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Projecto pioneiro de colaboração com a Biblioteca Municipal de Cascais, destinado a contar a História da Ibéria a crianças. Os contos são apresentados sob a forma de narrativas originais ou adaptadas do nosso património histórico-cultural.

TEMÁTICA: A CONQUISTA DE LISBOA
A história do cerco de Lisboa, acontecido em 1147, chegou-nos através de fontes islâmicas e cristãs. Das primeiras destacam-se as obras Kitāb Farhat al-Anfus, de Ibn Ghālib; o Kitāb al-Ja‘rāfiyya, de Al-Zuhrī ; a De Geographia Universali ou kitāb Nuzhat, de al-Idrīsī. No caso dos crentes na cruz, as narrativas epistolográficas pertencem a cruzados que na peleja participaram ou que foram transmissores do acontecimento, casos de Osberno/R(aol), Vinando, Arnulfo e Duodequino.
O mais pormenorizado testemunho chegou-nos pela pena de Osberno/R(aol), através da Cruscesignati Anglici Epístola de expugnatione Lyxbonensia, isto é, a Epístola dum Cruzado Inglês sobre a Conquista de Lisboa, manuscrito copiado entre os anos 1180 e 1220, e que descreve: (as) adversidades desta nossa viagem, e bem assim os feitos, os ditos, ou tudo o que, durante ela, virmos ou ouvirmos e for digno de relato.
Pelas citações bíblicas, deduz-se que fosse um cruzado inglês (o que não o impede de ser normando, algo que desde a batalha de Hastings, em 1066, em que Guilherme conquistou a Inglaterra, passou a nomenclatura certificadora da unidade territorial), sacerdote-guerreiro, dualidade perfeitamente normal no século XII. Manejaria com idêntica habilidade cálice e espada. A carta do cruzado começa por : Osb. de Baldr. R. salutem. (Por Osb. de Baldr. entenda-se Osberno, Osborne ou Osberto de Baldresseia. O R. é atribuído, hoje em dia, a um presbítero normando chamado Raul ou Raol. A primeira questão que se coloca tem a ver com emissor e receptor. Quem escreveu a missiva? A quem corresponde o nominativo (o emissor), e, por conseguinte, o dativo (o receptor)? Em princípio Osb será o nominativo. Era essa a norma corrente na escrita latina. Curiosamente, a carta de Arnulfo (de quem se falará mais abaixo) começa assim: Miloni venerabili Tarvaniensi episcopo Arnulfus. E agora? De repente, o dativo tornou-se prioritário. E aqui sem qualquer espécie de dúvida sobre quem escreve e a quem se dirige.
O segundo testemunho tem origem no cruzado Arnulfo, sacerdote morinense (nome dado ao povo que ocupava, ao tempo, a região de Artois), o qual expõe as operações militares em carta dirigida ao bispo Milo (talvez Milão), da cidade de Therouanne, à beira do rio La Lys, em França. O seu relato foca os sucessos ocorridos no acampamento flamengo, e, mais concretamente, entre os companheiros que consigo haviam iniciado a aventura cruzada em Boulogne-sur-Mèr, recrutados pelo referido bispo. A visão de Arnulfo indicia a parcialidade de Osberno, e corrige-lhe algumas omissões. A narração do inglês no que respeita à segunda versão da construção da torre no lado ocidental, reza assim: De novo os ingleses, os normandos e os que estavam com eles começaram a fazer uma torre móvel de oitenta pés de altura. Continua afirmando que, concluída, aproximaram-na das muralha e colocaram-na entre a torre e a porta férrea, guardada por cem dos seus cavaleiros, bem como outros cem galegos ou portugueses. Arnulfo possui outra versão. Alude a que a torre fora feita tanto à custa do rei, como pelo trabalho de todo o exército. E mais esclarece que, quando a torre foi atacada, os lotaríngios e flamengos enviaram os seus exércitos a defendê-la. A fazer fé no morinense, ficam expostas a parcialidade e as omissões de Osberno... ou Raul.
Modernamente tem-se posto em causa a veracidade dos autores dos relatos mencionados. Já referi a questão do binómio Osberno/Raul. Cabe agora esclarecer que certas fontes históricas avançam com a possibilidade deste Raul ser o autor e Osberno o receptor, acrescido da curiosidade daquele possuir por apelido Glanville, patronímico por adopção de origem, certamente. O que abre uma nova questão: que relação existe entre este último e o condestável Herveo, também de apelido Glanville? Pura coincidência ou existiam entre ambos laços familiares?
Também o caso de Arnulfo surge algo ensombrado pela incerteza. Há correntes a afirmarem que o verdadeiro autor da epístola é Vinando. relegando o morinense para executor duma cópia com receptor diferenciado daquele. Ou será que é Duodequino o escriba? Baralhe-se e torne-se a dar.
A atentar na ênfase concedida ao que os seus deixou escrito, e a quem tal conteúdo pudesse interessar conhecer, Osberno e R. serão certamente ingleses. Decidir entre Osberno e Raul, de Glanville ou de outra coisa qualquer, pretender cavar um fosso entre latinistas ortodoxos e racionalistas modernos, torna-se impossível. Decida quem possui tal competência. Para mim, a narrativa é muito mais importante para entendermos os sucessos do cerco, do que a descoberta do papel que aos vários emissores, receptores e simples copiadores coube.
A saliência final tem mais a ver com o rigor do que a razão. Diga-se então que também na Historia Compostellana, na Crónica do Imperador Afonso VII e na Crónica Najerense, se observam descrições menores sobre o tema aqui em questão.
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.
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