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Projecto pioneiro de colaboração com a Biblioteca Municipal de Cascais, destinado a contar a História da Ibéria a crianças. Os contos são apresentados sob a forma de narrativas originais ou adaptadas do nosso património histórico-cultural.

No seu gabinete do palácio de Sintra, D. João II ouviu, no corredor de acesso, o calcorrear de botas que traziam pressa. Talvez por isso, não se surpreendeu por sentir que os guardas logo davam passagem ao visitante:
– Pêro, sê bem-vindo.
Pêro da Covilhã era assim conhecido por ter nascido na cidade serrana. Aos 18 anos fora convidado para ir a Sevilha colocar-se ao serviço do duque de Medina Sidonia. Espadachim credenciado por loucuras próprias de tão tenra idade, foi-lhe proposto acompanhar D. Juan de Gusmán nas actividades corsárias a que o duque se dedicava. Recusou. Ainda assim viveria na Andaluzia por sete anos, até 1474, data do início da guerra civil pela sucessão de Henrique IV. Naquele ano voltaria a Lisboa e seria recebido como moço de esporas de D. Afonso V, embora rapidamente ascendesse a escudeiro, que o levaria a acompanhar o exército real na batalha de Toro e na malograda expedição a França.
A política castelhana daquela época era um exemplo paradigmático do enfraquecimento do poder real em favor de uma nobreza cada vez mais soberba e impune. Ademais, a Reconquista cristã, sobretudo no sul da península, parecia incapaz de anular a cultura e tradição islâmicas, que se instalavam na forma de vida quotidiana castelhana. Nada que não se observasse também a leste, com Aragão, ou oeste, em Portugal. Os arabismos traduzidos para as respectivas línguas, vertiam a islamização ibérica. Expressões corteses como ésta es su casa (Al-bayt baytak) ou o Venga usted a comer!, ou os béricos si quiere Dios/se Deus quiser, e ojalá/oxalá (wa sa’a-l-lah). Mas não só. Os conquistadores começaram a recorrer aos banhos públicos, as mulheres a usar lenços na cabeça, e até os homens cavalgavam à gineta. Bem podia arvorar a bandeira de Castela e Leão na torre mais alta do Alcazar: Sevilha era islâmica. Tão islâmica que até os judeus ali se haviam acolhido em busca da tolerância que em terras da cristandade mais ortodoxa não podiam aspirar.
Voltemos agora à conversa entre D. João e Pêro da Covilhã:
– Mas só agora reparo: que má cara trazes.
– Na verdade não tenho motivo para tal, alteza. É cá um sentir, coisas de meu caco. É que, não obstante as mortes dos duques Fernando e Diogo, não acredito que a vida de Vª Alteza esteja segura.
– Nem tu nem eu. Todavia, creio que a questão se ponha mais ao nível externo que interno. Os traidores vão tentar cair nas boas graças dos monarcas estrangeiros, sobretudo de Isabel. Uma guerra com Castela era coisa que não vinha nada a calhar. Preciso de paz para levar este reino ao progresso e ao desenvolvimento.
– Podeis contar comigo, senhor.
– Preciso dos teus serviços de espião. Manteres-me informado, saber quem são e o que fazem os traidores que se deitaram a Castela. Falas como um natural. Homiziado, ninguém te reconhecerá.
– Assim farei. Porém, tenho uma dúvida. Quando os encontrar, que lhes faço?
– Promove que tenham alguma espécie de “acidente”.
E foi assim que desapareceu da face da Terra o nobre Fernão da Silveira, que se refugiara em França. O espião d'el-rei permaneceu em Castela, durante os anos de 1483 e 1484, aproveitando para observar os costumes e refrescar os conhecimentos da língua árabe. Também o conde de Penamacor estava debaixo do olho observador de Pêro. Todavia, o titular conseguiu escapar para Inglaterra.
Ao voltar a Portugal, o espião quis saber o que se passara com Lopo de Albuquerque:
– Andou a destilar vingança contra o reino e a minha pessoa – contou o rei. – Pedi a extradição, mas o Ricardo III não fez mais do que prendê-lo na Torre de Londres.
– Os Iorque vão perder a Guerra das Rosas. Preste teremos os Tudor no trono de Inglaterra – prognosticou Pêro. – E, já agora, porque me enviastes ordem para não acabar com D. Álvaro, que bem à mão o tive? Não pensais condená-lo?
- O filho Pedro foi julgado e degolado há bem pouco, em Setúbal, ia Setembro pelo meio. O pai fugiu para Castela com o fogo no rabo. É um informador e protegido dos Reis Católicos. Não te quero meter em riscos desnecessários nem arranjar problemas diplomáticos. Fiquei-lhe com os senhorios de Castanheira, Cheleiros e Povos. Está velho; a natureza cumprirá o que agora não faço eu.
Cansado da viagem e ansioso por voltar ao seio da família, Pêro partiu para a sua terra, consciente de que o rei lhe preparava nova tarefa.
– Dá-me cabo do coração as tuas ausências, o saber-te em perigo – assim o recebeu Catarina, a esposa.
– Coisas de mulher. Sou escudeiro d'el-rei, bem o sabes. D. João mandou-me estar preparado para novo encargo. Decerto pouco me demorarei por cá.
– E já sabes se vais de novo para Castela?
– Do preste das Índias? Que doideira. Um homem que nunca ninguém viu. Ainda bem que não se lembrou de te mandar lá pra tão longe...ou estás-me a esconder algo e vais com eles?
– Fá-lo-ei, senhor, mas ainda não me dissestes o que lá vou fazer.
D. João mediu o quão confidencial era o que tinha a dizer:
– Basicamente firmar tratados de paz. Mas o mais importante é que ninguém entenda o que escondo por detrás de tal proposta.
– Ainda não sei qual o plano e já lhe vejo constrangimentos, a começar pela visita a Muley Beljabe e não ao seu senhor, o poderoso governador de Fez, Muhammad al-Shaikh (conhecido entre os portugueses pelo Muleixeque).
– Não posso ter segredos para com alguém que vai arriscar a vida por mim. Senta-te e logo te explicarei.
Pêro não conseguiu esconder um sorriso:
– Estratégia é a maior qualidade de Vossa Alteza.
– De um rei espera-se racionalismo, não leviandade.
(Continua)
Os pais / encarregados de educação das crianças envolvidas neste projecto, poderão solicitar a versão integral do mesmo através do e-mail: asvoltasdahistoria@gmail.com.
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