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Conto XX - "Al-Magrib"

por Eduardo Gomes, em 07.11.19

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A epopeia de Portugal no Norte de África começou em 1415 com a conquista de Ceuta. De legitimidade serviu a João, o da Boa Memória, cujos destemperos de consciência justificam que equacionemos o porquê de tal cognome. Muçulmanos e genoveses, gente habituada a mercadejar na cidade, preste desandaram. Qual rota do ouro e das especiarias: nada. O futuro revelava-se: uma cidade fantasma, sem muçulmanos, sem comércio e sem gente para trabalhar, a requerer permanente apoio do reino.

Contudo, já anteriormente por lá haviam bordoado ou espadeirado povos estabelecidos na Península, tais como os Lusitanos ou os Visigodos, e, diz a lenda, morrido o primeiro comandante da armada portuguesa, Fuas Roupinho, sem esquecer Giraldo, o Sem Pavor, que, por artes do diabo, tentou seduzir Afonso Henriques a atravessar o Estreito. Para trás deixámos propositadamente fenícios, gregos, cartagineses e romanos, posto jamais haverem sido inteiramente “nossos”, antes, e com mais propriedade, “viajantes do mundo”.

A Tânger fomos, as duas primeiras vezes sem proveito, algo que se assemelhou ao proverbial “ir por lã e volver tosquiado”. À terceira, a confirmar que “é de vez”, o fruto caiu-nos nas mãos de maduro. Sem engenho, diga-se. Oferecê-lo-íamos mais tarde, a título de dote ou prémio pela infidelidade e maus-tratos de Carlos II sobre a Catarina. Essa mesmo, a do “chá das cinco.”

O cavalheiresco, arcaico e idealista rei Africano afadigou-se em superar os seus émulos logo que Calisto III anunciou, corria 1455, a cruzada contra o Turco. Porém, os tempos haviam mudado, outros valores mais altos se levantavam entre os reinos cristãos. Para não deitar menino e água do banho fora, Afonso pegou nos preparos e bulas e virou a agulha da expedição para Alcácer-Ceguer. De lado, sorriu o tio, o impenetrável infante D. Henrique. É que se ia concretizando o sonho de montar em terra, a ocidente, um conjunto de apoios nevrálgicos para a aventura atlântica: o célebre plano das Índias, com ou sem o Preste e o seu mítico reino cristão situado algures no interior de África.

Chegara entretanto a vez de Anafé, a actual Casablanca. Se posteriormente arrasada ou simplesmente abandonada, é mistério que está por resolver. Porquê? Porque ficava muito a sul, tal como Arguim e o golfo da Guiné. Mas não era das regiões subsarianas que vinha o ouro? Era, mas Afonso V, qual Santiago, sentia-se mais vocacionado para “mata-mouros.”

Desaparecido o marinheiro de água doce, isto é, o mito a que chamamos o Navegador, epíteto sem sentido, fomos por Arzila. Canto de sereia do monarca que por ali se ficaria à mercê do apelo europeu nos braços infantis de Joana, a Beltraneja. D. João II seguiu o concelho de Pedro, o tio avô morto em Alfarrobeira pelos exércitos do pai, e sonhou mais alto. Da Mina, terra que não vem aqui ao caso, viria a vertigem da riqueza fácil. Outras histórias.

Do rei Venturoso se dirá que nasceu com “o dito cujo virado para a Lua”. Com ele se construiu a fortaleza Santa Cruz do Cabo de Guer, a actual Agadir, e se conquistou Safim, enquanto em Arzila soavam as trombetas a anunciar o cerco da mourama. Em 1506 edificámos o Castelo Real de Mogador, depois Essaouira, para, seis anos mais tarde, o abandonarmos. No biénio seguinte converteríamos Azamor e Mazagão em terras cristãs. Fachada para “Papa ver”, entenda-se.

Deixemos Manuel, o Felicíssimo, e passemos ao Piedoso D. João III. Débil de intelecto, teve o condão de dizer “basta! ” ao “sorvedouro do reino” em que Marrocos se transformara. Demos, pelo canto do olho, uma piscadela a al-Madi que, ao reverter a posse de Santa Cruz do Cabo Guer, nos obrigou a constatar uma realidade: os reinos de Fez, Marraquexe e Mequinhês unidos eram de mais para Nação tão pequena enfrentar por si só. Era chegado o tempo de reforçar as praças de Mazagão – hoje El Jadida – Tânger e Ceuta. Quanto às restantes possessões, tudo o vento do deserto levaria. Conquistas que nada acrescentaram ao reino, para além do garbo militar, da extorsão e da prossecução de interesses privados.

O louco Sebastião empurrou Portugal para o abismo de tanta ambição quixotesca. Nos campos de Alcácer-Quibir ficaram os corpos dos muitos mortos e 16 000 prisioneiros. Renegados se fizeram... está bem, está bem, elches, se assim o desejam. Sorte grande para quem arriscou na apostasia e na roda da fortuna, que, por aquele tempo, arredados andavam os agarenos do fanatismo religioso.

Moribunda ia já a Idade Moderna, quando a Lisboa chegaram novas de Mazagão. Os seguidores de Mafoma resolviam pôr ponto final num sonho que se transformara em pesadelo. Constou que recorriam a trincheiras com aproches e novas técnicas de minagem das fundações das fortalezas: – “Tudo para casa – ordenou o Marquês. – Acabou-se a África minha.” Passou a ser “deles”, dos muçulmanos... ou talvez não, pois Espanha tem dois pesos e duas medidas, consoante se discute Ceuta, Gibraltar ou mesmo Olivença.

TÂNGER: PARÊNTESIS OU PRENÚNCIO?

Em Ceuta, apoiado nas ameias da fortaleza, D. Pedro de Meneses olhava a noroeste, como se esperasse a chegada de alguém ou o vazio o incomodasse. Era, em 1436, um homem rico, nobilitado por D. João I e aclamado em Lisboa como herói, mais pela governação que pelos feitos de armas no território africano. Conseguira o grande objectivo a que dedicara a vida: fazer renascer o poder e influência dos Meneses, os quais haviam sido completamente derrotados em Aljubarrota.

Ultimamente, o capitão vinha dando sinais de cansaço, nada de mais para um ancião com sessenta e três anos. Duarte de Meneses, o único filho varão, ainda que de barregã, andava preocupado com tamanha abulia. Aproximou-se de mansinho:

– Que se passa, meu pai, que vos vejo assim tão angustiado?

– Do reino chegaram-me novas de que se prepara farta armada para vir por Tânger.

Consciente da situação local, Duarte não se conteve:

– Mas é praça forte, protegida pelas montanhas e, como se não chegasse, capitaneada por Zalá Benzalá, que desde há 22 anos anda a jurar vingança pela perda de Ceuta. É verdade que a cidade tem um bom porto de mar ...

– Faca de dois gumes: o que serve para atacar, também serve para defender. Não entendo como o rei se deixou envolver em tal aventura. No tempo do pai não se faziam assim as coisas

– Quiçá andará mal aconselhado – insinuou o jovem.

A retoma da ideia da expedição a Marrocos não era nova. Já em 1432, ainda em tempo do pai, Henrique propusera tal aventura. Todavia, o primogénito real, de há muito responsável pela Fazenda, opôs-se por razões ligadas ao estado do Erário Régio. Adiado ficaria o projecto. Três anos mais tarde, Fernando, o mais novo dos filhos de D. João e Filipa de Lencastre, dirigiu forte lamento junto do já então monarca, o irmão Duarte:

– Majestade, custa-me viver à custa de vossa Fazenda. Eu sou mancebo que nada fez na vida digno dos pais e irmãos que tenho. Peço-vos que me concedeis bênção e licença para me ir fora destes reinos.

– Que dizes, Fernando? E para onde irias?

– Onde Deus e a minha ventura me guiarem. Acaso os estados papais; quiçá França; porventura as terras do imperador da Alemanha, regiões com grande largueza de terras

El-rei não podia aceitar tamanho pedido. Logo volveu:

– Ambição exagerada tens. É preferível o pouco dentro do reino, do que o muito fora dele. Ademais és mestre de Avis, donde te vem riqueza que te dignifica. Repara em teu irmão João, a quem ofereci o mestrado de Santiago, bem menos valioso do que o teu, e com ele se contenta.

 

(Continua)

 

Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.

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publicado às 23:08


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