Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Projecto pioneiro de colaboração com a Biblioteca Municipal de Cascais, destinado a contar a História da Ibéria a crianças. Os contos são apresentados sob a forma de narrativas originais ou adaptadas do nosso património histórico-cultural.

INTRODUÇÃO
O sonho da união ibérica percorreu a Idade Média peninsular. Tal aspiração parece haver-se tornado questão de prestígio para as respectivas monarquias. A dinâmica do desejo pode filiar-se na luta contra a mourama, mas não só. Representou, posteriormente e à medida que a Reconquista avançava, a consequência natural da unidade cultural, da trajectória histórica e da homogeneidade étnica dos povos que a constituíam.
Os movimentos de agregação são observáveis em Fernando Magno, Afonso VI e o auto-intitulado imperador Afonso VII. Só a partir do século XII se começou a admitir a ideia de forças diferentes, contudo unidas no mesmo objectivo. Relembre-se que, ainda assim, Afonso Henriques esteve 36 anos à espera da bula papal que fizesse de Portugal estado independente vassalo da Santa Sé. E até Afonso X quis transformar a “questão Algave” num caso de sujeição política.
Os monarcas de Portugal e de Castela, em particular, viveram alternadamente o projecto da união nos finais do medievo Pela guerra ou através dos casamentos que acabam a colocar várias coroas na mesma cabeça. O luso Fernando achou-se com direitos ao sólio castelhano-leonês; Juan I acreditou que casar com Beatriz,a herdeira portuguesa, lhe daria para si e para os seus o pote do ouro; Afonso V tentou levar Joana, a Beltraneja ao colo até Madrid. Peso a mais. A Católica Isabel e João II casaram os filhos, legítimos sucessores dos respectivos reinos. Debalde. E, contudo, Isabel insistiu, já não com o príncipe, mas com o próprio rei Manuel. Miguel da Paz se chamou o rebento que iria ter nas mãos o poder peninsular. Morreu com dois anos. Estava escrito que só à força bruta se atingiria o desiderato. Em Alcântara, Filipe II colocou nas mãos do duque de Alba o futuro que adivinhava risonho. Passou a Filipe I de Portugal quando a Idade Moderna era já centenária. Pelo caminho haviam caído os reinos de Leão, Aragão e Navarra. Safa, estava difícil.
O CONTO
Treze anos se haviam passado desde que Henrique de Castela, Príncipe das Astúrias e de Jaén. casara, em 1440, com Branca de Navarra. Naquele dia, furioso, ordenava ao mordomo-mor:
– Escreve ao Papa a pedir-lhe que anule o casamento, pois minha esposa não me dá um herdeiro.
De uma câmara interior, ouviu-se voz feminina gritar:
– Nem eu, nem ninguém to pode dar. O problema não é meu; é teu.
O casal tinha fama de serem ambos estéreis. Talvez sim, talvez não, certo é que o casamento nunca foi consumado, e Branca, após exame físico, foi declarada em estado de virgindade. Intrigante seria o seu futuro, pois não mais voltou a casar e nem teve filhos.
Terminada a guerra civil da primeira metade do século XV que teve por protagonistas os infantes aragoneses, o caos instalou-se em Castela, mercê dos abusos, desordens e desmandos senhoriais. A férrea defesa dos interesses daqueles tinha provocado a queda do condestável do rei, Álvaro de Luna, mandado decapitar em 1453, decisão influenciada pela rainha Isabel, a Louca, neta de D. João I de Portugal.
Não estava em causa a sucessão de Juan II. O monarca casara por duas vezes. Do primeiro matrimónio só Henrique sobreviveu. Do segundo, havia uma menina com dois anos, e aguardava-se o resultado de nova maternidade da rainha para o final daquele ano de 1453.
Solteiro de novo, o príncipe pediu ao valido de confiança, João Pacheco, marquês de Vilhena, cuja família tinha origem portuguesa, que lhe buscasse alternativas matrimoniais. Posta a animosidade latente com Aragão e Navarra, foi-lhe sugerido virar os olhos para ocidente. Henrique decidiu encontrar-se com Afonso, monarca luso:
– Estava a pensar na tua irmã, Joana. Que achas?
Afonso V parecia não se querer descoser.
– Sabes que não tenho dinheiro para tão grande dote – desculpou-se, com alguma dose de verdade.
– Isso resolve-se – volveu Henrique
Contudo, o português hesitava, caminhando sem cessar dum lado para o outro, o que fez tornar o castelhano:
– Então, anuncia-se o casamento ou não?
– Sabes que minha irmã é mulher dada a prazeres próprios da idade, digamos assim. E, com ela, tem um séquito de aias do mesmo calibre.
– E daí? Não me achas capaz de a pôr na ordem? – insistia Henrique.
Afonso aparentava cada vez mais desconforto:
– É que ser rainha de Castela obriga a muito resguardo e discrição.
O castelhano apercebeu-se de que Afonso se esquivava:
– Desembucha, homem! Que te preocupa, que não entendo?
– Cheira-me que estás a querer arranjar noiva para contrariares os rumores acerca da tua impotência para teres um herdeiro.
– Presuntiva... admito, face ao casamento desfeito. Mas tu não acreditas nisso, pois não?
– O que eu acredito pouco interessa. O importante é teres a noção de que tal enlace vai estar debaixo de olho de muitos dos teus. Tens 30 anos e em breve serás rei. Queres mesmo avançar e correr tal risco? Se sim, explica-me como resolvemos a questão do dote.
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.