Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]



Conto XIX - "Sonho e Pesadelo"

por Eduardo Gomes, em 10.10.19

1.png

SONHO E PESADELO

Corria o ano de 1411, quando o vedor da Fazenda Real, João Afonso de Alenquer, se cruzou propositadamente com suas altas majestades os três infantes filhos mais velhos de D. João I. Tomando o herdeiro gentilmente pelo braço, assim lhe falou:

– Que saudades tenho doutros tempos... Ontem mesmo não passáveis de crianças...hoje sois homens feitos. Nas veias corre-vos sangue Avis e Lencastre, exemplo para todos os vossos súbditos.

Duarte suspeitou do elogio despropositado e logo replicou:

– Deixa-te de volteios, que é coisa é mais própria para os salões dançantes. Que nos queres dizer, João Afonso?

Contudo o vedor não parecia disposto a abrir o jogo. Ademais sabia bem ao que ia:

– Nada tenho em mente, Senhor, que não o bem da nossa terra e da real família...

– Desembucha, homem, que já me estás a pôr nervoso.

– É que chegou-me aos ouvidos a intenção de vosso pai em vos armar cavaleiros...

João Afonso acabava de tocar na ferida que sabia dolorosa para os infantes.

– Sim, é verdade, já no-lo prometeu.

De lado, Henrique não se conteve:

– Quer promover uma festa cavaleiresca para tal ocasião

Malicioso, o vedor logo aproveitou a deixa:

– Não me recordo de ver tal desprestígio nestes reinos. A nobreza de serdes armados cavaleiros obtém-se em combate com a mourama, não nos salões reais.

Até Pedro, o mais comedido dos infantes, achou por bem intervir na conversa, fazendo-o com a inteligência que já na ocasião demonstrava:

– Que propões que façamos, João? Pergunto-to, porque é óbvio que trazes pensamento feito.

– Unam-se e intercedam junto do rei vosso pai. Pedi-lhe que vos confie a direcção do projecto de conquista do litoral marroquino.

E, passada a surpresa inicial:

– Imaginai: Tânger... Arzila e, porventura mais tarde, Salé, Alcácer, Anafé, Azamor, Santa Cruz do Cabo de Goé...

A Henrique, sempre impetuoso e impulsivo, parecia-lhe escutar música celestial. Porém, mais comedido se mostrou Duarte:

– Conseguíssemos de nosso pai permissão para nos irmos primeiro a Ceuta, que mais à mão nos fica... Quanto ao resto, logo se veria.

O caminho estava trilhado. Por já o haver discutido com o rei, bem sabia João Afonso da oposição daquele a tal projecto, ou assim o cria. O caso era que desde Aljubarrota, vinte e cinco anos atrás, estavam as armas portuguesas a enferrujar. A guerra era o meio fácil para a nobreza fazer fortuna, fosse pelo saque ou pela mercê real. O descontentamento atingia particularmente os filhos segundos daqueles, gente afastada legalmente da herança paternal. Muitos haviam mesmo partido, sobretudo para Inglaterra, para se juntarem aos exércitos do aliado que combatiam os franceses.

– Importante é desviá-los das acções depredadoras sobre as terras fronteiriças de Castela. Ainda há bem pouco alcançámos uma paz sustentável, e não quero, nem por sombras, envolver-me noutra guerra com tal vizinho – assim explicara o monarca ao vedor o pensamento que alinhavara.

– Mas Alteza, a expansão para África é também uma forma de guerra. Eu que o diga, que bem o sei pelos custos que enfrentamos com a reconstrução do reino, e pelos quais tanto temos desvalorizado a moeda e tornado a vida cruel ao povo. Imaginai, por um minuto, que os infantes dão em cismar em tal aventura?

– Cá estarei para os contrariar.

– É mesmo vossa opinião que seria descabido tal plano?

– Não é assunto em que não tenha já pensado.

Na verdade, D. João não estava assim tão seguro de que, ponderados prós e contras, continuaria tão irredutível. A questão era que, naquele momento, convinha-lhe que o vedor fosse tão assertivo quanto possível na estratégia de manipulação da opinião dos infantes.

Bem preste os filhos se dirigiram ao pai, Henrique à cabeça, excitado com a ideia da aventura africana. D. João não os quis desencorajar, fazia mesmo parte do plano animar os infantes a continuarem no seu propósito. E, por tal, colocou-lhes uma dúvida acima de tudo o mais:

– Necessito saber se a aventura africana é serviço de Deus, pois sobre tal premissa devemos fazer nosso alicerce.

Rapidamente os jovens buscaram o apoio dos mais importantes clérigos do reino, todos unânimes em considerarem a importância da expansão da Fé... e, se possível, a corrida às bulas e aos rendimentos eclesiásticos, objectivos a tresandarem a poder temporal.

Da busca por tão transcendentes testemunhos, viu-se o rei compelido à sua aceitação:

– Concordo que isto seja inteiramente serviço de Deus.

Porém novas questões se colocavam:

– Agora, é de ver se sou poderoso para o fazer Achei muitas e grandes dúvidas, das quais principalmente direi cinco:

– primeiramente, considero que para semelhante feito se requerem mui grandes despesas, dinheiro que eu não tenho;

– secundariamente, é necessário uma mui grande frota de navios;

– a terceira cousa é a abastança da gente que não tenho, e eu não tenho a de fora nem a esperança como a haja, principalmente pelo falecimento do dinheiro;

– a quarta dúvida que tenho é considerar que o filhamento desta cidade me pode fazer maior dano do que proveito;

– a quinta cousa me parece que é, sendo assim que cobremos esta cidade a nosso poder, que nome ou honra nos vem se ao adiante não pudermos manter ou defender?

Por aquela não esperavam os infantes. Henrique logo se incumbiu de ir analisar e ponderar nas soluções a tantas dúvidas.

 

(Continua)

 

Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 18:23


Comentar:

CorretorMais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.



Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D