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Projecto pioneiro de colaboração com a Biblioteca Municipal de Cascais, destinado a contar a História da Ibéria a crianças. Os contos são apresentados sob a forma de narrativas originais ou adaptadas do nosso património histórico-cultural.

Liberta de castelhanos em Outubro de 84, Lisboa sarou as feridas e preparou-se para o que de lá viria. Nuno Álvares Pereira constituíra uma força especial de cavalaria com cerca de 300 homens escolhidos entre os mais leais ao partido português. Entre estes estava Ramiro Fróis Coutinho, segundogénito de afamado e poderoso clã das Beiras. O pai, o velho Leopoldo, ficou estupefacto perante a decisão do filho em se aliar às forças do mestre de Avis:
– Pequice a tua. A nossa família sempre pugnou pela lealdade ao rei. Queres desgraçar o nome dos teus antepassados?
– O pai fala de lealdade, mas a verdade é que não o vejo comprometer-se com lado algum, antes o sinto na expectativa, como que a ver para que lado sopra o vento.
– Estás a confundir cobardia com bom-senso.
– Onde o pai vê bom-senso, vejo eu, perdoe-me que lho diga, manha de burro velho.
Para o progenitor, a ter de envolver a linhagem na luta, melhor faria em apoiar o monarca castelhano, acreditando que, em caso de vitória, veria honra e acrescentamento, e, mesmo em contrário, Juan seria magnânimo ao ponto de compensar – em Castela – os Coutinho pelas perdas e exílio forçado. Foi naquele preciso momento, ainda a tempo de escutar tais palavras, que entrou no solarengo salão o irmão mais velho, Sesnando Fróis Coutinho. Logo entendeu intervir no diálogo:
– Se discordo por inteiro de meu irmão, também não posso concordar com o pai. O herdeiro de direito é o infante João, ora preso em Toledo. Apoiar Juan é fazer o jogo dos Castro, dos Tello e dos Meneses: é ainda ficarmos submetidos à poderosa nobreza castelhana. Estou farto das migalhas reais, de ver o quão ostracizada tem sido a nobreza de sangue lusitano.
Porém o pai não estava pelos ajustes:
– Acaso o infante não é também um Castro?
O primogénito, tal como o pai, tinha o lado prático bem apurado.
– Será, mas também é português. Do mal, o menos. Saberá premiar quem o apoie e não a família que pouco ou nada o ajudou quando ele matou a Maria Teles e se refugiou em Castela.
– – Imagina que apostamos no lado errado, que Beatriz recupera o trono. Que aconteceria aos nossos bens? – insistia o ancião.
– Muito provavelmente seriam confiscados por desserviço a Juan.
– E sem terras, que faríamos?
A discussão prometia não ter fim. Contudo, também Ramiro tinha visão pessoal interessada:
– A mim pouco me interessam propriedades e riqueza que nunca serão meus, pois, pelo direito divino e canónico, a ti – apontava para Sesnando –, por seres o mais velho, cabe a herança de nosso pai. Que me espera? Viver às tuas custas? Integrar uma Ordem Militar? Ganhe o Mestre esta guerra, e comigo se inaugurará um novo ramo da família.
– À nossa custa, imagino, minha e de teu irmão – retorquiu ofendido D. Leopoldo, sentimento que não passou desapercebido a Ramiro.
– O pai estará provavelmente velho de mais para entender que não nos podemos esconder debaixo do manto da neutralidade.
– Sempre o fiz e não me dei mal.
– Outros tempos, outros conflitos. Nesta guerra pelo trono de Portugal só haverá lugar para um. O povo que dá o sangue pelo Mestre não admitirá o perdão daqueles que se colocarem ao lado de Castela.
– Achas-me um traidor, desnaturado filho? – gritava o patriarca, aparentando começar a perder a lucidez. Todavia, Ramiro esforçava-se por manter a calma:
– Traidores e patriotas são duas faces da mesma moeda. Ainda há bem pouco era a nobre família Coutinho exemplo de fidelidade a D. Fernando.
Sesnando sentiu-se tão injuriado que declarou sentença sem apelo:
– Pois se pretendes ir para o Mestre, vai, que esta não é mais a tua casa. A partir de hoje deixo de te reconhecer como irmão. Se acaso nos encontrarmos no campo de batalha, que a morte se amerceie de ti.
Ramiro sentiu a ira do irmão. Ainda assim, lançou intrigante premonição:
– Aqui voltarei um dia. E, nessa altura, ninguém me expulsará.
O ano de 1385 começou com um bizarro acontecimento: uma tentativa de assassinato de João de Avis. Os conselheiros do Regedor e Defensor do Reino tudo fizeram para abafar um caso que, a tornar-se público, demonstraria a fragilidade dos laços que uniam a hoste revolucionária. Por portas travessas, soube-se que haviam sido quatro os conjurados, e que um deles acabou mesmo enforcado.
Em Março o Mestre anunciou que se iriam fazer cortes:
– É preciso aprovar um plano dos meios necessários para fazer face aos custos com a guerra – disse, deixando no ar a suspeita de que tal não passasse de pretexto, cujo fim era, só os mais próximos pareciam conhecer.
Em Coimbra se faria a reunião. Por essa ocasião já Ramiro fazia parte da força de cavalaria de Nuno Álvares Pereira. Assim se dirigiu o fronteiro às três centenas de homens que comandava logo que à cidade universitária chegaram:
– Daqui, ou o Mestre sai rei, ou passamos os opositores todos à espada.
Só naquela altura o mais novo dos Coutinho percebeu que dera um passo que não admitia volta atrás: matar ou morrer. Aquele Nuno que, tal como ele, teria pouco mais de vinte anos, levava muito a sério a revolta. Nada semelhante ao que, em tempos, Ramiro vira na casa paterna, pelejas com outras famílias nobres que acabavam em acordos de casamento. A ingenuidade do jovem beirão ficou evidente na questão com que interpelou o comandante:
– Vamos mesmo ter de matar próceres do reino por causa de uma discussão sobre fundos?
Riram-se os demais. Nuno Álvares Pereira manteve o ar sério e contestou:
– Sabes quem é aquele? Provavelmente não. É João das Regras, eminente doutor de leis. Que achas que veio cá fazer?
Ramiro ficou encabulado. Conhecia lá semelhante peça. Acabou de chegar de Bolonha? Ah! Onde fica tal lugar? Tão longe? O jovem vivera nas Beiras, desconhecia as figuras públicas, o mundo da política, as intrigas cortesãs.
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.
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