lisboa. Os vossos conhecimentos de técnicas de cerco poderão auxiliar-nos a derrotar o Mouro.
Os cruzados podiam jurar que a viagem encetada se destinava a proteger a Terra Santa, contudo, a par da honra, esperavam também encontrar o proveito pessoal. Por isso, mantiveram-se atentos ao clérigo, para no final questionarem:
– Sim, sim, mas diz-se que a acção de Bernardo será premiada com a doacção das fartas terras de Alcobaça. Assim sendo, e se de negócio se trata, pretendemos saber o que nos oferece Afonso para que o ajudemos.
Pitões sabia até onde podia comprometer-se:
– Pois se assim o desejais, digo-vos que o rei já se encontra a caminho, tendo saído de Coimbra no passado dia 6. Se acaso Deus insinuar em vossos corações que deveis ir ter com ele, e com ele quiserdes ficar até ser tomada a cidade de Lisboa, pela nossa parte vos faremos uma proposta em consonância com as disponibilidades do património régio.
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.